Figura emblemática do movimento da canção política

Jomo Fortunato|
7 de Julho, 2014

Fotografia: DR

Ainda garoto, Beto Gourgel palmilhava a areia avermelhada das ruelas do Bairro Marçal e ouvia, encantado, os coros da Igreja Metodista, onde o pai foi pastor. À época fervilhavam os bailes no espaço cultural do Club Botafogo, e pairava no ar a vibração musical dos “Kimbandas do ritmo”, a célebre formação musical de Catarino Bárber, Manuel Faria de Assis e Tonito.

Figura emblemática do amplo movimento da canção política, que atingiu o seu apogeu em 1975, Beto Gourgel diz ter começado o verdadeiro contacto com a música em Novembro de 1961, como estudante da Casa Pia de Lisboa, instituição que disse ter sido uma das suas grandes referências culturais da juventude. Na Casa Pia de Lisboa Beto Gourgel iniciou o processo de aprendizagem musical, por “necessidade espiritual”, com os professores Livramento e Jaime Silva Barcarena, os seus principais impulsionadores, quando começou a dar os primeiros passos no contacto com a guitarra.  Foi nesta época que  interpretava, nostálgico, as canções do Duo Ouro Negro e temas que aprendeu na  infância, que em muito o ajudaram a contornar o enclausuramento e a solidão dos duros tempos “Casapianos”, adaptação que não foi, de modo algum, fácil.
Filho de Fernando Pio do Amaral Gourgel e de Luísa Gaspar Domingos, Roberto Pio do Amaral Gourgel nasceu no dia 11 de Maio de 1948, em Caxito, província do Bengo, e morreu no dia 25 de Janeiro de 2006, em Luanda. Beto Gourgel apresentou-se pela primeira vez em público, em 1964, numa festa de estudantes da Casa Pia de Lisboa, organizada com o objectivo de angariar fundos para ajudar os finalistas, a enfrentar os primeiros tempos de vida activa. Ainda em Portugal, ajudou a fundar, entre 1965 a 1967, os “The Fools”, formação pop-rock de Saldanha, como vocalista, constituída por Zequinha (viola baixo), Rui Jorge (guitarra solo), Nuno (bateria) e Narciso (guitarra ritmo) . Por ligeiras metamorfoses estruturais, os  “The Fools” passaram a  designar-se “The Milk Baby’s Group” e depois, “Filhos da Pauta”, mudanças que ocorreram em 1967.

Encontros

No cumprimento do serviço militar obrigatório em Portugal, Beto Gourgel foi requisitado, em 1968, para integrar o “Alerta Está”, grupo musical do exército que era criado todos os anos, e que fazia apresentações, essencialmente, nos aquartelamentos. No “Alerta Está” encontrou alguns cantores e compositires que se tornaram  importantes referências da história da Música Popular Portuguesa: Fernando Tordo, Carlos Mendes, Tony Amor, vocalista dos “Seis Latinos”, e Rui Pato. Beto Gourgel chegou a fazer, com o “Alerta Está”, um espectáculo no Cine Monumental, em Lisboa, que foi gravado para a televisão portuguesa, ocasião em que cantou, pela primeira vez, em público, a canção angolana, “Tata ku matadi”, em kimbundu. O referido espectáculo foi acompanhado por uma orquestra, regida pelo maestro Sílvio Pleno.
Ainda no “Alerta Está”, Beto Gourgel fez apresentações nos aquartelamentos dos militares destacados na Guiné e Moçambique, durante seis meses,  e voltou a Portugal, em 1969, e,  nos finais do mesmo ano, foi convidado a participar no Zip- Zip, um renomado programa de televisão da RTP, que teve como apresentadores Carlos Cruz e Fialho Gouveia, e o humorista Raúl Solnado. Neste programa participaram os cantores compositores Rui Mingas e Fausto, contudo Beto Gourgel não compareceu por falta de autorização dos seus chefes militares.
Depois de uma passagem de dois anos em Angola (1970-72), Beto Gourgel acabou a comissão militar, retorna a Portugal, e reencontra os velhos amigos de Saldanha: “The Fools”, “The Milk Baby's Group” e dos “Filhos da Pauta”. No Tareco, um café de Vila Franca de Xira, encontra o Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e José Jorge Letria, figuras cimeiras da canção política portuguesa, facto que o conduziu à militância no domínio da música de intervenção política.
Nesta altura, começou a cantar baladas de cunho político no “Candeeiro”, um espaço improvisado situado na cave de uma igreja em Lisboa, e se emancipa do rock e da soul music. Depois do 25 de Abril de 1974 participa no Festival Canto Livre, uma emanação do “Canto Libre” do Chile. Neste Festival representa a freguesia da Amadora conquistando o primeiro lugar ex-aequo, com Carlos Paulo e Duo Tojal. Daí foram-se multiplicando as actuações em território português e forma o “Duo Chatear a Direita”, com Carlos Paulo.

Quarteto   

Beto Gourgel tem o mérito de ter sido uma figura que se destacou na época de eclosão do fervor revolucionário, fase que conduziu à independência de Angola. A singularidade comunicativa dos seus textos musicais, a sátira e o humor linguístico, de que lhe são peculiares, fizeram de temas como “Ngingila iá Nvunda” (caminhos da luta), “Gienda iá mamã” (saudade materna) e “Metamorfose”, um conjunto de canções paradigmáticas do período revolucionário.
Nesta época, conheceu o moçambicano Virgílio Massingue, a filandesa Eila Hellevi Lehtinen e a Micas, igualmente moçambicana, e formam o “Quarteto a mesma luta”. O Quarteto dura até 1977, altura em que Beto Gourgel decide vir para Angola e revive a música, de forma involuntária, num reencontro musical com André Mingas, Carlos Pimentel e Filipe Zau. Daí foi o grande sucesso num espectáculo no Cine Karl Marx com o Duo Beto e Eila.
Na última fase da sua carreira, Beto Gourgel  trabalhou com os Irmãos Kafala, Kituxe e seus acompanhantes, Duo Canhoto, Mito Gaspar e Semba Muxima, para além de importantes incursões na Televisão Pública de Angola, no programa “Conversas no quintal”. Beto Gourgel afirmava convicto: “o que fiz valeu a pena. Só lamento o facto de não ter cometido mais asneiras... às vezes por comedimento evitei coisas boas”. O sentido de humor sempre acompanhou Beto Gourgel, uma característica temperamental que o ajudou a equilibrar o sentido e o vivido.

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