Cultura

Morreu Mário Silva uma voz histórica do grupo Kissanguela

Jomo Fortunato

O surgimento do agrupamento “Kissanguela”, em 1974, marcou o período áureo da canção política angolana, na época do entusiasmo da conquista da liberdade e independência, em torno do qual militaram figuras como, Candinho,Artur Adriano, José Agostinho, Avozinho,  Jorge Varela, Giza, Tino diá Kimuezo,  EI Belo e Mário Silva, cantores e compositores falecidos, que fizeram parte da gloriosa história da canção revolucionária.

As canções de Mário Silva autor de “Ngola, ngola” gravada com o agrupamento Kissanguela tiveram uma importante função mobilizadora da população
Fotografia: Álbum familiar

Pelo simbolismo cultural e político, magnitude da intervenção musical, de efeito mobilizador de massas, consistência criativa e número de álbuns gravados, na fase da independência de Angola, é legítimo considerar o agrupamento “Kissanguela”, como sendo a mais importante formação musical do período áureo da canção política.
A história regista vários clássicos desta época, dos quais destacamos os temas, “Valódia” e “Massacres de Kifangondo” do cantor e compositor Santocas, “Estrangeiro” e “Atu mu ngila”, Santos Júnior e “Ministro Gatuno”,  um tema de pendor humorístico gravado pelo agrupamento “Kissanguela”, magistralmente interpretado pelo cantor e compositor  Calabeto. Deste período ficou-nos na memória colectiva a marca de uma música romântica, nos seus motivos melódicos, e, verdadeiramente eficaz, nos seus propósitos textuais, de verdadeiroimpacto político.
São da autoria de  Mário Silva os versos da canção “Camarada”: Eu vou fazer um poema/ que não tem problema/ sei que você gosta de rumba/ rumba fazendo revolução/ camarada tenha atenção/ que o povo quer/ uma só nação/ a luta continua/ na mata e na rua/ camarada....camarada...camarada...um tema, com um rico esquema  rimático, que ficou muito conhecido na época da revolução popular, desencadeada pelo MPLA, Movimento Popular de Libertação de Angola.

Percurso do artista

Filho de João Pedro da Silva Neto e de Maria Garcia Cacória, Mário Pedro Silva, também conhecido por Marito, nasceu no dia 31 de Julho de 1954, em Luanda, e concluiu os estudos primários na Escola da Missão de São Paulo, dando sequência à sua formação média na Escola Industrial de Luanda.Embora tenha integrado o agrupamento “Jovens do Prenda” e “Luanda Show”, como guitarra ritmo e intérprete, foi no agrupamento “Kissanguela”, formação que elevou ao apogeu a canção política angolana, em 1974, que Mário Silva consagrou o período mais importante da sua carreira musical. As canções de Mário Silva, tal como a generalidade das canções do “Kissanguela”, tiveram uma importante função mobilizadora, numa altura em que  Mário Silva encontrou, no “Kissanguela”, os músicos Ângelo Quental, em fase de substituição pelo guitarrista, solo, Belmiro Carlos, Massangano, na guitarra ritmo, Manuel Claudino, no baixo, Candinho na percussão e   Raúl Tolingas na voz e dikanza.

Digressões  no estrangeiro

A primeira grande digressão do “Kissanguela”, com Mário Silva, aconteceu na  fase das independências  de Moçambique  e  São Tomé, em 1975. Mário Silva integrou, no mesmo ano, a caravana presidencial do Dr. Agostinho Neto, que o levou  a Cabo Verde e Guiné Conacri . Em 1976 visitou a Argélia e Bulgária, e participou, em 1982, no Primeiro Festival da Canção Política, no Huambo, um evento denominado, “Um canto elementar para Agostinho Neto”.

Influências musicais

Embora a música de Mário Sila acuse influências da tradição do cancioneiro angolano, de matriz religiosa, é possível detectar pontos de contacto com a estética de Pablo Milanês e Sílvio Rodriguez, dois  expoentes da música cubana, surgidos com a revolução. Sílvio Rodriguez e Pabo Milanês são dois cantores cubanos contemporâneos, de grande impacto internacional, criadores, juntamente com Noel Nicola e Leo Brawer, do movimento da “Nueva Trova Cubana”.

Agrupamento Kissanguela


O agrupamento “Kissanguela”, formação musical de intervenção política de reconhecida importância histórica, surgiu no dealbar da independência, em 1974, e integrou cantores, compositores e instrumentistas que, movidos pelo anseio de liberdade,  juntaram-se voluntariamente à causa revolucionária.De facto, o agrupamento “Kissanguela” congregou vários cantores e compositores que se encontravam dispersos, na sequência do encerramento dos principais estúdios de gravação: Belmiro Carlos, Nito, viola solo, Manuel Claudino, viola baixo, Cristiano Veloso, órgão, Adolfo, viola ritmo, Juca, bateria, Hugo, saxofone, Beto Pederneira, trompete, Alfredo, trompete, Candinho, tumbas, Raúl Tolingas, percussão, e as vozes de Santos Júnior, Artur Adriano, José Agostinho, Filipe Mukenga, Tonito, Avozinho, EI Belo, Fató, Carlos Lamartine, Jorge Varela, Tino diá Kimuezo, Calabeto e Mário Silva, foram as grandes figuras que marcaram o “Período Kissanguela”, fase de uma grandiosa odisseia musicalque  começou no interior da J.M.P.L.A, Juventude do Movimento Popular de Libertação de Angola. Foram fundadores do “Kissanguela”, El Belo, Artur Adriano, Carlos Lamartine, Filipe Mukenga, José Agostinho, Tonito, Manuel Faria, Manuel Claudino, Ângelo Quental, Massangano, Mário Silva, Elias diá Kimuezo, Jorge Varela e Giza.

Discografia do autor


Mário Silva gravou dois singles, “Maza” e “Bossa do Violão”, editados em 1973, ainda em plena época colonial. No entanto, a análise da discografia do “Kissanguela” revela-nos o perfil de uma formação musical, fortemente comprometida com os desígnios políticos da época. No alinhamento das canções do primeiro LP do grupo, “Vitória Certa”, sem Mário Silva, encontramos as canções, “Tuakuádivua” , da autoria da cantora Fató, “Avante o poder popular”, de Calabeto, “Invasores de Angola”, Santos Júnior, “Omãlavangue”, canção popular, uma recolha de José Agostinho e Filipe Mukenka, “Kitadikiá Ngola”, de  Santos Júnior, “Tchikolõna”, popular de José Agostinho e  Filipe Mukenga, “Poema”, de  Jorge Varela, “EnuIlumba”, de Calabeto, “Ministro Gatuno”, agrupamento Kissanguela, “Estrangeiro”, Santos Júnior, “Noite Longa”, recital  José Agostinho e  Filipe Mukenga  e “Rumo à independência”, do agrupamento Kissanguela. Em 1974, Mário Silva gravou o tema “Ngola, ngola” a primeira canção registada por Mário Silva com o agrupamento “Kissanguela”. Seguiram-se, depois, os temas: “Camarada”, “Rumo ao socialismo”, e “Tua na Ngola” , registados, respectivamente, nos LP’s agrupamento “Kissanguela”, “Rumo ao Socialismo”, e “Progresso, disciplina, produção, estudo”, títulos discográficos que revelam, por si só, o compromisso político e  partidário de Mário Silva, enquanto militante activo do MPLA. Em Novembro de 2005, Mário Silva lançou no mercado o seu primeiro CD “Nvula”, palavra em kimbundo que significa chuva, com  dez temas musicais, dos quais  “Etungola” e “Camarada”, que teve a participação das cantoras Bela Chicola e Marília.

  Depoimento de Raúl Tolingas sobre a música de Mário Silva

Raúl Tolingas, prestigiado percussionista, foi membro do agrupamento “Kissanguela” e fez o seguinte depoimento sobre Mário Silva, com quem partilhou importantes momentos dentro e fora de Angola: “Conheci o Mário Silva antes de ter entrado no agrupamento“Kissanguela”.
Quando tivemos contacto pela primeira vez, ele tocava no conjunto “Luanda Show”, com um albino que tocava viola guitarra ritmo, de quem já não me recordo onome, só sei que morava no bairro Sambizanga e com o  Mascote, viola baixo, e o Candinho, congas, que mais tarde veio a fazer parte do “Kissanguela”. Embora o Mário Silva já fizesse alguns acordes na guitarra no “Luanda Show”,  ele era também o vocalista principal. Não me sai da memória a voz melódica e melancólica do Mário Silva, porque no “Kissanguela” fazíamos um dueto em duas canções, das quais me recordo o tema “Mano loco mano” .Do interior do “Kissanguela” saiu um trio do qual eu fazia parte, juntamente com Mário Silva e Manuel Claudino, Manuelito, e fizemosduas viagens a Bulgária.Recordo-me que nestas duas viagens o chefe da delegação foi o camarada Job Capapinha e a canção “Mbalon bolacha” foi o tema mais famoso destas duas digressões.
Quero que fique registado que o meu amigo, Mário Silva, era um cantor e compositor muito capacitado e talentoso. Como ele tocava violão, trazia as canções já elaboradas de casa e o Belmiro Carlos, Nito, viola solo, fazia os arranjos complementares. É importante que diga que eu e o Mário Silva não somos fundadores do “Kissanguela”. Embora eu saiba, prefiro não falar dos verdadeiros fundadores, porque quando entrei para o grupo o “Kissanguela” já existia de forma sólida. Agora o nome, “Kissanguela”, não tenho receio em dizer, foi dado pelo Elias diáKimuezo. Quanto ao perfil comportamental, Mário Silva era calmo, educado, extremamente simples, comunicativo, e amigo dos seus amigos. Ele tinha um perfil muito próprio e, positivamente,era vaidoso. Tenho pena que nos tenha deixado muito cedo”.

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