Mukenga lança livro biográfico e disco restrospectivo

Jomo Fortunato |
21 de Dezembro, 2015

Fotografia: Arquivo do cantor

A biografia artística, criação literária, entrevista, discografia comentada e vários depoimentos de personalidades nacionais e estrangeiras da cultura, estão incluídas no livro “Filipe Mukenga, vida, poesia e canções”, título bibliográfico lançado no sábado, no Memorial Doutor António Agostinho Neto, em Luanda, que integra um CD retrospectivo dos melhores momentos musicais do cantor e compositor.

No livro, Filipe Mukenga, agora revelado contista e poeta, recordou a sua infância sofrida, nos seguintes termos: “A minha infância e adolescência foram muito sofridas, porque decorreram num período difícil da história de Angola, o da colonização portuguesa, que nos subjugou durante cinco séculos, atirando-nos para a miséria, analfabetismo, contrato, em suma, para uma vida indigente da qual só conseguimos sair através da luta heróica, que culminou com a obtenção da Independência Nacional, no dia 11 de Novembro de 1975. Nos bairros Marçal, e São Paulo, onde vivi durante muitos anos com os meus pais, não tive o privilégio do jardim-de-infância”.
Diríamos que na ausência de títulos bibliográficos sobre a história da Música Popular Angolana, a obra “Filipe Mukenga, vida, poesia e canções” é um importante contributo documental para edificação do passado musical angolano, que pode ser extensivo a outros cantores, personalidades da cultura e bandas musicais que fizeram história.
Filipe Mukenga escreveu nos agradecimentos, última página, a sua opinião sobre o assunto: “Nascido músico na década dos anos sessenta, com cinco discos gravados, até a presente data, e algum prestígio conseguido ao longo de cinquenta anos de carreira, vejo, hoje, materializado, um projecto que nunca imaginei ou sonhei ter em mãos: um livro, se bem que modesto, sobre a minha vida, dando a conhecer alguns aspectos desconhecidos da minha personalidade. Tenho a certeza que esta obra será uma agradável surpresa para muita gente e constituir-se-á, também, num importante documento parara as gerações vindouras”.

Estrutura

Para além da nota do editor, o livro tem um capítulo denominado, Filipe Mukenga, que aborda a infância e a adolescência do cantor, o período em que viveu com a família Mangueira, a separação familiar, religião e música, paixão pelo futebol e outras paixões. Na sequência, no capítulo sobre a “Cronologia musical”, o cantor traça o início da sua carreira musical, e a sua relação com José Agostinho, do Duo Misoso. No domínio da literatura, Filipe Mukenga revela-nos a sua propensão literária com os contos: “Uma prenda de amor para Ndilo”, “Amor real e concreto”, e “O meu céu”. No domínio da produção poética temos: “Mariana meu amor”, “Ndilokewa”, “Sem juízo”, “Erótico”, “Verdade ardente”, “Tempo sem náufragos”, “Naquela noite de luar”, “Decididos”, “Perfume íntimo”, “Anny”, “Felicidade plena”, “Lavadeira”, “Sunguilar”, “Cantigas do meu tempo”,  “Meu Lubango”, “Até ao fim “, “Na roda alegre”, “Noite de tambi”, “Contigo sou feliz”, “Na luz da lua cheia”, “Fonte de prazer; “Diamondtina”, “Um ngongo”, e “Aboutyourmessage”. Podemos ler ainda uma entrevista concedida ao Jornal de Angola, depoimentos de amigos, discografia comentada, textos sobre Filipe Mukenga na imprensa, “Flashes e instantes”, que inclui fotografias, prémios, diplomas de mérito e honra. Por último, podemos ainda ler ainda a cronologia resumida dos principais acontecimentos da carreira do cantor, um depoimento sobre os 40 anos de independência de Angola, e os agradecimentos do autor a todos os que tornaram possível a concretização do livro.

Percurso


Filho de Anacleto Gumbe e de Isabel André, Francisco Filipe da Conceição Gumbe nasceu no dia 7 de Setembro de 1949, na maternidade velha de Luanda, e pisou o palco pela primeira vez no programa “Chá das seis’’, realizado no antigo Cinema Restauração, em Luanda, com apenas catorze anos de idade, interpretando a canção “Donnetesseizeans” de Charles Aznavour.  Na adolescência viveu intensamente o período em que a música portuguesa e a eclosão dos “Conjuntos de música moderna”, conviviam, nos míticos anos sessenta, com os segmentos mais representativos da Música Popular Angolana. Tal facto deu azo à sedimentação e continuidade do período da renovação estética, movimento que teve como principais arautos Rui Mingas, André Mingas, Filipe Zau, Waldemar Bastos, e a nova geração com Dodó Miranda, Sandra Cordeiro, Gabriel Tchiema,  Africanita, Carlos Lopes, Carlos Nando, Kizua Gourgel, e Totó.  Filipe Mukenga é o resultado de uma peregrinação apaixonada por vários estilos e tendências musicais, que passam pela recolha da música tradicional angolana, pelas influências da Música Popular Brasileira, pelo rock e pelas sugestões rítmicas e vocais do jazz.

Canções

“Filipe Mukenga, vida, poesia e canções” inclui um disco retrospectivo, dos melhores momentos musicais do cantor e compositor, que vão de 1974 a 2013.
 Fazem parte do disco as canções “Sunguilar”, “Cantigas de infância”, do arquivo da Rádio Nacional de Angola, “Lemba”, do Canto livre de Angola, no Brasil, 1982, “Dilombe”e“Mandume”, do primeiro disco gravado pela EMI- Valentim de Carvalho, em 1991, “Ueza”, do disco Eme Ngó, de Sabú Guimarães, “Humbiumbi”, versão do CD “Kianda, kianda”, da Lusáfrica, “Minha terra terra minha”, “Blues pala nguxi”, canção dedicada ao seu amigo José Agostinho, “HailwaYangeOikeMbela”, todas de 1994, “Nvula”, Movieplay portuguesa, “Uxidiuami”, Movieplay portuguesa, de 2003, “Muloji”, GetRecord’s, “Ji nzumbi”, GetRecord’s, “Ndilokewa”, GetRecord’s, de 2013, e “Uma volta e meia”, da Saravá discos, de 2010.

Depoimento

“Filipe Mukenga, vida, poesia e canções”, inclui depoimentos de Filipe Zau, do Jornal Globo, Djavan, Yola Semedo, Martinho da Vila, Fernando Sobral, do Jornal Sete de Portugal, Adérito Kizunda, Menha Um Xingu, Carlos Gonçalves, Paulo da Mata, e uma jovem cantora, Anabela Aya, que escreveu o seguinte:“Não tenho dúvidas que o Tio Filipe Mukenga é um dos que me inspira e reforça a minha relação com a  música, e tem motivado e encorajado a prossecução da minha carreira”.
“Ouço-o desde muito nova, e continuo a ouvi-lo de forma frenética. Mestre, senhor da música era assim que eu o tratava, e continuo a tratá-lo. A vida dá muitas voltas, tanto é assim que tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente, e partilhar o palco com ele. Hoje consegui perceber outras coisas, ou seja, o meu mestre tem outras qualidades: coração grande, generoso, humano, e, sobretudo, sensível”. Defini-lo em dois parágrafos, “é, para além de difícil, um acto inglório. Eu sou feliz por poder tê-lo na minha vida, ganhar a sua amizade, consideração e respeito, e, mais do que isso por poder ter no meu CD uma composição feita por ele para partilhar com o mundo. Este livro é nosso, obrigado Tio”.
Por sua vez Carlos Gonçalves definiu o artista em três palavras: “Sem grande esforço de reflexão, escolhi três palavras que, fundidas, definem o artista, Filipe Mukenga, e sua portentosa obra: paixão, sensibilidade e afinação”, tendo definido cada uma delas.

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