Contributo à internacionalização da música angolana

Jomo Fortunato |
23 de Junho, 2014

Fotografia: DR

Formação revivalista constituída por conceituados  instrumentistas,  provenientes de várias bandas musicais, o Conjunto Angola 70 tem participado em renomados festivais internacionais, interpretando  canções e instrumentais de época, num claro processo de revalorização e internacionalização da história da Música Popular Angolana.

Fundado em Maio de 2011 pelo angolano Otiniel Fernandes da Silva e pelo alemão Samy Ben Redjeb, com apoio do  Instituto Cultural Alemão, o  Conjunto Angola 70 já representou Angola no Roskilde Festival,  na Dinamarca, Festival Fusion, na Alemanha e Rio Louco Festival,  em  França. Pela soma de êxitos em vários festivais, o Conjunto Angola 70 teve a honra de receber um convite do City Parks Foundation, instituição responsável pela criação de programas culturais nos parques de New York, para uma apresentação no lendário Central Park Summer Stage, espaço onde já passaram nomes conceituados da música internacional, tais como: Célia Cruz, Sonny Rollins, Youssou N'Dour, Hugh Masekela entre outras grandes figuras.
Otiniel Fernandes da Silva, conceptor do projecto, esclarece que “a ideia é recriar a música angolana dos anos 70, década em que se produziram alguns dos temas mais belos e sofisticados da nossa música. Para dar corpo a este projecto reunimos um grupo de veteranos no activo, alguns deles transversais a períodos muito importantes da história da Música Popular Angolana”.

Formação

Oriundos de várias proveniências, o Conjunto Angola 70 é formado por renomados instrumentistas no activo, que passaram por conjuntos históricos da Música Popular Angolana: Joãozinho Morgado (Congas), é uma figura emblemática dos Negoleiros do Ritmo e Merengues,  Botto Trindade (guitarra solo), mago da guitarra fortemente influenciado pelo Marito Arcanjo dos Kiezos, veio dos Bongos de Benguela, Teddy N’Singui (guitarra solo), é um histório do “Período do Retorno”, da época do Matadidi Mário Bwana Kitoko, veio do Inter palanca e está actualmente na Banda Movimento, Dulce Trindade (guitarra ritmo) é uma figura carismática do Mizangala DT, Carlitos Timóteo (viola baixo), é o baixista preferido de Carlos Burity, e vem do  Mini-Bossa 70, passou pelos Gingas, Kiezos, Jovens do Prenda e Fapla-Povo,  Raul Tolingas (dikanza), veio do  Kissanguela e está no Kituxe e seus acompanhantes, Gregório Mulato (mukindo e voz),  é do histórico Águias Reais, e Chico Montenegro (bongós),  é a voz emblemática do bolero angolano e veio dos Jovens do Prenda.

Festivais

Muito apaludidos no mundo, a  participação do Conjunto Angola 70 em festivais de referência, Europa, Canadá e Estados Unidos, tem sido a principal estratégia de internacionalização da Música Popular Angolana, num processo de integração da música angolana, nos valores culturais da chamada World music. O conjunto soma um histórico que vai de  Angola, onde participou no Festival Internacional de Jazz (2012), passando pela Holanda, Theater Oosterpoort, em Amesterdão, Bélgica, Zuiderpershuis (2011), República Checa, Respect Festival (2012), Praga, e Marrocos Timitar Festival (2012), em Agadir. No entanto, existe uma longa agenda de concertos, de convites provenientes de vários cantos do mundo, que não se realizam por falta de apoios.

Canções    

Centrado na generalidade dos sucessos produzidos nos anos 70 da Música Popular Angolana, quer pelos conjuntos quer por cantores e compositores individuais, o Conjunto Angola 70 privilegia as produções deste período, tambem designado de música da época colonial. Fazem parte do repertório os temas  “Avante Juventude”, dos Anjos, “Saudades de Luanda”, dos Kiezos, “Nhoca”, do Tony Von,  “Comboio”, dos Kiezos,  “Memoria de Guy”, de Botto Trindade,  “Agarrem”, do solista Brando, África Ritmos, “Muxima”, Marito dos Kiezos, “Fatimita”, Urbano de Castro, “Senhor doctor”, Quim Manuel, Inter Palanca, “Bazuka”, um dos primeiros registos discográficos de Carlos Lamartine, “Pica o dedo”, Belmiro Carlos, África Ritmos, “Princesa Rita”, Kiezos, e “Farra na madrugada”, “Semba avó”, Urbano de Castro, e “Mabelé” do cantor e compositor Óscar Neves.

Guitarras


As guitarras de Botto Trindade e Teddy Nsingui, no Conjunto Angola 70, constituem dois factores  de suma importância artística, no processo de recriação dos solos de época, quer para os temas instrumentais como para os temas cantados, assegurados, no início do projecto, pela vozes  do falecido Zecax, Gregório Multato e Chico Montenegro, a que juntou, actualmente, a voz de Legalize e figura carismática dos Bongos, Botto Trindade vem construindo um idioma musical que incorpora uma simbiose criativa baseada no lirismo da pop, aliada à pujança rítmica e interpretativa da cultura negra norte-americana, projectada nas raízes mais típicas da música angolana. Guitarrista visionário, Botto Trindade é possuidor de uma infalível intuição musical, e pertence a uma família benguelense, de reconhecida propensão musical. Quanto ao Teddy Nsingui, outro virtuoso guitarrista do Conjunto Angola 70, dos mais solicitados no escasso mercado de instrumentistas angolanos, vem de uma família sem nenhuma ligação com a música. É curioso lembrar que a tia, irmã do pai, de nome Kama Katita, destruía, de forma resoluta e intencional, as guitarras que o futuro músico levava, carinhosamente, para casa.

Apoios

Julgamos que as iniciativas culturais de carácter privado, que visam a defesa e divulgação do património, devem ser apoiadas, total ou parcialmente pelas instituições do estado. Deste modo, evitaríamos  a dispersão de fundos em futilidades, sem visibilidade nem retorno para a posteridade, somando cada vez mais as situações e ocorrências  em que se ausentam os ganhos, necessários à preservação e reconstituição da memória colectiva angolana.
 Neste contexto, julgamos oportuno, transcrever, textualmente, um excerto do “Plano Estratégico de Implementação da Política Cultural de Angola” o qual estabelece a visão do Executivo em relação ao desenvolvimento da Cultura, em Angola, que identifica as principais linhas de acção a serem prosseguidas a curto e médio prazos: “Pretendeu-se com esta reformulação institucional, aumentar o alcance e a eficácia da realização da política cultural, e criar também estabilidade, justiça e transparência no relacionamento entre a administração, os agentes culturais e outros parceiros”.

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