Diva do canto dolente no Dia da Mulher Africana

Jomo Fortunato |
3 de Agosto, 2015

Fotografia: Rogério Tuti

Embora os preceitos conservadores da sociedade colonial, reservassem à mulher uma mobilidade artística limitada, e um papel social circunscrito a regras comportamentais muito rígidas, Lourdes Van-dúnem teve o  mérito de transpor barreiras e ultrapassar o estoicismo moral, muito arraigado na época.

Figura prestigiada da história da Música Popular Angolana, morreu há onze anos, e a sua prestigiada obra continua a ser reconhecida, e revisitada pela nova geração de intérpretes. 
De facto a mentalidade e a moral, dominantes no período da colonização portuguesa, olhavam de soslaio as mulheres que se exibiam em palco, sendo, em consequência, aviltante e mal reputada a profissão de cantora. No entanto, Lourdes Van-Dúnem teve  a compreensão do pai, Ovídio dos Santos Pereira Van-Dúnem, e o apoio, sem reservas, do seu padrinho, e primo da sua mãe, Bento Catela Duval, responsável pela descoberta do seu timbre vocal.
A mulher, na história social da Música Popular Angolana, está consubstanciada nas vozes paradigmáticas de Lourdes Van-Dúnem, Belita Palma, Conceição Legot, Lilly Tchiumba, Dina Santos, Garda, Alba Clington, Celita Santos, Milá Melo, Tchinina, Sara Chaves e Conchita de Mascarenhas, citamos apenas as figuras cuja proeminência histórica nos é dada pela magnitude estilística, de base angolana, e pelo legado artístico do conjunto das suas  obras.
No entanto, ainda em plena época colonial, algumas cantoras, de origem e nacionalidade portuguesa, diziam sentir, no íntimo, o pulsar da angolanidade rítmica. Sara Chaves, por exemplo,  foi uma intérprete importante no panorama artístico angolano, e chegou a gravar, nos anos sessenta, o tema, “Kuricuté”, de António Pascoal Fortunato, Tonito, acompanhada pela orquestra do Maestro Casal Ribeiro.

Percurso

Filha de Ovídio dos Santos Pereira Van-Dúnem e de Engrácia de Menezes, Maria de Lourdes Pereira dos Santos Van-Dúnem nasceu no Bairro dos Coqueiros, em Luanda, na rua Adelino Dias, no dia 29 de Abril de 1935.   Fez o ensino primário na Liga Nacional Africana, e o secundário no colégio Dª Ana de Castro e Silva, tendo concluído o  segundo ano, no Liceu D. João II.
Começou a cantar muito jovem no colégio, e aos poucos foi-se evidenciando, como cantora. Pisou o palco pela primeira vez, com o conjunto “Ngola ritmos”, em 1950, num programa de variedades organizado pelo Grupo Teatral “Gexto”. No início da sua carreira fez várias digressões por Angola e Portugal, com o “Ngola Ritmos”, e gravou o seu primeiro single, “Monami”, com o agrupamento, Jovens do Prenda.
Lourdes Van-Dúnem gostava de ouvir e interpretar canções da Amália Rodrigues e Ângela Maria. No entanto, foi com o seu primo Antoninho Van-Dúnem que Lourdes aprendeu a cantar “Ki ngui  kamba” e “Totoritó”, dois clássicos do cancioneiro angolano, em kimbundo.
Nos finais da década de sessenta, Bento Catela Duval contactou o Liceu Vieira Dias do “Ngola Ritmos”, e Lourdes Van-Dúnem passou a integrar a secção de vozes do grupo, formado, neste período, por Nino Ndongo, Xodô, Amadeu Amorim e José Maria. Amadeu Amorim recordou que numa das digressões do conjunto “Ngola Ritmos”, pela Província de Benguela, as vozes de Belita Palma e Lourdes Van-Dúnem ecoaram no bar do Tio Xandocas, facto que ocasionou a paragem do trânsito nas redondezas.
A revista “Noite e dia”, numa das suas edições, considerou-a “Gaivota negra que canta a sua dor”. De facto, foi com a composição e gravação, no quintal do Nino Ndongo, do tema “Monami” que Lourdes Van-Dúnem começou a ser reconhecida pelo grande público. Em “Monami”, uma canção dolente inspirada numa melodia brasileira, a cantora lamenta a morte de um dos seus três filhos.
Depois de uma paragem temporária do “Ngola Ritmos”, Lourdes Van-Dúnem integrou  e fundou, em 1957, o “Trio feminino” formado pela Belita Palma (tambores), Conceição Legot (guitarra) e Lourdes Van-Dúnem (dikanza). As canções “A máscara da face” e “Diá Ngo”,  foram os grandes sucessos do Trio Feminino. Lourdes Van-Dúnem apresentou, em 1957,  os programas “Kapapumuka” e “Kussunguila”, como locutora da então Voz de Angola, estação de rádio onde foi tradutora de português para o kimbundo.

Distinções    

Lourdes Van-Dúnem recebeu várias distinções, destacamos apenas as mais relevantes: Diploma da “Voz feminina mais antiga da República de Angola”, pelo Hotel Turismo, em março de 1991,  “Homenagem aos Pilares da Música Angolana”, na  Exposição de Sevilha, Espanha, em 1992, diploma do Governo da cidade de Luanda, pelos serviços prestados à cultura da cidade, nas comemorações do 420º aniversário da fundação da Cidade de Luanda, em Janeiro de 1996, e “Rainha das vozes femininas”, pelo Ministério da Cultura, no IV “Festival nacional de vozes femininas”, pelo reconhecimento dos  cinquenta anos de carreira.  Lourdes Van-Dúnem participou no projecto, “So why”, canção da autoria e arranjos de Wally Badarou do Benin, interpretada por Papa Wemba, da RDC, Youssou N’Dour, do Senegal, Jabu Khanyille & Bayere, da África do Sul, e Lagbaja, da Nigéria. A canção foi um apelo à solução pacífica dos conflitos que dilaceram o continente africano, consubstanciados na intolerância étnica e política.

Discografia

Lourdes Van-Dúnem gravou com os Jovens do Prenda, “Ngongo ua Biluka”, o mundo está louco, em 1973, com Zé Keno (guitarra solo), Mingo (guitarra rítmo), Kangongo (guitarra baixo), Very Inácio (tumbas), Chico Montenegro (bongos), Didi (dikanza), e Tony do Fumo (percussão). Depois de cerca de vinteb e cinco anos de silêncio discográfico, alternando com esparsas aparições públicas e várias homenagens em Angola e no estrangeiro, surgiu, em 1997, o  CD, “Ser Mulher”, que inclui os sucessos: “Mwabelela” e “Ímbua Kejie Ngana”, composições que atingiram o top das rádios luandenses, tendo regravado as cançoes, “Monami” e “Uxidi”.  “Nzambi Kilamba” (2000) o último CD da cantora, promoveu a cantora no mercado internacional do disco. “Nzambi Kilamba” era o pseudónimo de Jerónimo Pereira dos Santos Van-Dúnem, avô de Lourdes Van-Dúnem, homenageado neste álbum. Em “Nzambi Kilamba”, a cantora recoloca o timbre da sua voz, peregrina em vários géneros musicais, e envereda pela modernização da sua carreira, pelo nível de execução técnica.

Morte


O conteúdo textual das composições de Lourdes Van-Dúnem, traduzem as conflitualidades sociais e psicológicas da cantora, perante as adversidades da vida. Nota-se no registo melancólico da sua voz, a expressividade de experiências e emoções muito sentidas. Em 1975, uma violenta queimadura causada por produtos químicos, fê-la abandonar por um longo período, a vida artística. Só a coragem, o amor à música e uma filosofia existencial, sem preconceitos, fizeram-na continuar.  Lourdes Van-Dúnem morreu, vítima de doença, na madrugada do dia 4 de Janeiro de 2006, uma quarta-feira, na Clínica Multiperfil, em Luanda, aos 71 anos de idade, durante uma intervenção cirúrgica a que foi submetida, consequência de uma perfuração intestinal.

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