Dimensão patrimonial dos Kafala

Jomo Fortunato |
12 de Setembro, 2016

Fotografia: Angop

Julgamos que uma das formas de prestigiar de forma condigna, o legado artístico deixado pelo cantor e compositor, Moisés Kafala, seria elevar à categoria de Património Nacional Imaterial , o conjunto das vozes dos Irmãos Kafala, pela singularidade da afinação, recurso às línguas nacionais, e representatividade artística ao longo da história da trova angolana, facto que poderá  abrir caminho à valorização de outras vozes.

Ligada à história social da música de intervenção, e com ela identificada, a trova angolana conheceu um rápido desenvolvimento e divulgação depois da independência de Angola, em 1975. Consubstanciada na sátira ou no aplauso a um ideal político, o desenvolvimento da trova angolana absorveu nítidas influências dos trovadores cubanos da chamada “Nueva trova”, representada, fundamentalmente, por Leo Brawer, Sílvio Rodrigues e Pablo Milanês.
A noção de trovador embora se distancie, nos tempos modernos, da remota acepção medieval – designação dos antigos poetas provençais, em França, que cultivaram a poesia lírica, e aos poetas peninsulares desse tempo que os imitaram – ela conserva a carga semântica que lhe está na origem.
 A economia de meios, concretizada no uso da voz e do violão, uma das características da trova moderna, contribuiu para a sua larga difusão e o seu cultivo no período pós-independência. Outro aspecto deveu-se à eclosão da liberdade, constituindo, o exercício do canto livre, uma das manifestações mais populares de regozijo e de motivação à criação, gerada pelos novos tempos de emancipação política.
A história da trova angolana regista os nomes de Manuel Curado, Trio Percussor, formado por Ladislau Ventura, Massangano e Júlio Quental, Mário Rui, Mário Silva, José Fixe, Waldemar Bastos, Beto Gourgel, Duo Missosso, de Filipe Mukenga e José Agostinho, Afonso Gonçalves e, naturalmente, os Irmãos Kafala.

Primórdios

O início da carreira de  Moisés Kafala, o mais velho dos Irmãos Kafala, ficou marcado pela participação, em 1969, num concurso musical, realizado na Escola Primária nº 147, em Luanda, onde saiu vencedor. Na mesma década criou um grupo musical no internato da Missão Católica dos Bângalas. Foi nesta altura que Moisés Kafala compõe “Papa” um tema que viria a ser um dos grandes êxitos do duo: Uafu dilenu/ uafu dilenu/ Ó mutu kioso ufuá/ ka zuela dingue maka/ Ó mutu kiá mufu mesu/ Ka mona dingue kima/ Ó mutu kiá mu batula maku/ Ka kuata dingue kimée.../ Ó papa, papa uafu dilenu/ Ka ndo ta dingue sabu ku bata/ ossoia solé/ Nga bande ku muxi nge xile mu banga/ Ji ngutu jiame/ ye nie ó sabu iá papa/ Papa uaia zé mualunga/Eh…eh papa...
 A canção“Papá”, tema nostálgico criado em homenagem ao pai de Moisés e José Kafala morto pelos colonialistas portugueses em 1961, foi gravado, pela primeira vez,em 1979, nos estúdios da Rádio Nacional de Angola, e representa um dos momentos altos carreira do Duo.Em 1976, Moisés Kafala viajou de Luanda para Benguela, onde encontrou o seu irmão José e integrou o grupo “Shalon” – uma pequena formação musical ligada à igreja Católica.  Neste grupo Moisés era guitarrista solo e vocal, enquanto José, apenas cantava. Moisés  Kafala foi chamado depois a integrar o agrupamento 1º de Agosto, formação ligada ao Centro de Instrução Rodoviária Militar de Benguela, numa altura em que JoséKafala abandonou, parcialmente, a música.
 Moisés Kafala tentou o teatro, em 1980, no Grupo Experimental Primeiro de Maio, como compositor e actor, e representou a peça teatral a “A Praga” de Óscar Ribas. Ainda em 1980, participou no Primeiro Festival Nacional da Canção Política realizado no Huambo, tendo conquistado o primeiro lugar.
Em 1981 começou a internacionalização de Moisés Kafala quando participou, em Berlim, no 12º Festival Internacional da Canção Política. Sobre o facto Moisés lembra nostálgico: “Foi a primeira vez que estive sob uma temperatura de 15graus abaixo de zero. Estava com  o falecido Beto Gourgel, Dom Caetano e Zeca Sá… foi um tempo de felicidade, e muita música.”
 
Carreiras
 
A expressividade artística  dos irmãos Moisés e José Kafala configura uma harmonia vocal cuja história assenta na liturgia religiosa. O pai de Moisés e José cantava,  foi pastor e regente de coro da Igreja Protestante, colocado nos Dembos, hoje província do Bengo. Militantes de uma temática textual de feição marcadamente humanista e social, os Irmãos Kafala evocam nas suas canções a dor, o sofrimento, a conflitualidade étnica e amorosa, e a eterna esperança de um mundo melhor.
José Kafala venceu, em 1984,  o Primeiro Festival de Artistas Amadores das Forças Armadas, com o tema “Ngui mbalundo” e, em 1985,  arrebatou o primeiro lugar do Top dos Mais Queridos da Rádio Nacional de Angola, com o tema “Ó Kudizola Kueto”, gravado depois com o “Amandla”, a banda musical do ANC, “African National Congress” da África do Sul.
A partir de 1985, José Kafala grangeiou um singular prestígio do público e viajou por vários países. Portugal, Bulgária e Alemanha, foram os principais destinos, onde obteve inúmeros aplausos junto da crítica musical local, das quais destacamos uma apreciação crítica da jornalista búlgara Buchaskova. Actualmente, José Kafala segue uma carreira, a solo, fazendo espectáculos, restritos, em apresentações dispersas. No dia 14 de Abril de 1987, dia da Juventude Angolana, aconteceu o reencontro do grupo. O duo brindou o facto com um espectáculo de gala, realizado no cine Karl Marx, e interpretaram, de forma apoteótica, a canção “Ngola”.

Concerto

Os Irmãos Kafala participaram, no dia 20 de Maio de 2002, no Festival de Música da CPLP, num concerto comemorativo da independência de Timor Leste e da entrada como oitavo país da comunidade lusófona. O Festival, que congregou músicos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, juntou uma audiência de 200 mil pessoas, na capital timorense, e contou com a participação dos cantores: Ildo Lobo, de Cabo Verde, Martinho da Vila, do  Brasil, Luís Represas, de Portugal, Dulce das Neves, da Guiné-Bissau, Hortênsio Langa, de Moçambique, Juka, de São Tomé e Príncipe, Fafá de Belém, do Brasil, e a Banda  Delfins, de Portugal.
Neste concerto os Irmãos Kafala interpretaram os temas: “Luanda”, “Ofeka yetu”, “Crucifixo”, “Renúncia impossível”, “Kalumba”, “Dialogando” e “Minga”, canções do CD “Bálsamo”,  interpretadas em kimbundu, umbundu, tchokwé e português.  As publicações “Le Monde de la Musique”, revista “Africultures”, “L\'Affiche”, le magazine d\'autres musiques, “Continental”, l\'afrique em marche, e “Reportoire e actualités des religions” publicaram textos críticos favoráveis à qualidade artística do conjunto da obra dos Irmãos Kakala.
 
 Diploma

Os Irmãos Kafala foram agraciados com o Diploma de Mérito, uma honrosa distinção do Ministério da Cultura, no dia 11 de Janeiro de 2008, no âmbito das comemorações do dia 8 de Janeiro, dia da Cultura Nacional de Angola. O Diploma, um reconhecimento público às pessoas singulares, colectivas, e instituições que, reiteradamente, contribuem para preservação e divulgação da cultura nacional, foi outorgado aos Irmãos Kafala, por serem um dos mais representativos trovadores do pós-indepedência, tendo as suas canções, como as inspiradas nos livros “Sagrada Esperança” e “Renúncia Impossível” do poeta Agostinho Neto, contribuído para a unidade nacional. A flauta e a guitarra são dois complementos de um outro instrumento, a voz, que foi explorada até a exaustão pelo duo, num exercício notável de contracanto que os coloca no ponto mais alto de vocalização da trova angolana. Uma aparente conflitualidade interna separou o grupo, depois da gravação do CD “Bálsamo”, em 2004.

Morte

Moisés Kafala morreu, vítima de doença, no dia 1 de Setembro de 2016 num hospital da República da Namíbia, onde se encontrava em tratamento médico de uma doença que padecia há alguns anos. A notícia foi divulgada pelo seu irmão José Kafala numa comunicação à imprensa com o seguinte teor: “Infelizmente o Moisés deixou-nos hoje, por volta das 15 horas, numa unidade  médica na Namíbia onde se tinha deslocado para tratar problemas ligados às cordas vocais”. Até à data da sua morte, Moisés Kafala exercia a função de Director Provincial da Cultura do Bengo.

Produção discográfica no mercado

José Kafala gravou, em 1986, nos Estúdios da Rádio Nacional de Angola, a canção“Renúncia Impossível”, sobre um poema de inspiração niilista do poeta Agostinho Neto, um  tema que acabou por ser regravado, depois, com a flauta de MoisésKafala, e veio a integrar o CD “Salipo”, adeus,  em umbundo. Em 1988, os Irmãos Kafala introduziram no mercado o CD “Ngola”, primeiro álbum do grupo produzido pelo Movimento Internacional Contra o Apartheid, com as canções:  “Ngola”, que dá título ao CD, “O\'Lomgembia”, “Paira no Tempo”, NguiKinguilo”, “África”, “Vissolela”, “NvundaYeto”, “Lemba”, “O\'KudizolaKueto” e “Papá”.
A internacionalização do grupo começa a ganhar forma e visitam a Inglaterra, no Festival Womad, a Escócia, França, no Festival Atlântica, Alemanha, Brasil, integrados no Festival de Artes Negras, Cuba, Canadá, Zimbabwe, Namíbia, África do Sul, Suécia, Costa do Marfim, Congo Brazzaville, Bélgica, Holanda, Finlândia, Itália, Espanha e Estados Unidos.
Na sequência da internacionalização gravaram, em Boston, em 1995, o  CD “Salipo”, que teve a produção da editora M.B.Record\'s, dirigida pelo cantor cabo-verdiano Ramiro Mendes. “Salipo” foi reeditado pela editora francesa, “Harmonia Mundi”, e tem tido, até a actualidade, uma ressonância positiva, junto do público estrangeiro. Fazem parte do CD “Salipo” as canções:“Ndenda La Suku”, “Malamba mamy”, “Kalumba”, “Crucifixo”, “Ho Muno”, “Le Timba Liamome”, “Benguela”, ”Vutuka”, “Salipo”, “Amor Suspenso”, “Nguxi”, “Renúncia impossível”, e “Catito”. Embora sem o impacto dos discos anteriores, constatação que na altura denotava o declínio do Duo, surge, em 2004, o derradeiro CD, “Bálsamo”, onde pontificam, entre outras canções, os temas: “Ofekayetu, “Crucifixo, “Um abraço”, “Amor”, “Suspenso”, “Renúncia impossível”, regravado, “Voz de Sangue”e “Kalunga”.

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