Memória do tempo das

Jomo Fortunato |
12 de Janeiro, 2015

Fotografia: Francisco Bernardo

O timbre e o tratamento dos temas musicais de  António da Luz revelam traços de continuidade com os artistas mais representativos da  Música Popular Angolana produzida na  época colonial, período com o qual o cantor e compositor vem estabelecendo nexos de inspiração e nítidas influências.

A sua música possui uma proximidade estética com as criações musicais de David Zé, Artur Adriano, António Sobrinho, Sofia Rosa, e Artur Nunes.
À data da independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975, António da Luz tinha apenas  doze anos, facto que permitiu passar a sua infância e adolescência a ouvir cantores, compositores e bandas musicais que fizeram época, na era colonial. O timbre, o tratamento dos temas, e a forma como interpreta as suas canções, revelam uma inequívoca nostalgia, e   fazem-nos lembrar a postura e o sentimento dos cantores daquele período. António da Luz conta que o seu   irmão, António da Conceição da Luz, foi  antigo guerrilheiro das FAPLA, possuía habilidades artísticas e fez guerrilha com David Zé, artista com o qual António da Luz possui proximidade familiar.
Estávamos em 1985, ano do seu  recrutamento nas F.A.P.L.A. (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola), e  António da Luz era acompanhado à guitarra por Amaral Bernardo Pascoal e Tony Cafala, período em que viajou por inúmeras províncias de Angola, no tempo do conflito armado,  cantando  e divertindo a tropa e o público circunscrito às zonas de combate.
Embora cante em língua portuguesa e crioulo, António da Luz canta preferencialmente em Kimbumdu, e faz parte da geração dos soldados que se reuniam para cantar à volta das emblemáticas “fogueiras dos guerrilhieros”, ocasiões de demonstração de habilidades artísticas, nos períodos de descanso e de lazer dos combatentes.
Filho de Pedro da Conceição da Luz e de Domingas Bento de Azevedo, António da Luz nasceu na província do Bengo cidade de Caxito no bairro do Kingombe, no dia 19 de Junho de 1963.  O facto de ter passado a  infância  e adolescência nos bairros  Cazenga e Sambizanga, contribuíram para a sua afeição à música popular, períodos em que passou a frequentar as sessões  de   espectáculos denominados, “Kutonocas”, sobretudo os que foram realizados no Bairro Cazenga.
Em 1986,  António da Luz, enquanto vocalista, fundou o “Trio Belle Guidé” com Amaral Bernardo Pascoal (viola ritmo), Pierre (baterista)  tendo sido convidado a integrar, mais tarde, o Agrupamento Musical 8ª Cadência, pertencente a oitava Região Política Militar do Bengo, com Americano (viola solo), Amaral (viola ritmo), Britânico (viola baixo), Pierre e Mano Pepas (bateria), e Sandra da Silva, Titi Matias, Isaías, Mulaúla nas vozes.
António da Luz pertenceu ainda aos grupos de música e dança tradicionais “Iximbi ya Ndangi”, no Bengo, e “Mizangala iá Ndimba”, no bairro Sambizanga, em Luanda. Em 1987 foi chamado a fazer parte do Agrupamento Musical 21 de Janeiro, da Força Aérea Nacional,  com os vocalistas António Pedro Caetano (Caitas), Carvalho Manuel Diogo (Rey Valito) e Adelino João António (Lino). Deste conjunto faziam ainda parte: António Louro Pereira (viola solo), Chiquinho (viola ritmo), Décimus (viola baixo), Lilas (baterista), e Massoxi (tumbas).
António da Luz integrou ainda a Banda Zimbo em 1992, foi vocalista principal da Banda Baião, formação musical do emblemático guitarrista dos Jovens do Prenda. Durante a sua carreira foi acompanhado por alguns dos mais representativos agrupamentos musicais angolanos: Os Kiezos, Jovens do Prenda, Fenomenal, Som da Juventude, 1º de Agosto, Facho, e Versáteis.

Prémio


António da Luz foi um dos seleccionados à fase final do Prémio Cidade de Luanda, edição 2001, organizado pela Delegação Provincial da Cultura. O prémio possui quatro categorias: teatro, literatura, artes plásticas e canção. Na referida edição participaram dez finalistas: “Dueto salgado”, “Dueto azul”, “As sereias”, “Semba muxima”, “Lukau e Josefina”, “Manuel Damião” (Nelito Bangão), “Paulino Pinheiro”, “Francisco Terramoto” (Pakito) e Carvalho Manuel Diogo e António da Luz.  O cantor venceu ainda a fase provincial do Variante, concurso de Música Popular Angolana realizado em Caxito, Província do Bengo, em 2002. Nesta edição, em  que participaram dezassete concorrentes provenientes dos oito municípios da província do Bengo, os  cantores: Cassule e Gui Manuel ficaram nos lugares imediatos, de um certame organizado pela Direcção Provincial da Educação e Cultura. Participaram no evento, como convidados, os artistas Jota-Jota, Jovem Leão e Isidora Campos.  Pela classificação obtida, António da Luz representou a província do Bengo, em Luanda, na fase nacional, realizado em Novembro, mês da das comemorações da independência nacional.
Em 1989, António da Luz  participou no concurso,  Top dos Mais Queridos, da Rádio Nacional de Angola, com a canção “Muhatu”, e obteve quinto lugar,  edição em que o cantor e compositor,  Jacinto Tchipa, foi o  grande vencedor.. 

Depoimento


Alex Samba, guitarrista da extinta Banda Zimbo, e, actualmente, dos Kimbambas do Ritmo, acompanhou momentos importantes da carreira de António da Luz, e fez o seguinte depoimento: “Conheci o cantor, compositor e guitarrista António da Luz nos finais dos anos oitenta, numa altura em que já cantava, com um certo nível,  no conjunto 21 de Janeiro, formação musical afecta à FAPA/DA, a nossa força aérea militar. Depois desaparece da cena musical, para reaparecer na Banda Zimbo, onde eu era guitarra solo, tendo feito uma certa temporada, depois da prestação vocal do Bangão.  A nossa aproximação e amizade, proporcionou o convite para  que eu gravasse alguns temas no seu CD,  “Consegui com a graça de Deus”, facto que me agradou bastante. António da Luz retoma o timbre e os temas preferenciais dos artistas da época colonial, um exercício que faz com arte, quando interpreta os seus temas. Conservador, gosta de ouvir e é amigo dos seus amigos. Espero que ele tenha uma longa e gloriosa carreira”.

Discografia

António da Luz gravou o seu primeiro CD “Mutudi”, em 1992, pela “Makinu Produções”, do histórico cantor e compositor Teta Lando, onde interpretou, entre outras canções: “Na Lisboa”, “Muxima”, “Ndolo”, “Mona ku dile ngó”, e “Mutombo”. O segundo CD, “Consegui com a graça de Deus” foi lançado no dia 8 de Dezembro de 2014, pela  “Estúdio plenarium”, e  inclui as canções: “Kudimona makunda”,  uma canção que aborda as contradições familiares, “Ndolo”, onde o compositor escreve sobre um amor impossível,  “Laura”, o amor retratado nesta mulher,  “Fuma yami ngó”, reflexões sobre a fama sem proveito, “Kilamba”, um elogio ao poeta Agostinho Neto,  “Muhatu”, aconselha ao homem a não insistir num falso amor, “Escravidão”, nesta canção o cantor lembra com tristeza os tempos da colonização,  “Eu te amo”, ainda o tema do amor,  “Na Lisboa”, canção em que o autor fala da ingratidão,  “Bwé pausado”,  é um auto-retrato do artista, “Lemba yami”, o amor da sua vida,  e “Mutombo”, onde o compositor valoriza  a gastronomia angolana. De notar que, nos seus discos, predominam os géneros: semba, kizomba, kilapanga, bolero e rumba.

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