A voz deslumbrante de Irina Vasconcelos

Jomo Fortunato |
25 de Julho, 2016

Fotografia: Paulino Damião

Embora seja uma cantora proveniente dos sectores mais sólidos do rock angolano, Irina Vasconcelos tem-se distinguido pela versatilidade e entrega romântica à plasticidade melódica do afro-jazz, sendo, actualmente, uma cantora aclamada, positivamente, pela crítica, transbordando, em palco, criatividade e bom gosto, na transfiguração do seu canto inusitado.

Irina Vasconcelos cresceu num ambiente familiar de forte influência musical, onde se ouviam blues, soul, jazz e temas do cancioneiro tradicional angolano. Deste tempo, a cantora recorda que se juntava às tias, em redor do avô, para cantar as canções mais preferidas da família.
No entanto, foi no ambiente estudantil do Instituto Médio Industrial de Luanda, Makarenko, que conheceu, em 2002, um grupo de amigos que tocavam guitarra e realizavam um festival de rock, num processo em que a intenção de ser cantora foi tomando forma.
Irina Vasconcelos viveu em Portugal por razões de natureza familiar, de1996 a 2003, altura em que regressou definitivamente a Angola, tendo-se juntado, em 2006, à Banda de rock, 1516, com Picas Araújo, guitarra, LuísNambi, baixo, Kuedy, guitarra, e Nelo Bethoven, bateria.
Em 2008 foi a vez de integrar a Banda de rock, “Question Mark”, que depois mudou a denominação para Café Negro, com Cládio Houari, guitarra ritmo, Edy British, guitarra solo, Mayó Bass, baixo, e Jó Batera, bateria, formação que possuía composições próprias e que gravou um CD e vídeoclip patrocinado pelo empresário angolano Jorge Santos.
Filha de Maria de Jesus Vasconcelos, advogada, e de Luís Torres, médico, Irina Dayse de Vasconcelos, é descendente de familiares oriundos de São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Portugal, e nasceu em Luanda, na Maternidade Lucrécia Paim, no dia 4 Fevereiro de 1985.

Disco

Gravado em Luanda, em Junho de 2012 e editado em Lisboa, “Safra” é o primeiro CD da Banda Café Negro, e foi lançado em Abril de 2012, com a voz e composição de Irina Vasconcelos. O baixista Mayó Bass, que participou na gravação do CD “Safra”, fez a seguinte apreciação do álbum: “Pela qualidade do disco ao nível da execução instrumental, da excelente interpretação de Irina Vasconcelos, e pelas vertentes musicais diversificadas, que vão desde o kilapanga, popmusic, funk e, fundamentalmente rock, considero o “Safra” um CD ­riquíssimo e intemporal, que deveria ser mais conhecido no mundo, e não estar circunscrito às fronteiras de Angola. Tive muito prazer em tocar num disco, esteticamente singular, que o tempo irá avaliar a sua importância na história da Música Popular Angolana”. O CD “Safra” inclui as canções “Universo”, “Incerto”, “Loud 4 you”, “Kilamba de 1 órfão”, “Flywith me”, “Mistery” “Sinais”, “Fantasy”, “Kilapanga do órfão, e “Dreams”.

Participações

Irina Vasconcelos tem participado em inúmeros projectos musicais dos quais destacamos os mais importantes, “Música da banda”, no Espaço Bahia, organizado pelo promotor Mário Almeida, em 2015, que teve a participação dos cantoresWyza, Jack Nkanga e Lukeny Bamba Fortunato, projecto “Show do Mês”, no Hotel Real Plaza, “Rock LalimweetekeIfa”, Festival Internacional de Rock do Huambo, em 2012, ano em que foi lançado o videoclip “Kilapanga do órfão”, com a Banda Café Negro, pelo Estúdio África. A convite do Goethe Institute, Irina Vasconcelos participou, em 2014, no Festival SautiZaBusara, na Tanzânia. Em 2015, foi Directora Artística da 4ª edição do Festival Internacional de Rock no Rio Catumbela, tendo sido ainda conceptora e directora de “Arte do Etimba Festival”, na província de Benguela. Em Janeiro de 2016, a cantora inaugurou o “The Jazz Intimacy”, no Bairro da Camama, em Luanda, espaço de debates sobre a história, produção, divulgação e promoção das vertentes do jazz em Angola, conversas interactivas com o cantor convidado, e venda de discos referenciais da história do jazz. Irina Vasconcelos foi convidada a participar, em 2014, na Bienal de São Tomé e Príncipe com o Projecto “Kianda soul” com João Guia, saxofone, Gato, bateria e voz, e intervenção do DJ Ruca Moreira. Em Setembro de 2015, Irina Vasconcelos e Puto Prata foram as figuras de cartaz do espectáculo “Gozatv” inserido no evento “Stand upcomedy”, realizado igualmente no Espaço Bahia. Nas suas apresentações Irina Vasconcelos tem interpretado clássicos nacionais e canções internacionais como “Belina”, de Artur Nunes, “Stapora do Diabo”, Bana, “Sacrifice”, Elton Jonh, e “Minha Viola”, de Beto de Almeida. Ao longo da sua carreira, Irina Vasconcelos dividiu o palco com José Kafala, Lokua Kanza, Filipe Mukenga, Gabriel Tchiema, Aline Frazão, e Jack Nkanga, entre outros cantores e compositores já referenciados.

Prémio


Numa extensa entrevista concedida à plataforma digital “Rede Angola, em Outubro de 2014, Irina Vasconcelos respondeu o seguinte à pergunta sobre a sua emoção na recepção do Prémio “Angola Music Awards”, edição de 2014, em que a Banda Café Negro foi eleita  a Melhor do Ano: “Chorei como uma Madalena. O choro foi no fundo uma descarga energética de todos esses seis anos que temos trabalhado juntos. Foi difícil.
Foi bater portas, justificar a nossa existência e ser reconhecidos pelo nosso trabalho, pelas pessoas que votaram e termos conseguido, inclusive, ter esse trabalho para mostrar às pessoas, foi, de facto, um dos momentos mais importantes da minha vida."

Composição


Para além de cantora de múltiplos recursos ao nível do canto, Irina Vasconcelos tem-se notabilizado como compositora. A propósito transcrevemos o texto integral da canção “Kilapanga do órfão”, um dos temas fortes do CD “Safra”: “Eh, Eh, Eh Pai! Tenho sede do corpo, fome no coração/ Oh… Pai Deixaste teu nome, teu filho perdido/ Ferida aberta, raiz sem sangue! Mas o vento de bravura/ esconde a minha alma / Sossega o meu espírito, estou sem sangue/ Mas onde está o pai?/ Tenho sede corpo, fome da alma!/Meu filho, o teu pai se foi, levou um tiro no teu futuro/ Acorda! / Meu amor, deixaste teu fruto/ Teu filho te chama/ e tenho saudades da nossa cama! Sou mulher de raíz, filha desta África/ Dona desta mata, poema de “mulóji”/Mas o vento de bravura esconde a minha alma/ Sossega o meu espírito, estou sem sangue/ Mas onde está o pai? /Tenho sede no corpo, fome da alma!/ Meu filho, o teu pai se foi, levou um tiro no teu futuro… Acorda! Kilapanga de um órfão…

Marés

Irina Vasconcelos celebrou dez anos de carreira, com um concerto retrospectivo denominado “As marés de  Irina Vasconcelos, jazz, rock e tributo às vozes de África”, realizado nos passados dias 22 e 23 de Julho, no Instituto Camões, em Luanda, que teve como convidados os rappers Lil Jorge e Girinha Costa, o cantor Tony do Fumo Júnior, Lukeny Bamba Fortunato, a cubana, YadiraCabañas, o grupo Abadá Capoeira, e DJ Kulas. Irina Vasconcelos interpretou as canções “Flywith me”, tema do Café Negro e do saxofonista João Guia, “Kilapanga do órfão”, Café Negro, “É tão bom”, nova versão de Irina Vasconcelos de um tema original de Eduardo Paím, “Belina”, versão de Irina Vasconcelos de um tema de Artur Nunes, “Mulatinha”, “Como nunca antes”, “Xicomba”,  Abadá Capoeira, “Muxima”, “Dejamevivirjarabe”, “Eu não vou querer” e “Negra de carapinha dura”, de Teta Lando, com participação especial da rapper, Girinha Costa, “Kikola”, com Tony do Fumo Júnior, “Praia Morena”, “Shows in myhands”, “Animalsdrums”, “King ofsorrow”, de Sade, “Crazy”, “Kifuakiami”, NsexLove, e “Mukiné”. No concerto Irina Vasconcelos foi acompanhada por Jô Batera, bateria, Kapa D, baixo, e Yarque, na guitarra.

Depoimento


O crítico e divulgador de Jazz, Jerónimo Belo, fez o seguinte depoimento sobre a cantora: “Tal como no ano passado, quando uma plateia imensa a acolheu numa bela noite luandense de Abril, em que se celebrava o Dia Internacional do Jazz, a cantora e compositora Irina Vasconcelos foi uma grande e boa surpresa.Texturas aromáticas fortes e poderosas dinâmicas rítmicas. A vontade da interrogação e a certeza da dúvida. A voz já era a sua profissão. Este ano, confirmou-se o seu enamoramento pela liberdade musical, e pela improvisação. Celebrou o Dia do Jazz com grande entrega e paixão. O ouvido, sem preconceito, anda à procura de outras arquitecturas e geografias musicais. E já interiorizou a importância da memória, das raízes angolanas e do melhor que vai acontecendo neste mundo, a urgência de desbravar outras terras e gentes. Rodeada de instrumentistas competentes: angolanos, cubanos, e israelitas, recorrendo a formações pouco comuns, originais, ensaia com a sua voz, cheia e clara, um agudo sentido de exploração e de solidariedade com os seus cúmplices com os quais cria, muitas vezes, uma simbiose de elegância, subtileza e eficácia. Irina Vasconcelos, dona de talento, só não terá futuro musical brilhante, se (nos) deixar de cantar. E de compor com aquele prazer imenso de espreitar, jogar, experimentar”.

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