A magia na voz de Anabela Aya

Jomo Fortunato |
18 de Janeiro, 2016

Fotografia: Francisco Pedro

A cantora e actriz Anabela Aya foi a mais recente atracção do programa de concertos da III Trienal de Luanda, tendo dividido o palco com o Duo Canhoto, que preencheu a primeira parte do espectáculo. Bastante aplaudida, a cantora revelou ser uma das vozes mais promissoras da nova geração de intérpretes do universo afro-jazz, e tem enveredado, de forma modesta e segura, pelos caminhos da renovação estética da Música Popular Angolana.

Anabela Aya cantou sábado último, dia da inauguração do Palácio de Ferro, depois do restauro, ocasião em que o coleccionador, SindikaDokolo, patrono da Fundação homónima, discursou na presença do Governador da Província de Luanda, Higino Carneiro, do Secretário de Estado da Cultura, Cornélio Caley, e do Presidente do Conselho de Administração da Endiama, Carlos Sumbula, tendo dito a dado passo que: “A Fundação terá oportunidade de realizar no Palácio de Ferro eventos artísticos como exposições de arte, oficinas criativas de artes visuais, música, teatro, e cinema, para maior interacção entre artistas e o público, sendo que a primeira oficina criativa já podemos ver hoje, incluindo  projectos de comunicação e conhecimento, com a participação de 500 instituições de ensino para visitas escolares”.
O palco do Palácio de Ferro, que se transformou num dos principais espaços de valorização cultural e de propostas experimentais da III Trienal de Luanda no domínio da música e das artes plásticas, acolheu, sábado, a cantora e actriz, Anabela Aya, no âmbito do programa de concertos da III Trienal de Luanda da Fundação Sindika Dokolo. No concerto, a cantora dividiu o palco com o Duo Canhoto, formação que representa, na actualidade, a vanguarda mais prestigiada da trova angolana, e da musicalidade endógena da cultura angolana.
A programação de concertos da III Trienal de Luanda pretende enaltecer a qualidade artística dos cantores, compositores e instrumentistas angolanos, valorizando um segmento musical reflexivo e experimental, que, normalmente, está distante do grande sucesso comercial da música de consumo imediato.
Já desfilaram pelo palco do Palácio de Ferro, a banda  “Afra Sound Star”, o cantor compositor e guitarrista,  Carlitos Vieira Dias, acompanhado por Nanutu, saxofone soprano, Dalú Roger, percussão,  e a Banda Next, formação jovem que funde música angolana, segmentos do rock, e referências da soul musicnorte americana. 
Voz aclamada pela crítica mais exigente do gospel e do afro-jazz angolano, Anabela Aya poderá estar próxima das vozes históricas do jazz norte-americano, no feminino, se trabalhar com esforço, modéstia e dedicação, atributos que, felizmente, têm orientado a sua jovem carreira. Em palco, faz-nos lembrar, Dinah Washington, Sarah LoisVaughan, BillieHoliday e, fundamentalmente, Ella Fitzgerald. Por esta razão, estamos certos que, no futuro, teremos uma cantora cuja expressividade, e ousadia poderá ultrapassar os limites da nossa doméstica, circunscrição artística.

Arquivos


Anabela Aya é a próxima convidada do projecto “Arte e história, arquivos culturais” da III Trienal de Luanda, que consiste na realização e produção de entrevistas em vídeo e áudio, de 60 minutos, 30 minutos e 15 minutos com o objectivo de constituir uma base de dados do pensamento contemporâneo angolano e africano. Estes arquivos servirão de base para os conteúdos dos projectos de comunicação da III Trienal de Luanda . A III Trienal de Luanda, que arrancou no dia 1 de Novembro de 2015, e vai até 30 de Novembro de 2016, está dividida em artes visuais, com exposições de arte clássica e contemporânea, comunicação que prevê a edição de jornais, revistas, catálogos, edições e reedições de títulos bibliográficos fundamentais para a compreensão da história literária e cultural angolana, programas de rádio e televisão, fóruns, que inclui um extenso ciclo de conferências, sessões de teatro, concertos, e programas de educação, que prevêem visitas de estudantes de diferentes níveis de ensino, nos espaços da III Trienal de Luanda.

História

Filha de Marcos Manuel Pipa e de Maria João Dias, Anabela Virgínia Dias Pipa nasceu no dia 9 de Setembro de 1983, em Luanda.Oriunda de uma família religiosa, Anabela Aya iniciou o seu contacto com a música aos cinco anos de idade, ouvindo os cantares religiosos do coro da Igreja Metodista Independemente, Caridade, onde a mãe  é professora. Anabela Aya teve formação vocal na sua igreja, criando as bases técnicas que depois permitiram a sua versatilidade, e propensão para interpretar os géneros: gospel, base da sua formação musical, bossa nova,  soul, rythm & blues, reggae, semba, incluindo o fado. A cantora guarda consigo, e reproduz sempre que pode, as palavras de um apreciador da sua música: “A empatia que cria em quem a ouve é arrepiante. Sensualidade, emoção, “coolness” e amor são as palavras que a podem caracterizar!”  Sempre disposta a cantar para os vários espaços e eventos culturais, de média dimensão, onde é convidada, Anabela Aya já dividiu o palco com: Maya Cool, Tânia Tomé, de Moçambique, Tito Paris, de  Cabo Verde, TriciaBoutte e a Banda Gumbo da Noruega, Dodó Miranda, Mário Gama, e Nelo Carvalho.

Teatro

A representação de pequenas histórias bíblicas, marcou o início de um processo que levou Anabela Aya para o Elinga Teatro, convidada, primeiro, pelo actor Raúl Jorge Resende de Barros Rosário, para dar aulas de canto, tendo acabado por participar na peça, “Guerra é guerra”, dirigida pelo actor Orlando Sérgio. Na sequência, seguiram-se várias acções de formação na Escola da Noite, em Coimbra, e pequenos seminários com a francesa BrigitgBentolila, e o brasileiro Sérgio Menezes, promovidas pelo Elinga Teatro.
Sobre a relação de Anabela Aya com a música e o teatro, Raúl  Rosário, seu companheiro da vida teatral, fez o seguinte depoimento: “Fui eu que levei a Anabela Aya para o teatro. Na altura precisávamos, com o Orlando Sérgio, de uma cantora,e, no processo de trabalho ela começou a ganhar o gosto pelo teatro. A  Anabela sempre esteve dividida entre a música e o teatro, no entanto, reconheço que houve uma evolução na sua forma de representação, quanto mais não seja porque ela vem do teatro na igraja. Foi ela que me levou para a Igreja Metodista, e fui influenciado, igualmente por ela, na prática do teatro bíblico. Ela tem um ritmo muito próprio de estar no teatro, no entanto gosto mais de vê-la cantar, embora saibamos que a música complementa o teatro, e há teatralização na interpretação musical”.

Cartaz

Pela qualidade das suas interpretações e impacto da sua prestação vocal, Anabela Aya foi figura de cartaz nas comemorações do Dia Internacional do Jazz, comemorado pela primeira vez em Luanda no dia 30 de Abril de  2014, no palco da Sala Angola I do Hotel Epic Sana, ocasião em que foi acompanhada pela Banda Afro Beat, constituída por  Mário Grarnacho (teclas), GarySinedima (voz), FredyMwankie (baixo eléctrico) e Joel Pedro (bateria). A cantora dividiu o palco com Tony Jackson, acompanhadonas teclas por Terinho Mumbanda, e o saxofonista, Nanutu.  Anabela Aya participou ainda no concerto em homenagem à figura e aos feitos de  Nelson Mandela, em Dezembro de 2014, na  Taberna Urbana, Rua dos Mercadores, em Luanda, em que participaram: TeddyNsingi, Derito, Irina Vasconcelos &EdyBritish, Wyza, Hélder Mendes, NdakaYoWiñi, Nuno & Ivo Mingas, Gari Sinedima, e TotySa’Med.
Em Novembro de 2014, prestou tributo, no Viana Restaurante & Casino, em homenagem ao falecido cantor e compositor angolano, Carlos Nascimento, em que participaram Mário Garnacho, Gari Sinedima, Paula Agostinho e Vitor Hugo. Durante a sua carreira já dividiu o palco, com o cantor Pedro Malagueta, que gravou o LP “Recordando Nat King Cole”, o pianista e Maestro Terinho e o percussionista Dalú. Anabela Aya esteve presente no concerto de homenagem ao Duo Tchisosi, realizado no dia 15 de Janeiro de 2014, no Elinga Teatro, tendo sido acompanhada pelo cantor, compositor e guitarrista, TotySa’Med. Em palco desfilaram, musicalmente: Manuel Vargues, vulgarmente conhecido por Cuca, Avelino Sande, Anabela Aya, Manuel Vitória Pereira, Duo Canhoto, Mauro do Nascimento, Coral NzingaBrothers, Carlos Lopes e Tanga.

Concerto   

Bastante aplaudido, o concerto de sábado de Anabela Aya, traduziu a crescente maturidade da cantora, que interpretou: “Turnturn”, The Bird, “Malemolência”, da cantora brasileira, Céu, “Famillle”, LokuaKanza, “Kizuakinguifua”, “Belina” e “Tia”, de Artur Nunes, “GodBless”, BillieHoliday, Geórgia, Ray Charles, “I’monmywy”, Mahalia Jackson, rapsódia que juntou, “Redemptionsong”, de Bob Marley, e “Tchipalepa de André Mingas, e “Malaika”, Miriam Makeba. Anabela Aya foi acompanhada por Marabú, viola baixo, Divino Larson, guitarra, Carlos Praia, guitarra jazz, José Graciano, teclas, e Adilson Groove, bateria. Sobre o concerto a cantora disse o seguinte: “A resposta do público foi bastante positiva, e gostei muito de partilhar emoções, sobretudo porque interpretei canções com as quais tenho uma relação de muito amor”.

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