Cultura

Genialidade criativa e singularidade da afinação

Zé Keno, o emblema dos Jovens do Prenda, é um nome que marcou de forma indelével a história da Música Popular Angolana.

Zé Keno é um dos fundadores do conjunto
Fotografia: Paulo Mulaza | Edições Novembro

Em 1953, com apenas três anos, saiu de Mucasa, município da Província de Malange, para Luanda, com a mãe, e soltou aos dezoito anos, os primeiros acordes da sua guitarra que encantavam a juventude da época. Quando jovem, Zé Keno assistia, interessado, o desfile de grandes nomes da música angolana no Salão dos Passos, no Bairro Prenda.
A criatividade plena e o desempenho de um fraseado musical com laivos de improvisação jazzística, são alguns dos atributos de um guitarrista que afirma, de forma resoluta, ter sido influenciado pelos guitarristas Duia, dos Gingas, Marito,dos Kiezos, Liceu Vieira Dias, do Ngola Ritmos e Doutor Nicó, da “Banda African Fiesta”. Zé Keno deixa às gerações vindouras, a singularidade de uma afinação, diferente da clássica, e um cunho inequivocamente pessoal de dialogar com a sonoridade das cordas, num processo em que inventou as suas próprias posições na guitarra e revolucionou a estrutura harmónica dos solos de guitarra na Música Popular Angolana. Curiosamente, a primeira guitarra eléctrica de Zé Keno, de marca “Guia”, foi comprada por fiança e paga a prestações pelo tipógrafo Elias da Graça. Zé Keno fez um depoimento único e raro, sobre o enigma da  sua afinação: “A minha afinação nasceu de forma espontânea, no início da minha aprendizagem. Numa ocasião em que dedilhava uma viola construída  por mim, descobri, muito tarde, que a distensão aleatória das três primeiras cordas dava a nota Fá.
Com o desenvolvimento do grupo “Os Sembas” adquiri uma viola de seis cordas.  Na sequência as cordas Mi, Lá e Ré, da nova viola adquirida, permaneceram com a afinação clássica. A grande revolução foi a transformação da nota Sol em (Fá) da Si em (Lá) e da Mi em (Dó) das três primeiras cordas. Daí as implicações foram óbvias. Só um executante conhecedor das posições inventadas por mim, estava em condições de tocar na minha afinação. Há harmonias, muito características, que só podem ser conseguidas com a minha afinação”. Zé Keno lembrou-nos  o solo da canção “Gienda já mamã” do cantor António Paulino que diz ter sido totalmente improvisada em estúdio. A personalidade do Zé Keno confunde-se com o percurso da história da Música Popular Angolana, tendo arrebatado o Prémio Catarino Bárber, em 1995, pela composição “Nova Cooperação”, na Primeira Edição do Prémio Welwitchia da Rádio Nacional de Angola, o “Prémio Identidade” instituído pela UNAC, União Nacional dos Artistas Compositores e o “Prémio Nacional de Cultura e Artes”, em 2000, instituído pelo Ministério da Cultura.
Zé Keno diz não ter tido nenhum familiar próximo ligado à música. No entanto, contou que o pai fazia serenatas à mãe em cima de uma árvore ao som do kissanji. Zé Keno, também conhecido por José Pequeno ou Kedy, pseudónimo com o qual gravou dois singles a solo, “Filho doente” e “Jipambo”, passou pelos “Águias-reais” e “África Show” e foi autor dos grandes êxitos dos “Merengues”, no seu período áureo.

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