Mostra representativa da diva da tapeçaria angolana

Jomo Fortunato|
23 de Março, 2015

Fotografia: Paulino Damião

Da primeira à última exposição de Marcela Costa, um dos nomes mais referenciados das artes plásticas angolanas, no feminino, somam-se vinte e oito anos de uma carreira gloriosa, marcada por mostras individuais e colectivas, em galerias nacionais e internacionais, sendo a primeira realizada em 1987, em Luanda, e a mais recente inaugurada dia 10, no Instituto Camões, onde ficou patente durante dez dias.

Marcela Costa define deste modo a tessitura estética da sua obra: “Buscando a minha mística criativa, acabo por recuperar a identidade cultural angolana,  pelo uso de alguns objectos, muitos deles elaborados por artesãos que colaboram comigo, que são depois incorporados em vários contextos das minhas peças de tapeçaria. Neste processo, alinham-se, por vezes, objectos de cozinha, conchas e máscaras, caso do “kifumbe”, espantalho.”
Pintora, e tecelã artística, Marcela Costa faz parte de uma plêiade de artistas plásticos que, no período imediatamente anterior à independência de Angola, frequentou, de 1974 a 1977,  o curso  de Artes Visuais e Decorativas, no então Instituto Industrial Oliveira Salazar, em Luanda, onde foi aluna do carismático professor Vítor Manuel Teixeira, Viteix, do qual se notam nítidas influências, sobretudo ao nível das cores e do  traçado simbólico. Desta notável geração, fazem parte: Jorge Gumbe, Bastos Galiano, Álvaro Cardoso, Cecília Martins, Filomena Coquenão, Filomena Castilho, João Inglês, Aladino Jasse e Tirso Amaral. Com o encerramento do Curso de Artes Visuais e Decorativas, em 1977, o professor Viteix convidou os seus alunos a prosseguir o curso no Museu de Sítios e Monumentos.
Filha de Luís Martins e de Joana Machado António, Marcela Martins Costa nasceu no  Golungo-Alto, Kuanza Norte, no dia 23 Setembro de 1957. Frequentou o curso de tecelagem artística e suas superações, no Instituto Handarbetets Vanner e Saterslanta Henslojdes Gard, em Dolana, na Suécia, de 1984 a 1986. Trabalhou como desenhadora no Departamento Nacional de Museus, Monumentos e Sítios do Conselho Nacional da Cultura, de 1977 a 1978, e foi Instrutora de Artes Plásticas na Escola Experimental de Artes, Barracão, de 1978 a 1984. Mística, abstração e impacto da cor, são três elementos fundamentais que se conjugam nos contextos plásticos da obra de Marcela Costa.

Exposições

Ao longo da sua carreira, Marcela Costa realizou vinte e uma  exposições individuais, e mais de trinta exposições colectivas em galerias nacionais e internacionais, sendo a primeira realizada em 1987, na sede da União Nacional de Artistas Plásticos, em Luanda, e a última em 2007 em Seul, Coreia do Sul. Expôs ainda no Museu Nacional de Antropologia, Museu de História Natural, Salão Internacional da União Nacional dos Artistas Plásticos, todas em Luanda, Salão da UNAP, Benguela e Lubango, Salão da Delegação da Cultura, Cabinda, durante o FENACULT, 2014, e na Direcção da Cultura do Kuanza Sul. Consta ainda do seu percurso, participações em actividades culturais especiais: na Bélgica, África do Sul, Estados Unidos da América, Checoslováquia, Gabão, Itália, Japão, Zimbabwe, Botswana, Grã-Bretanha, Espanha, Rússia, Coreia do Sul, China, e Portugal.

Distinções

Marcela Costa recebeu oito prémios e Diplomas de Mérito, dos quais destacamos os seguintes: Primeiro Prémio da Exposição “Trabalhadores da Importang", em 1987, Luanda, Prémio Elf Angola, na VIª- Bienal do CICIBA- 1991 Guiné Equatorial, Prémio Assembleia Nacional do Gabão- Bienal do CICIBA-1999 em Libreville, Prémio do Senado da República do Congo, em Brazaville,  VIIª Bienal do CICIBA- 2002 Congo, III edição do Prémio Nacional de Cultura e Artes, 2002, Luanda, Trofeu “Yari Yari Pamberi”, Estados Unidos da América, em 2004. Foi distinguida ainda com o  Prémio de Mérito da Direcção Provincial da Cultura de Luanda, e Prémio Monumental, terceira edição, em 2009.

Percussão

Para além dos projectos, no Barracão, na UNAP, Coopearte, “Amostra de D’arte mulher”, e de ensino artístico na galeria “Celamar”, Marcela Costa é tutora e promotora do grupo de percussão “Celamar”, formação constituída por mulheres, cuja composição foi-se alterando ao longo da história do grupo: “O projecto é de minha iniciativa, pois, com meios próprios, apostei, convidando alguns precussionistas especializados para ensinarem o grupo. O primeiro professor foi  Abrãao Baptista Kumba, durante dois anos,  o segundo, Patrice Lemos, durante seis meses. Por razões financeiras e profissionais suspenderam o ensino, ficando sob responsabilidade  das jovens percussionistas do grupo, pelo ensino partilhado”. As percussionistas: Adriana Kabingano, Iracelma Pinto, e Luísa Monteiro fazem parte do núcleo de base do grupo.

Depoimento

À exposição "Retalhos de Angola" juntou-se o lançamento do livro “Marcela Costa, filha de Angola” com textos de jornalistas, pintores e críticos de arte, publicados  de 1991 a 2009. A artista plástica argentina, Diane Biet, amiga de Marcela Costa, incluiu no livro o seguinte depoimento: “A vida de Marcela Costa é interessante demais para não contar nunca o que ela tem feito, principalmente o que ela tem feito para ajudar os outros. Artista talentosa, lider comunitária reconhecida, mãe corajosa, modelo de mulher solidária, ela é representante de uma geração que, apesar das experiências historicamente tristes, não se abate, não sossega, não enfrequece perante os desafios, e utiliza o seu talento para melhorar a vida do próximo, dos jovens, dos órfãos, das mulheres, das crianças, dos angolanos e não só, também dos visitantes”.

Apelo


Segundo Marcela Costa, "Retalhos de Angola" é dedicada aos quarenta anos de independência de Angola, tendo aproveitado a aportunidade para fazer um apelo aos jovens, na linha de pensamento do Presidente da República, José Eduardo dos Santos: “O meu trabalho é também um incentivo aos jovens para que prestem mais atenção à nossa cultura, contrariando oa factores que contribuem para sua descaracterização. Temos de investir, de igual modo, na nossa diplomacia cultural, através das nossas representações diplomáticas, para que se efective, de facto, a internacionalização da nossa produção cultural e artística”.

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