Mistérios da infância revistos em livro


11 de Abril, 2015

Fotografia: Reuteres |

O novo romance do escritor britânico Ian McEwan, “A Balada de Adam Henry”, foi eleita pela crítica do jornal “The Guardian” como um testemunho brilhante da vida privada e da experiência colectiva das pessoas.

Para o jornal britânico, desde que iniciou a sua carreira literária, nos anos 70, Ian McEwan, com realce para os livros “A Criança no Tempo”, “O Jardim de Cimento” e “Expiação”, é uma consciência incómoda, brutal, irónica e lúcida.
Nos seus romances, adianta, e nas suas peças jornalísticas, o escritor aborda temas e acontecimentos históricos que têm condicionado e moldado a vida privada. “Da ameaça nuclear à eutanásia, das mudanças climatéricas à guerra do Iraque, das descobertas científicas à perspectiva do passado, dos devastadores sofrimentos amorosos aos dilemas morais, dos nefastos efeitos do fundamentalismo religioso ao seu contraponto, a luz da Razão, tudo cabe numa obra que é também testemunho brilhante e uma reflexão filosófica de um autor que, simultaneamente, traça uma bem arquitectada teoria literária dedicada aos fundamentos e desenvolvimentos do romance.”
“A Balada de Adam Henry”, destaca a crítica do “Daily Mail”, é uma ponderação sobre a justeza das Leis e sobre a Ética pessoal de quem as aplica. “O confronto entre uma juíza do Supremo Tribunal e um jovem que recusa, por uma questão religiosa, uma transfusão de sangue que pode salvar-lhe a vida, é a trama ideal para abordar questões universais com personagens e situações credíveis, complexas e esplendorosas, nas suas posturas e reivindicações”, adianta.
Na obra de Ian McEwan, desde a publicação dos primeiros contos, em 1975, crianças e adolescentes  ocupam um espaço importante. Neste livro, acrescenta o jornal, Adam Henry é um jovem que protagoniza um caso judicial com implicações de ordem moral que transcendem a própria Lei. O problema, explica a crítica especializada, reside no facto de Adam estar a três meses de completar 18 anos. Tecnicamente, aos olhos da Lei, é ainda uma criança mas, na realidade, é já um rapaz com uma certa maturidade, um poeta e um músico, com uma brilhante imaginação e um raciocínio claro e lúcido. “Portanto, não é fácil tomar uma decisão, entre os pais extremosos que adoram o seu filho mas se guiam por preceitos religiosos rígidos, e uma sociedade que, de acordo com a Lei, tem de proteger as ‘crianças’, a todo o custo.”

O autor e a história

Na Inglaterra, destaca o autor, a Lei da Família contempla o facto de, a partir dos 16 anos, se um paciente quiser tomar decisões, tal como recusar um tratamento, o pode fazer. No entanto, os ditames do “Children Act” podem interferir. “No caso de Adam, a Lei pode invocar o facto de se correr o risco de ele estar a atentar contra a sua vida por uma questão religiosa. De um lado estão os pais, Testemunhas de Jeová, e, do outro, a advogada, cada um a defender o seu ponto de vista. Não é uma tarefa fácil. Esta tensão é, realmente, matéria própria do romance, da ficção. Embora eu me tenha baseado num caso real”, contou o escritor.
O objectivo inicial, confessa, é representar situações mais reais, nas quais se revelam os problemas da ambiguidade moral. “Uma das razões que me faz olhar para os adolescentes e crianças com tanto interesse é o facto de eles e elas se situarem desconfortavelmente nessa espécie de zona de sombra, entre a infância e o estado adulto. A infância é um mistério tão grande que qualquer romancista tem interesse em o explorar. Na verdade, não são apenas os escritores a confrontarem-se com estes problemas; os pais e os educadores estão sempre perante tais dilemas.”
Para o autor britânico, este é um problema de todos e não pode ser limitado apenas aos autores. “Somos muito bons a ler a mente das outras pessoas e reconhecemos as emoções diversas. Mas existe, por vezes, uma incapacidade para nos colocarmos no lugar do outro”, disse, e acrescentou que a ausência de empatia resulta de uma falha da imaginação moral. “A crueldade advém dessa incapacidade. Hoje é muito mais fácil olhar o outro como não humano ou esquisito. Podemos constatar tudo isso no actual imperialismo do século XIX, que constituiu uma falha tremenda da imaginação e resultou em crueldades infindáveis”, disse Ian McEwan.
O autor informou ainda que tentou explorar os limites da racionalidade e, ao mesmo tempo, referir aquilo que as religiões oferecem, tal como o sentido de comunidade, as certezas morais e as finalidades para a vida que o racionalismo tem dificuldade em substituir.

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