Guitarrista Derito e a fusão de ritmos

Jomo Fortunato|
4 de Agosto, 2014

Fotografia: Cedida pelo músico

Reutilizando as harmonias e o fraseado dissonante, característico do jazz, Derito defende o primado da fusão, visando a efectiva internacionalização da Música Popular Angolana.

Dividido entre Londres e Luanda,  o cantor, compositor, guitarrista e produtor musical trabalha num projecto inédito de interpretação de clássicos da Bossa Nova, traduzidos em quimbundo, que revisita canções de João Gilberto e António Carlos Jobim.
Sabe-se que a  Música Popular Angolana vem permitindo e estabelecendo, ao longo da sua história e  consolidação, uma relação de cumplicidade com outras sonoridades, num processo dinâmico de  permeabilidade entre a tradição e a absorção de variadas vertentes da música universal. Apesar de valorizar os reencontros criativos, Derito vem conservando as marcas da tradição, renovando experiências musicais do passado, com géneros padronizados da contemporaneidade. Neste caso as línguas nacionais constituem um singular recurso patrimonial, passível de renovação e reactualização, em variados contextos artísticos.
Filho de  Manuel Cardoso Tavares e de Ana da Silva Tavares, Hélder Conceição da Silva Cardoso Tavares nasceu em Benguela, no dia  7 de Agosto de 1966. Residente em Londres, desde 2006, Derito subiu ao  palco pela primeira vez na cidade de Benguela,  em 1977, por ocasião da exibição de uma peça teatral,  alusiva ao dia 1 de Dezembro, dia do pioneiro angolano, onde um grupo de crianças foi  convidado a interpretar várias canções, acompanhadas pelo conjunto “Ngola 74”, do solista Afonso Botage, um importante instrumentista benguelense da época. Na referida peça teatral, Derito interpreta a figura de “Ngangula”, herói da história da luta anti-colonial angolana.
Em 1982 começaram as tertúlias em Portugal, que foram muito importantes para a solidificação da sua formação como instrumentista, país onde se deslocou com o fito de   completar a sua formação académica, interrompida até a  frequência do terceiro  ano do curso de  Engenharia Electrotécnica e computadores.  No mesmo ano formou o “Kadance”, com o santomenense Neto Amado (guitarra solo), Mick Trovoada (baixo), Viriato (bateria), o seu primeiro quarteto,  tendo criado depois o trio “Tropicalyssimos” com Mick Trovoada (percussão) e Mani Assis (acordeão) , em 1988.
Enquanto compositor e intérprete, Derito é defensor da promoção das línguas nacionais na música, tendo afirmado  o seguinte, numa entrevista concedida no Jornal Continente, edição do dia 27 de Dezembro de 2013: “O que me incentiva é o facto de ter descoberto que as línguas nacionais são uma das nossas maiores riquezas culturais. Sendo um dos responsáveis que levanta a bandeira de Angola no estrangeiro, é imperativo deixar uma imagem cultural de marca bem vincada, embora tenha consciência que a língua  portuguesa é a  nossa língua oficial. Há uma cultura linguística que nos identifica, enquanto africanos que cantam e valorizam as nossas línguas nacionais. Saibam que para além do gozo que me dá, sinto que me coloco no mesmo pé de igualdade com outros africanos, que se exibem no mercado Europeu”.

Digressões


Derito teve uma vida atribulada de concertos e digressões, ao longo da sua carreira, numa luta incessante de valorização da história da Música Popular Angolana.  Logo no início da sua carreira, em Outubro de 1985, visitou a África do Sul, Cabo Verde, Namíbia, Moçambique, Angola, Suíça, França, Holanda, Portugal, Brasil, China, Alemanha e Inglaterra. Em 1997 representou Angola no Festival de Jazz de Windoek, na Namíbia. Em 2006 esteve no Campeonato do Mundo de Futebol, na Alemanha, tendo sido convidado, em 2007, a fazer o hino do “Afrobaskete”, Campeonato Africano de Basquetebol,  tendo sido  eleito embaixador do Campeonato Africano de Futebol, no CAN 2010. No entanto, dois concertos de grande prestígio marcaram a carreira de Derito, em Londres: pisou o  palco do Queen Elisabeth Hall, em 2008, e do Ronnie Scott’s Jazz Club,  em 2013.

Influências


Para além da incontornável influência da musicalidade e do lirismo da guitarra de André Mingas, um dos mais importantes representantes do movimento da renovação estética da Música Popular Angolana, a linguagem musical de Derito é, de igual modo, o resultado inequívoco da absorção da Música Popular Brasileira, nas versões de Gilberto Gil e Caetano Veloso, incluído a geração pós-tropicalista, representada, fundamentalmente, por  Djavan. Em relação às influências, Derito fez o seguinte depoimento: “Comecei por estudar Bossa Nova através de cifras e trocas de experiências com outros músicos, e quando queria transportar as harmonias aprendidas para a música afro, deparei-me com a falta de documentação escrita ou sonora que pudesse suportar a minha teoria. Como queria muito mudar a sonoridade da música angolana, e, não tendo livros para recorrer, o saudoso André Mingas ajudou-me a fazer a ponte. Ele era exímio nas dissonâncias e na forma de dedilhar os acordes. As propostas do André nada têm a ver com a forma como fazemos o nosso semba mais básico, digamos que ele foi determinante para aquilo que hoje é o meu ponte forte, a destreza da mão direita”.

Discografia


Derito gravou o seu primeiro álbum, “Saudade”, em Julho de 1995, e a canção “Na minha banda” foi incluída  numa importante compilação, editada na Alemanha, emparceirando com temas de Martinho da Vila, Gilberto Gil e Maria Bethânea. No entanto, duas canções marcaram o primeiro disco: “Saudade”, que dá título ao álbum, tema que retrata a beleza da cidade de Benguela, e “Kissanje”. O segundo CD, “Álison”, surgido no mercado em Outubro de 1996,  marcou a transição do cantor para o universo do “Afro-jazz”, embora os temas de maior sucesso, tenham sido “Cabo Verde, terra sabe”, “Intumba”, e Álison”. O terceiro e duplo CD, “Discernimento” (2004),  foi gravado em Portugal, Brasil, França e África do Sul, e teve importantes  participações internacionais: Hugh Masekela, Manu Dibango, Jacob Desvarieux, Jean Claude Naimro, Pedro Jóia e  Paulo Calasans.  Com a   canção “Intumba”, cantada em Nganguela, Derito arrebatou  o melhor  vídeo-clip de 1996, em Angola. Em 1998 tornou-se o primeiro músico angolano a editar um vídeo-cassete com oito momentos, designado “Recantos de Angola”, apresentado na EXPO-98 em Lisboa. Ao longo da sua carreira, Derito teve presença em vários canais de televisão tanto em   Portugual como em Cabo Verde passando por Moçambique, Namíbia e   Brasil.

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