Cultura

Crónicas do quotidiano na voz de Óscar Neves

Jomo Fortunato |

A derradeira reaparição de Óscar Neves, um verdadeiro cronista do quotidiano dos musseques luandenses, no palco do Centro Recreativo e Cultural Kilamba, no dia 27 de Abril de 2003, data da sua oportuna e legítima homenagem, terá sido o prenúncio do desfecho de uma fulgurante carreira artística, intensamente vivida na época colonial, o período mais fértil da sua criatividade musical.

A derradeira reaparição de Óscar Neves, um verdadeiro cronista do quotidiano dos musseques luandenses, no palco do Centro Recreativo e Cultural Kilamba, no dia 27 de Abril de 2003, data da sua oportuna e legítima homenagem, terá sido o prenúncio do desfecho de uma fulgurante carreira artística, intensamente vivida na época colonial, o período mais fértil da sua criatividade musical.
A revista “Noite e Dia”, na sua edição, semanal, de 31 de Dezembro de 1969, fazia uma breve apreciação da música de Óscar Neves, a propósito de uma das suas apresentações nas sessões do Dia do Trabalhador, no Ngola Cine, em Luanda, nos seguintes termos: “Com êxitos sobre êxitos, conseguidos em todos os palcos do subúrbio, Óscar Neves foi bem recebido pela plateia, interpretando números seus, de boa inspiração e autêntico folclore”.
Embora os sectores mais expostos da crítica musical, no período colonial, apelidassem de “folclórica”, as manifestações artísticas que ocorriam fora do âmbito e do entendimento da cultura portuguesa, a expressão “autêntico folclore”, pode constituir uma importante pista de análise para compreensão da génese da obra musical de Óscar Neves.
 
Os primórdios da carreira
 
Sobrinho do nacionalista Voto Neves, figura emblemática do Grupo Teatral Ngongo, Óscar de Oliveira Neves nasceu no dia 4 de Maio de 1950, na zona do comerciante Diamantino, no bairro Rangel. O interesse pela música começou, com apenas 14 anos, altura em que se interessa pela sonoridade da “caixa”, uma espécie de batuque portátil, instrumento executado por Carlitos Vieira Dias, quando integrava o agrupamento “Os Gingas”. Este facto motivou-o a enveredar, primeiro, para o exercício da percussão e depois para a prática do canto.
Curiosamente, Óscar Neves começou a tocar “caixa”, em 1964, no conjunto “Dimbangola”, com Boano da Silva (vocal), Maneco Neves (percussão) e Dominguinhos (guitarra solo e vocal).
Na sequência, Óscar Neves ajuda afundar, em 1967, o conjunto “Mira-Negros”, onde dá os primeiros passos como vocalista e intérprete. Filho de Eurico de Oliveira Neves (Kienda Nhoka), um profundo conhecedor de Kimbumdu, e de Joaquina Fernandes, Óscar Neves viveu no Ambriz com o tio, Óscar de Oliveira Neves, funcionário dos correios.
Com a morte do seu avô paterno, Aurélio de Oliveira Neves, em 1961, veio a ser um dos herdeiros de uma valiosa fortuna, facto que o posicionou, de forma distinta, entre os seus pares e companheiros da música.
 Aurélio de Oliveira Neves foi um dos fundadores da Liga Nacional Africana, homem de cultura, e, além de tocar violão e guitarra portuguesa, distinguiu-se como compositor da Rebita.
 
Discografia
 
É inegável o valor e a importância patrimonial da discografia de Óscar Neves para compreensão de momentos ímpares da história da Música Popular Angolana.
A importância artística do conjunto da sua obra, reside na simplicidade das melodias, aliada à comunicação directa das mensagens dos seus textos, que narram, muitas vezes, factos vividos e ocorrências reais, motivos que se associam à complexa estrutura dos solos do guitarrista Zé Keno, sobretudo nas canções acompanhadas pelo agrupamento “Jovens do Prenda”.
Óscar Neves grava, em 1972, o seu primeiro single de duas faixas musicais: “Ngande Nzoji” e “Avenida Brasil”, seguindo-se, ainda no mesmo ano, “Joaquim Mbolombolo” e “Plena Careca”, com o agrupamento Os Kiezos. Em 1973 grava as canções “Kalanga” e “Esperança”, com os Jovens do Prenda.
Ainda em 1973 regista os temas: “Lamento de Visconde” e “Matulão cara de cão” (letra de Xabanú) com o agrupamento África Show. Seguiram-se as canções “Nzambi iami”, “KambiIa”, “Sessá”, “Ji Ioxa”, “Esperança”, “Mundanda”, “Mabelé”, “Sessa” e “Banda”, com os Jovens do Prenda, obras  que, embora registadas em disco, não chegaram a ser comercializadas.
Os principais momentos musicais da carreira de Óscar Neves estão reunidos num CD da “Colecção Poeira do Quintal”, editado por ocasião da sua homenagem, e reúne uma colectânea de 16 canções, criteriosamente seleccionadas: “Kalanga”, “Esperança”, “Ngande nzogi”, “Avenida Brasil, “Joaquim Mbolo Mbolo”, “Plena careca”, “Matulão cara de cão”, “Saudades do Visconde”, “Meia-noite”, “Bolero Lamento de Angola”, “Sessa”, “Mudança”, “Mabelé”, “Nzambi iami”, “Arrependimento” e “Tia Sessá”.
Diríamos que a expressividade da voz de Óscar Neves é uma projecção do facto acontecido que, ora pode mostrar alegria, ora tristeza, normalmente reveladora de uma ocorrência, vivida ou sentida, transportada para o texto das suas canções.

 As canções de Óscar Neves

 
Os factos do quotidiano dos musseques, consubstanciados nos relatos de ocorrências vividas na zona mais urbana (“Avenida Brasil”), a crença religiosa e a petição a Deus (“Nzambi yami), a atracção conjugal e conflitos passionais (“Esperança”), o insucesso escolar na infância (“Tata ni mama”), o filho abandonado ou a descrição de comportamentos de figuras carismáticas de bairro (“Joaquim Mbolombolo”), e a morte de companheiros de ofício (“Lamento de Visconde”) são alguns dos temas que personalizaram a obra musical de Óscar Neves, ao longo da sua carreira de sucessos.
As canções do Óscar Neves, a nível das cordas de acompanhamento, podem constituir amostras para a elaboração de um estudo sério, e sistematizado, da criação e da estrutura dos solos do guitarrista Zé Keno, o carismático guitarrista dos Jovens do Prenda, que, no período áureo de criatividade de Óscar Neves, estava em muito boa forma artística.
 
A figura dos "kilamas"
 
A divisão classista, constituída por indivíduos da alta sociedade colonial, e dos colonizados de baixo rendimento, dois quadros sociais distintos, e facilmente perceptíveis, consequência do impacto do período mais cruel da colonização portuguesa, deu azo a aparição, sobretudo entre os jovens, dos “kilamas”.
 Os “kilamas” eram figuras típicas dos musseques luandenses, que, embora inseridos entre a generalidade dos colonizados, de baixa rendimento, lutavam por uma apresentação condigna, desviando os parcos recursos que possuíam na compra de vestuário e acessórios.
 Zeferino, o carismático alfaiate de Óscar Neves, foi o responsável pela forma como o cantor se apresentava em palco, uma preocupação a que o cantor muito se prestava e orgulhava, o cuidado com a sua aparência.
 Óscar Neves foi um verdadeiro “kilama”, no seu tempo.
 
A homenagem

 
Óscar Neves foi homenageado, pela importância histórica e artística do conjunto da sua obra, no dia 27 de Abril de 2003, na 13ª edição do “Caldo do Poeira”, um programa da Rádio Nacional de Angola, realizado no Centro Recreativo e Cultural Kilamba.
Prestaram homenagem ao cantor  os artistas Dom Caetano, Xabanú, Elisa Coelho, Paquito, Paulino Pinheiro e Peixinho, que interpretaram as canções“Nzambi Yami”, “Mabelé”, “Ngande Nzoji”, “Matulão cara de cão” e “Tata ni Mama”, um nostálgico espectáculo que marcou os 39 anos da carreira do cantor.
Tal como muitos cantores da sua época, Óscar Neves  viu alterado o rumo da sua carreira artística por motivos que os caprichos da história e a conjuntura social impuseram.
O cantor morreu, vítima de uma traiçoeira doença, no dia 26 de Setembro de 2003, cinco meses depois da  sua homenagem, aos 53 anos de idade.

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