Morreu o cantor e compositor Tino dya Kimuezo

Jomo Fortunato |
7 de Dezembro, 2015

Fotografia: Cedida

Tino dya Kimuezo dividiu o palco com David Zé, Urbano de Castro e Victorzinho da Popa Russa, figuras de referência incontornável da história da Música Popular Angolana, e integrou, em 1974, o emblemático conjunto “Kissanguela”.

Morreu, subitamente, no dia 4 de Dezembro de 2015, às 17 horas, em sua casa no bairro Hoji iá Henda, vítima de ataque cardíaco.
Embora tenha tido uma escassa produção discográfica, Tino dyaKimuezo é uma referência da história da Música Popular Angolana, sobretudo pela génese das suas canções que fizeram sucesso, como “Ngana menina”,um tema dedicado à sua irmã Fátima Manuel, e pelo impacto das suas canções de intervenção política, surgidas com o advento da independência, as mais emblemáticas das quais cantadas em quimbundo, no agrupamento “Kissanguela”.
Tino dya Kimuezo iniciou os estudos primários em 1944, com o professor José Correia, na escola Santa Teresinha, uma instituição pertencente à Igreja Católica, situada no actual bairro Tondela, município do Sambizanga, onde concluiu o ensino primário elementar.   
O seu nome esteve sempre associado às movimentações artísticas dos bairros onde passou. Em 1956, fundou o grupo “Angolanos do Ritmo”, passou pela “Turma do Rio de Janeiro”, integrou o grupo “Bessangana”, e fez parte de uma pequena formação denominada, “Os Merengues”, no bairro Sambizanga.
Em 1958 integrou a “Turma do Bairro Cuba”, desta vez no bairro Rangel, uma das formações mais sólidas a que pertenceu, como vocal, tendo feito uma apresentação, memorável, no Largo do Kinaxixi, um espectáculo que teve a participação da “Turma do Bairro Alfredo”, do Grupo “7UP” e dos “Kangulos”.
Ainda no Rangel fez parte da “Turma Nguba”, em 1960, com Bicas, também conhecido por Milagre, Catarino, Palma, Miguel, irmão do Catarino, Mungo, e Zeca, seus amigos e nomes que citou com visível saudade.
Nesta época, para além da sua entrega à música, Tino dya Kimuezo trabalhava nos “Altos-Fornos Ngola”, próximo da Fábrica Vilares. Em 1962, Tino dya Kimuezo fez arte do grupo que veio a fundar os “Sobongos”, formação musical do Instituto Artístico Social de Angola, no bairro Sambizanga, com Victorzinho da Popa Russa, Adão Mateus, Adão Nehru, e Neto Cabrita. O conjunto era frequentemente convidado para animar festas, tendo tido presença infalível nos convívios da Fábrica Textang.
Filho de Manuel Faustino e de Joana Manuel Lourenço, Faustino Manuel, Tino dya Kimuezo nasceu no dia 2 de Abril de 1941, no bairro Santo Rosa,  Sambizanga. Conhecido no início da sua carreira por “Kazumbi”, Faustino Manuel passou a Tino dya Kimuezo por usar uma farta barba, à semelhança de Elias dyaKimuezo, aconselhado e baptizado pelo Braguês, um conhecido comerciante do Sambizanga, ligado à realização de espectáculos musicais.

Carnaval

Em 1959, Tino dya Kimuezo integrou a coreografia do grupo de carnaval “Império”, com o famoso Chico Gago, e o grupo “Invita”, com Zito Bomba, representando a conhecida personagem do “gentio”, uma figura tipológica, muito característica dos grupos de Carnaval da época colonial.
Tino dya Kimuezo esteve preso, pelo carácter ousado de algumas das suas músicas. De 1963 a 1968 ficou circunscrito aos “Kutonocas” de Luís Mantez, a “Aguarela Angolana”, o “Dia do Trabalhador”, no NGola Cine, actuações no Centro Social de São Paulo, Maria Escrequenha, Sporting do Rangel, e Marítimo da Ilha. Reformado, Tino dya Kimuezo gostava de realçar que foi funcionário da ANGONAV, com a categoria de empregado de câmara de longo curso.

Canções


Tino dya Kimuezo denota, pela análise do conteúdo das suas composições, um forte sentimento telúrico, a política, com “Manguxi”, e as conflitualidades sociais, factores complementares à existência do cantor. Depois do sucesso, em 1970, da canção “Ngana menina”, single gravado com os “Merengues”, com supervisão musical de Carlitos Vieira Dias, captação sonora de João Canedo, gravado nos Estúdios Norte da CDA, Companhia de Discos de Angola, que inclui o tema “Ngolokingamama“, Tino dya Kimuezogravou, em 1974, “KibelaKiame”, “Tino muvoyo dimba diobe” e “KibelaKiame”. As canções “Comboio” e “Manguxi”, uma homenagem a Agostinho Neto, foram as derradeiras composições de Tino dya Kimuezo, pelo menos as que tiveram algum impacto junto do público. Tino dya Kimuezo faz parte da colectânea “Soul of Angola”, com as canções “Tino muvoyo dimba diobe” e “Kibela Kiame”, editada em 2008, emparceirando com os cantores Adolfo Coelho, António Paulino, Avozinho, David Zé, Minguito, Paulino Pinheiro, Paulo 9, Quim dos Santos, e os conjuntos, Jovens do Prenda e Bongos.

Kissanguela


A primeira grande digressão do “Kissanguela”, com Tino dya Kimuezo, aconteceu na fase das independências de Moçambique e São Tomé e Príncipe, em 1975, acompanhando a caravana presidencial de Agostinho Neto, que o levou a Cabo Verde e Guiné-Conakri. Em 1976, o “Kissanguela” visitou a Argélia e Bulgária, e participou, em 1982, no Primeiro Festival da Canção Política, no Huambo, com o tema “Um canto elementar para Agostinho Neto”. Formado em 1974, um ano antes da proclamação da Independência Nacional, o conjunto “Kissanguela” fez parte da secção cultural da JMPLA cujo objectivo principal era concretizar as orientações e estratégia política do MPLA, no domínio da cultura.

Ressurgir

Em Junho de 2001, Tino dya Kimuezo foi um dos convidados do espectáculo “Ressurgir a Esperança”, um projecto que visava a valorização patrimonial da Música Popular Angolana, criado pela  União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC). Na ocasião, Tino dya Kimuezo dividiu o palco com Chico Coio, Zizi Mirandela, Jaburu e Joy Artur, acompanhados pelo conjunto os “Kiezos”, “Jovens do Prenda” e “Ndengues do Kota Duro”. “Ressurgir a Esperança” é um projecto da UNAC iniciado em Janeiro de 2000.

Depoimento

Santos Júnior, companheiro de Tino dya Kimuezo no conjunto“Kissanguela”, lamentou com estas palavras, a morte do cantor: “Conheci o Tino dya Kimuezo nos “Kutonocas”, ainda no tempo colonial. Depois ele gravou com os Merengues o tema, “Tino muvoyo dimba diobe”. Lembro-me que passou pelo conjunto “Anazanga”, do Nito Saraiva e Hélder Leite, e pelos “Ébanos”. Naquela altura havia uma rivalidade entre ele e o Elias dya Kimuezo, julgo que por causa da coincidência dos nomes, os dois usavam uma farta barba, e pela autoria das canções “Zonzon”, e “Camin de felo”, entenda-se, “Caminho-de-ferro”.
 Em 1974 ingressou no “Kissanguela”, tendo entrado no conjunto, simultaneamente, com o Mário Silva, Candinho e a Fató. No “Kissanguela”cantava o “Manguxi”, um lindo tema dedicado ao Dr.AgostinhoNeto. Quando fomos a Argélia, ele apresentou-se com aquela indumentária tradicional de pele de tigre e outros artefactos, e foi um espanto total para o público argelino. Repare que ele cantou a semana passada no Lobito. Foi uma morte inesperada, de um bom e grande camarada”.

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