Grande Wyza encheu o palco

Jomo Fortunato |
29 de Fevereiro, 2016

Fotografia: Jaimagens

Cresceu ouvindo os cânticos da sua mãe, acompanhados pela sonoridade do quissanje. Volvidos trinta e dois anos desde a data da sua entrega à música, Wyza foi a mais recente atracção no palco do Palácio de Ferro, no âmbito dos concertos da III Trienal de Luanda, um projecto cultural da Fundação Sindika Dokolo.

Wyza é um nome que ressoa, de forma automática, quando o assunto em abordagem são as tendências contemporâneas da Música Popular Angolana, de expressão cultural, bakongo. Cantor e compositor da nova geração, foram suas, as seguintes palavras, sobre como pretende estruturar, o futuro da sua obra: “Na verdade ainda não gravei o disco que pretendo. Quero mais liberdade vocal e melódica, ou seja, a ideia é gravar um disco mais transparente. Um álbum que tenha o meu conceito, e a minha visão sobre os processos de estilização, um trabalho que possa estar identificado com o que de melhor se faz no mundo, no domínio da música africana”.
“Nos meus discos anteriores a estruturageral e os arranjos não me pertenceram. Houve situações em que eu estava em Angola, e o disco a ser gravado no Brasil.  A minha estratégia é incentivar os mais jovens a compor e cantar em línguas nacionais, preservando sempre os valores culturais da tradição. Wyza começou a cantar na infância, influenciado pela mãe, exímia tocadora de quissanje, instrumento tradicional angolano. Foi assim que, num processo repetido, foi absorvendo a influência, e as sonoridades das canções tradicionais da sua terra.
Wyza fugiu da guerra em 1984, e , sobre os percalços da sua vida, lembrou o seguinte: “Na fuga para capital não trouxemos muitas coisas materiais, no entanto sempre esteve presente no nosso íntimo a saudade, e o sentimento de amor nos nossos corações”.
 Wyza trabalhou em diversos ofícios para sobreviver: “Apesar do cansaço diário da busca pela sobrevivência, durante anos ao chegar em casa, João Sildes pegava o violão, compunha e ensaiava as suas canções, sempre em Kikongo”, lemos no catálogo de divulgação do seu trabalho. Em 1982, com apenas sete anos de idade, já em Luanda, foi bailarino no grupo “Five stars”, e participou, no dia 5 de Dezembro de 1993, no Festival Infantil, Brilho Sol, organizado pela Professora Rosa Roque, em Luanda.
 Nesta ocasião, conheceu o Rodolfo, um menino do Bié, com quem aprendeu os primeiros acordes de guitarra.
Em 1997, entrou para a “Banda vozes negras”, que integrou os músicos Tavinho, teclas, Pirica Duia, guitarra, Vando Moreira, baixo, Pascoal, teclas, e Chalita, na bateria.
Quatro anos depois, gravou, “Kinsiona”, seu primeiro álbum, com produção de João Alexandre. Em 2002, conheceu o cantor e compositor Paulo Flores, que o convida a participar na abertura dos seus concertos, e, em Fevereiro de 2003, é convidado a entrar na editora e produtora, Maianga Produções.
Filho de Malandila Kissueia e de Elisa Bunga, João Sildes Bunga, Wyza,  nasceu no Bungo, província do Uíge,  no dia 27 de Agosto de 1975.  Wyza explora, fundamentalmente, o género, “Kilapanga”, variando entre o “afrobeat” e o funk, a que se juntam projectos que visam aconstante  internacionalizaçãoda sua música.

Festivais

Wyza participou em vários festivais, tanto na Ásia, América, como na  Europa, dos quais destacamos os seguintes: “Festival Lamar de Música”, Espanha, “Sfinks Festival”, Bélgica, “Mundos de Música”, Ilhas Canárias, “Tom de Festa”,Tondela, Portugal, Rec Beats, Recife, Brasil, “Favela Chic”, França, “MMF Sines”, Porto Corvo- Portugal, “TA FNAC”, Porto- Portugal, e “Festival Internacional de Jazz de Luanda, Angola. Wyza foi presença  notável na Casa da Cultura Brasil-Angola em Salvador, durante a cerimónia de atribuição da cidadania Bahia à sua Excia Presidente da República José Eduardo dos Santos. Na sequência foi um dos convidados, num jantar oferecido pelo ex-primeiro ministro português,  José Sócrates, no Centro Comercial, Vasco da Gama, em Lisboa, Portugal.
Durante a sua carreira, já dividiu o palco com artistas conceituados: Luke Dube, Ziggy Marley, Mirian Makeba, Salif Keita, Yussou Ndour, Mart´náia, Olodum, Seu Jorge, Richard Bona, e Shakira. Wyza co-produziu em Angola os concertos “Droga, diga não”, de combate ao consumo de drogas, bem como participou no documentário televisivo “África visita África”,  gravado no Brasil.

Discografia

Wyza surgiu no mercado discográfico com Kinsiona, 2001, palavra em kikongo que significa solidão, uma edição da ENDIPU.Quatro anos depois, registou, pela Maianga Produções, o CD “África yaya”, com as canções ”KaniYa”, que significa se eu fizesse, “Mbangala”, cacimbo,“Mawe”, nome de feminino, ”África”, “Kaxi”, raiva, ”Ngudi”, mãe, “Vavanguina”, aqui onde estou, “Miezi”, luar, “Nzemba”, desprezo, “Mpasi”, sofrimento, “Nganga”, filósofo tradicional, “Nvuala”, política,  e  “África”, remix. Em 2007, surgiu o CD, Bakongo, pela Maianga Produções, com as canções Bakongo, Kwassa, Ndinga, que significa voz, Sanza, nome próprio, Nbyfé, meu amor te quero, Mona Phipha, pela noite dentro,Tsongo, úmes, Achamale, chamaram-me, Vício, Kyzoba, homem burro, Wyky, mel, e Kyllekm, infância. O conjunto da sua discografia teve a produção de João Alexandre, Angola, Maurício Pacheco, Brasil, Reinaldo Maia, Brasil, e Manecas Costa, da Guiné Bissau. Wyza participou no álbum “Xé Povo” de Paulo Flores, “Cem por cento Angolano”, de Chico Viegas, “Viagem à África”, de Mart´nália, do disco da Orquestra Afro-Sinfónica do Brasil, do projecto da banda, Vedro Neibo, da Sérvia Erzgovina, e tem uma canção de sua autoria no CD “The Experiment”, do cantor e compositor Coréon Dú.

Concerto

Wyza, voz e violão, revisitou canções dos discos “Kinsiona”, África yaya”, e “Bakongo”, na sua apresentação no palco do Palácio de Ferro, sábado último, no âmbito da III Trienal de Luanda. No concerto o cantor e compositor, foi acompanhado por Nino Jazz, teclas, Teddy Nsingui, guitarra, Marabú, guitarra baixo, Vado Batera, bateria, e nos coros com Estanislau do Nascimento, Santimam, e Chiva.

Trienal

A programação de concertos da III Trienal de Luanda pretende homenagear a qualidade artística dos cantores, compositores e instrumentistas angolanos, valorizando um segmento musical reflexivo e experimental está distante do grande sucesso comercial da música de consumo imediato.  Já desfilaram a Banda “Afra Sound Star”, o cantor compositor e guitarrista, Carlitos Vieira Dias, acompanhado por Nanutu, saxofone soprano, Dalú Roger, percussão, a Banda Next, formação jovem que funde canções referenciais da Música Popular Angolana, segmentos de rock, e referências da soul music norte americana, Anabela Aya, uma das vozes mais promissoras do afro-jazz angolano, Duo Canhoto, formação que representa, na actualidade, a vanguarda mais prestigiada da trova angolana, e da musicalidade endógena da cultura angolana, Ndaka Yo Wiñi, cantor e compositor que valoriza a tradição pela estética da modernidade, Gari Sinedima, referência incontornável da nova geração de cantores e compositores, e Gabriel Tchiema, celebração sublime da musicalidade e da cultura tchokwe, Kiezos, conjunto histórico da Música Popular Angolana, e a Massemba já esteve representada pelos Novatos da Ilha de Luanda, e pelo União Elite, do Maculusso.

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