Cantora lírica angolana em palcos internacionais

Jomo Fortunato |
12 de Outubro, 2015

Fotografia: Fernando Baranda

Tê Macedo estudou canto e piano na Academia de Música de Luanda e no Conservatório de Lisboa.

Gravou o clássico “Monangambé” de Tonito, com a Orquestra Sinfónica Nacional de Cuba, dirigida pelo reputado maestro Dagoberto Gonzalez, e herdou do pai, Jorge Macedo, o gosto pela marimba, instrumento com o qual funde os ritmos  tradicionais angolanos com a expressividade do canto lírico. Nos últimos dez anos de história de recepção da Música Popular Angolana, o preconceito em relação à absorção e interpretação do canto lírico foi-se esbatendo. De facto, sugiram novos cantores líricos, e houve uma alteração e reorientação do gosto do público. Sobre a popularização e crescente evolução da música erudita em Angola, Tê Macedo disse : “Notamos que houve uma alteração e reorientação do gosto, tal como surgiram novos públicos, em consequência da globalização. Tal facto propiciou mais acesso aos meios de comunicação social, onde incluo a televisão por cabo e satélite, e a massificação da indústria do DVD. Hoje as pessoas têm mais acesso à informação, e absorvem com menos resistência os fenómenos artísticos e culturais”.
Importa referir que  no virar  do século XX, a generalidade da música popular apresentava-se sob a forma de ópera ligeira ou “opereta” nos teatros britânicos e americanos de variedades, achando-se difícil distinguir a música das elites, da consumida pelo povo. Com a evolução da história da música surgiram três conceitos distintivos: música popular, erudita, e erudita popularizada. A título de exemplo deste último, veja-se “A pequena serenata nocturna”, de Mozart, e a “Quinta Sinfonia”, de Beethoven” que foram popularizadas, por força dos media. O caso mais recente foi a canção “Con te partiro”, interpretada por Andrea Boccelli, que muitos pensam ser uma ária de ópera, mas é uma canção popular italiana, cantada por um cantor erudito.

Percurso

Enquanto aluna da  Academia de Música de Luanda, Tê Macedo participou de 1981 a 1986, em recitais de alunos no Auditório da Rádio Nacional de Angola, e apresentou-se, em 1986, no Cine Karl Marx, em Luanda, onde tocou a  “Polonesa” de Oginski e  a “Sonate K.545 1st Mov” de Mozart ao piano, na Gala de recepção de boas vindas do Presidente da Roménia Nicolae Ceausescu, na presença do Presidente da República,  José Eduardo dos Santos.
Em Portugal cantou em público pela primeira vez em 1988, na turma da professora Maria de Luísa Repas Gonçalves, e apresentou-se como solista, em Janeiro de 1996, numa Ópera o “ Rigoletto” de Verdi, no Centro ACARTE, da Fundação Calouste Gulbenkian. Ainda em Portugal actuou várias vezes no auditório e no salão nobre do Conservatório Nacional, na Galeria Casa da Memória, no auditório da Rádio difusão Portuguesa, no Centro Cultural de Belém, na Gala pela independência de Timor-Leste, Palácio de Queluz, Coliseu de Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Casa da Música, e no Palácio Foz.
Té Macedo integrou o coro da ópera do Teatro Nacional São Carlos, onde interpretou , “Die Meistersinger” de Richard Wagner, em 1998, seu primeiro trabalho na instituição, uma das obras mais difíceis de interpretar pelo grau de exigência vocal e representativa, por ocasião da abertura da temporada comemorativa dos quatrocentos anos de Ópera. Nesta obra contracenou com grandes cantores internacionais, tais como:  Bernard Weikl, Roy Stevens, Gwynne Geyer, Lani Pouson, sob Direcção do  Maestro  Gregor Buhl.
No percurso da sua carreira, trabalhou com cantores líricos de craveira internacional tais como: Monserrat Caballe,Tom Krause, da Escola Superior de Música Rainha Sofia de Madrid, Professora Yvonne Minton, Ileana Cotrubas, Liliana Bizineche, Baiborina Zouhkra, Jill Fildeman e Galina Pisarenko. Jovem inquieta, trabalhou com as seguintes orquestras: Sinfónica portuguesa, Orquestra Gulbenkian,Orquestra do Conservatório  Calouste Gulbenkian de Braga, Sinfónica Nacional de Cuba, “Sonurum Concentus”, e Orquestra do Conservatório Nacional de Lisboa.
Membro efectivo do Coro do Teatro Nacional de São Carlos, onde  foi aprovada, em segundo lugar,  num concurso público internacional, realizado em 1997, Tê Macedo foi  ainda colaboradora do Coro da Fundação Calouste Gulbenkian, de 1997 a 2003, professora de piano, formação musical, e canto coral, na Escola Maria Luzia, na Amadora de 1991 a 1994, onde recebeu o Diploma de Honra de melhor docente. Deu aulas no Colégio das irmãs Doroteias, na Obra Social Paulo VI, em Lisboa e na Escola Secundária de Castanheiras, de 1991 a 1993.
Filha de Jorge Mendes Macedo e de  Fernanda Faustino da Rosa Macedo, Benuína Maria da Rosa Macedo nasceu no Bairro Marçal, em Luanda, no dia  5 de Junho de 1970. Té, é um diminutivo de Teresa, nome que o pai quis atribuir à filha, e Benuina é o nome da avó materna.

Formação


Tê Macedo estudou piano, ballett clássico e tradicional na Academia de Música de Luanda de 1979 a 1986, passou pelo  Conservatório de Lisboa  de 1987 a 1997, e frequentou a Juventude Musical Portuguesa de 1988 a 1992. Para além de  vários diplomas obtidos em concursos internacionais, possui ainda um curso de interpretação vocal e dramática, ministrado por Ileana Cotrubas e João Paez, formação básica de Jazz, pelo Hot Club de Lisboa, em 1996, e cursos intensivos de aperfeiçoamento de canto, dentre muitos outros, com um dos maiores pedagogos mundiais Helmut Lips. Formada em Direito, Té Macedo  frequentou, com sucesso, cursos técnico-profissionais como: contabilidade, secretariado, animação cultural, teologia básica e informática, e criação de empresas culturais.

Marimba

Tê Macedo defende a criação de um conservatório que  desperta o gosto pela música nacional e o ensino dos instrumentos nacionais, valorizando a marimba, um instrumento que toca, na linha de continuidade do trabalho desenvolvido pelo seu pai, Jorge Macedo: “Em relação à Marimba, recebi formação do meu pai. Gosto muito do tema ‘Kawana’ dos bângalas que aprendi com  ele, embora a primeira música que aprendi fosse uma partitura e  outra de ouvido. Importa lembrar que o ensino da marimba tem regras e técnicas próprias. Existem três grandes escolas em Malanje: a dos gingas, bondistas e kalandulas, e grandes referências na Lunda. A aprendizagem da marimba, mesmo nas culturas iniciáticas, é difícil. Tão difícil ou mais do que a aprendizagem da música erudita. O meu pai havia estabelecido o ensino da marimba, kissanji e percussões na Academia de Música de Luanda, em finais dos anos oitenta. Os professores ainda estão vivos e podem testemunhar: Kituxi e os marimbeiros João Pinto e Armindo Fonseca, o último já falecido. Cresci musicalmente neste contexto com o meu pai”.

Estilização


As exigências vocais de interpretação do canto lírico adaptam-se à totalidade dos segmentos do cancioneiro tradicional angolano, e  tudo é passível de estilização. No entanto Té Macedo defende: “O processo deve ser bem conseguido, inteligentemente feito, e esteticamente aceitável. A fusão não deve aniquilar a essência. Aproveito a oportunidade de lembrar que há uma técnica que não segui no meu primeiro CD, ou seja, a preocupação em interpretar em consonância com a minha tessitura vocal. Cantei em todas as tonalidades de forma aleatória, prejudicando o rendimento da minha prestação técnica. Em relação às fusões, normalmente sou moderada, mas prefiro que os percussionistas sejam sempre os angolanos”.

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