Cultura

Memória de Domingos Buarque no romantismo da revolução

Jomo Fortunato

A canção já foi considerada, metaforicamente, “arma de combate”, uma das divisas que orientou os soldados da revolução angolana, sobretudo os que, no cumprimento apaixonado e voluntário do serviço militar, integrados nas FAPLA, foram revelando propensão para a música, nos momentos de entretenimento e nostalgia.

Imagem da capa do álbum “Fuma” lançado no mercado discográfico em Novembro de 2009
Fotografia: Edições Novembro

A música, companheira inseparável nos momentos de solidão entre os soldados, complementava a ideologia da revolução e foram militares  muitoscantores consagrados da história da Música Popular Angolana. David Zé, Artur Nunes, Urbano de Castro, Santocas e Buarque, são alguns exemplos de um número muito mais dilatado de artistas, militar e politicamente engajados, alguns dos quais vieram a integrar, o emblemático agrupamento FAPLA-POVO.
O movimento em torno da defesa da pátria, constituiu um imperativo voluntário que engajou muitos jovens que viveram de forma entusiástica, participativa e desinteressada, o período que antecedeu à eclosão da independência de Angola, facto que se transformou num motivo inspirador de criação, que ficou na história da cultura angolana, como sendo o mais prolífero, em termos de produção artística.
Buarque fez parte de uma plêiade de intérpretes históricos que cantou os efeitos da revolução angolana, com as canções “Kimbambaku muxima”, Kimbamba no coração, e “Tuákuángolatuáxixima”, os angolanos têm azar, este tema marcou o período da canção política, razão pela qual reproduzimos o texto integral: Akwángolaiódiló zé/ ni kikotoku muxima/ Jinguenjijezamazadina/ santo iami/ a zeca bu sabalalu/ etu tua kuáixi/ tu zeca mu itungo/ kituxikianhituá banga ngana/ tu kuátekesse/ atubingue mu loloké/ ngola iá ngene/ iá kuángola/ atunhana, atu beta, atu jiba, / kingi xi nganekeme/ muxima uami/ kungikata/ ngidilapecalo/ Santana Santa iami/ tu zokelelé/ Santa Ana Santa iami/ tu zokelelé… (Tradução: Angola está a chorar/ com mágoa no coração/ os estrangeiros (referência aos colonizadores portugueses) que vieram recentemente/ dormem em arranha-céus/ e os angolanos em cabanas/ qual é o pecado que fizemos, Deus/ roubaram-nos, bateram-nos, e mataram-nos/ pedimos-te perdão, porque Angola é dos angolanos/ quando penso na nossa condição/ dói-me o coração/ Santo Deus, acode-nos).
Amigo de infância do cantor e compositor João Pequeno, autor do clássico “Mulojiuatula cubata” (o feiticeiro apareceu na cubata), Buarque viveu a dinâmica social do Bairro Rangel, na zona do Bairro Augusto, também designado Rio de Janeiro, numa altura em que eram visíveis as desigualdades, e todas as conflitualidades da sociedade colonial, factos que tiveram uma forte influência no desencadear do seu processo criativo, e entrega na luta de libertação nacional. O “kimbumdu”, a sua língua de eleição, aprendeu com a avó, Lemba Adão, e, quando compunha, Buarque resvalava sempre no amor, na história política de Angola, na defesa da moral e dos bons costumes tradicionais.
Domingos Lopes Filho, Buarque, impetuoso soldado das FAPLA, filho de Lopes Domingos Manuel e de Luísa Manuel Peliganga, nasceu no dia 12 de Maio de 1954, no Município de Icolo e Bengo.
 
Soldado
Motivado pelos ideais da revolução, Buarque integrou o Centro Militar de Quimaria Benza, município do Soyo, em 1975, e sobreviveu os confrontos de 8 de Junho do mesmo ano, numa altura em que se digladiavam os movimentos de libertação. Com ajuda da Marinha de Guerra Portuguesa, chegou a Cabinda, desejoso de assistir a independência de Angola, e recusou, por esta razão, um curso de formação militar, em Cuba. Pelas suas qualidades como soldado e mobilizador de massas, Buarque foi nomeado Comissário Político do Esquadrão na 2ª Região Militar, tendo sido destacado, posteriormente, na comuna do Dinge, com Maiunga, Pedro Santos, Tabita, Kimbamba, referenciado na canção,  Pita e Paixinho, seus antigos companheiros de armas. Nesta altura eram chefiados por Espinosa Martinez, um experiente Comandante cubano, formando um grupo que ficou responsável pela recepção dos recrutas que chegavam a Cabinda, provenientes das várias localidades de Angola.
Um tiro que fracturou a tíbia e o seu perónio esquerdo, na sequência dos confrontos militares no Yema, em Cabinda, transformou o cantor em deficiente físico, no dia 11 de Novembro de 1975, data da independência de Angola, condição em que se encontrava, até à data da sua morte prematura. Buarque passou ainda pela 9ª Brigada Militar, como Comissário Político do 2º Batalhão, em 1976, tendo sido depois transferido para polícia, igualmente como Comissário Político da polícia montada, envergando a patente de inspector.    
Fora da vida artística, trabalhou ainda na então Coordenação Provincial, hoje Conselho de Ministros, e no Ministério do Comércio, como delegado, colocado na Província da Lunda-Norte, Município do Cambulo, localidade onde viveu durante cinco anos, e no Lucapa, onde permaneceu, igualmente, cinco anos, e retornou à música, depois de trinta e cinco anos de silêncio discográfico, com gravação do CD, “Fuma”.

CD “Fuma”

Lançado no mercado, em Novembro de 2009, com sessão de autógrafos em várias províncias do país, incluindo o Bengo, terra natal do cantor, o CD "Fuma", que em português significa fama, tem um alinhamento de dez faixas musicais, interpretadas em kimbundu e português, “Kalunganguma”, “Lamento a João Pequeno”, “Fuma”, “Zinhadiá 40”, “Tuákuángola tua xixima”, Ngambi,  ZéKiboma”, Rumba negra, “Namibe”, e “Chupa”. No CD “Fuma”, para além de canções inéditas,foram restaurados dois sucessos, “KalungaNguma” e “Tuákuángola tua xixima”. Participaram no disco Dulce Trindade, na condição de produtor musical, viola baixo e ritmo, Zé Mueleputo e TedyBenson, viola solo, Josué Rabune, Livongue, e Neto Maradona, teclas, Joãozinho Morgado, tumbas, Nando Bernardino, bateria, Raúl Tolingas, dikanza, Beth Tavira, Dorgan Nogueira e Livongue, nos coros.

Discografia
Buarque gravou o seu primeiro single, em 1972, um disco que inclui as canções “Rosa” e “Rumba maveró”, surgindo depois, ainda no formato single, em vinil, “Vida iá ulogi”e “Kimbambaku muxima” (1974), todos com a etiqueta “Ngola”, e captação sonora de Jofre Neto, gravados com o acompanhamento do extinto conjunto “Surpresa 73”. Em 1974, gravou, nos Estúdios Norte, “Kalunganguma” e “Tuákuángolatuáxixima”, duas canções registadas com a primeira formação do agrupamento os “Merengues”, com Vate Costa (voz), proveniente dos Kiezos, Mulato (congas) e Zé Keno (guitarra solo), dos Águias-Reais, Zeca Tyrilene (viola ritmo), do conjunto, África Show, Carlitos Vieira Dias (supervisão musical e baixo) e Joãozinho Morgado (tumbas), dos Negoleiros, um single que teve a captação sonora de João Canedo.

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