Cultura

“Murais da Leba” ganha dimensão internacional

Vladimir Prata | Namibe

A serra da Leba, na província do Namibe, ganhou, esta semana, novas pinturas de arte grafite, com a participação de seis artistas do Brasil e de Angola, no âmbito do projecto Murais da Leba.

Grafiteiros angolanos e brasileiros trabalharam nas novas pinturas de arte na Serra da Leba
Fotografia: DR

Os trabalhos, que tiveram início na segunda-feira e terminaram quarta-feira, incidiram sobre um painel de vinte metros de comprimento e quatro de altura, com obras que reflectem a resistência da mulher negra em África e na diáspora, bem como a preservação da natureza e do meio ambiente.
Os seis artistas que partiram de Luanda para o sul de Angola, por estrada, aproveitaram este momento para conhecer de perto as maravilhas naturais de Angola manifestando-se encantados com o que viram ao longo do percurso, como o rio Kwanza, as paisagens de Porto Amboim e do Sumbe, as praias do Lo-bito e de Benguela e as serras da Huíla.
Nanda Santana, grafiteira do estado brasileiro da Bahia, disse à reportagem do Jornal de Angola que ter vindo a África e em particular a Angola sempre foi um dos seus grandes sonhos, por se identificar com a cultura negra.
Estudante de Artes na Universidade Federal da Bahia, em Salvador, diz que gostou de tudo o que viu, mas que ficou muito maravilhada com a beleza da Serra da Leba. A artista que pintou em parceria com o angolano Nuno Camoxi “Noppy” afirma que participar neste intercâmbio com outros artistas do seu país e de Angola vai certamente enriquecer e estimular ainda mais a sua criatividade.O artista plástico e grafiteiro angolano Rafa, que já esteve por duas vezes a grafitar no mesmo projecto, falou do privilégio de voltar à Leba para este intercâmbio artístico e espera que possam vir grafiteiros de outros países para continuarem a colorir a estrada que serpenteia a serra. Rafa participou na pintura de uma obra com a grafiteira brasileira Annie Gonzala, também da Bahia.
Para além da participação destes, o painel recebeu obras do grafiteiro baiano Eder Moniz e do angolano Thó Simões que é igualmente director artístico dos Murais da Leba. Autodidacta, Eder Moniz que responde pelo nome artístico de Calango é um dos grafiteiros baianos mais representados a nível internacional, com trabalhos na Europa e nos Estados Unidos da América. Contudo, assinala que a sua presença no continente berço da humanidade, particularmente em Angola, é a melhor coisa que aconteceu ao longo dos seus anos de trabalho.
Em Novembro de 2017, o artista plástico e grafiteiro angolano Thó Simões participou numa roda de conversa realizada na Casa de Angola na Bahia, Brasil, onde teve a oportunidade de grafitar com vários artistas da-quela cidade, entre os quais os que vieram para pintar a Serra da Leba.
O intercâmbio artístico entre baianos e angolanos nos Murais da Leba surgiu através do lançamento do filme-documentário “As Cores da Serpente”, realizado e produzido pelos brasileiros Juca Badaró e Renata Matos. A longa-metragem retrata a “ousadia” do grupo de jovens artistas angolanos que em 2015 se lançou na aventura de pintar as paredes construídas na Serra da Leba, estrada nacional 280 que liga as províncias do Namibe e da Huíla, fazendo uma passagem pelos hábitos e costumes dos habitantes desta região.
Foi então criado o projec-to “África e Diáspora, Novas Conexões”, realizado pela Estandarte Produções, Cinepoètyka Filmes e Coletivo Murais da Leba, que concorreu ao Edital de Mobilidade Artística 2018.

Actividades em Luanda
O projecto conta ainda com a presença da educadora social e líder religiosa do Candomblé de Angola, Makota Valdina Pinto, bem como da baiana Karine Luzolo, mestre em Estudos Étnicos Africanos.
O grupo anima, hoje, no Centro Cultural Brasil-Angola, capital do país, uma roda de conversa sobre ancestralidade e resistência negra em África e na diáspora, onde participam também o historiador e antropólogo angolano Filipe Vidal e a directora da Casa de Cultura e Artes - Ubuntu, Agnela Barros.
Após os debates, são sorteados exemplares de livros da editora Ogun’s Toques, sobre a Diáspora Negra, e o livro “Meu Caminhar, Meu Viver”, de Makota Valdina. Amanhã, os grafiteiros do Brasil voltam a juntar-se aos de Angola para pintarem um mural colectivo, no centro da cidade em Luanda.

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