Guitarrista dos Ébanos deixa um grande legado

Jomo Fortunato|
14 de Julho, 2014

Fotografia: DR

Pouco conhecido do grande público, mas referenciado e prestigiado pelos seus contemporâneos da vida artística, José Maria atravessou importantes momentos da história da Música Popular Angolana, tendo integrado, como guitarra solo, os agrupamentos Ébanos, Astros e Ecos, três formações musicais de referência, do período áureo dos conjuntos.

Além dos emblemáticos, São Salvador, de Manuel de Oliveira, Ngola Ritmos, de Liceu Vieira Dias, Kiezos, de Marito Arcanjo, Águias-Reais, de Constantino, Merengues e Jovens do Prenda, de José Keno, a história dos conjuntos ficou marcada pelo surgimento de grupos musicais de média dimensão, que acabaram por deixar os seus nomes inscritos na história discográfica da Música Popular Angolana, embora muitos deles, caso dos Ébanos, não tivessem registado em disco as suas canções.
José Maria iniciou a sua carreira musical, em 1963, no grupo infantil músico-teatral do bairro do Cruzeiro, fundado pelo senhor Mário Fortes, onde tocou puíta e ngoma. Em 1968 passou a tocar no “Luanda Folclore”, grupo músico-teatral orientado por Dionísio Rocha.
Filho de Mário Lima e de Isabel Assunção, José Maria Lima nasceu no dia 29 de Maio de 1950, em Luanda, município das Ingombotas, na Rua do Franco, e morreu, vítima de doença, no dia 5 de Julho de 2014, às 6h:00 da manhã, no Hospital Militar de Luanda. Aos quatro anos de idade passou a residir no emblemático Bairro Operário, na Rua B, casa nº 56, município do Sambizanga, facto que foi marcante para o início da sua carreira musical.

Ngola Ritmos


Movido pela esperança e por uma enorme vontade de aperfeiçoar os seus conhecimentos de guitarra, com o fito de acompanhar os intérpretes consagrados da música angolana, José Maria esteve atento aos acordes dos históricos guitarristas Nino Ndongo e José Maria, do Ngola Ritmos, e do Adolfo, irmão mais velho do emblemático guitarrista Duia. No entanto, foi decisiva, para o seu aperfeiçoamento e aprendizagem, a amizade que vem da infância, contraída com Nelson Pereira de Carvalho, também conhecido por Nelinho, dos conjuntos Ébanos e Astros, seu vizinho no Bairro Operário, com quem passou longas tertúlias.

Conjuntos


A carreira musical de José Maria, ficou marcada pela sua passagem por várias formações musicais de prestígio. Ainda em 1968, convidado pelo empresário Eurico Afonso Pascoal, responsável na altura pelo conjunto musical Anazanga, integrou o conjunto Os Ébanos, na condição de viola solo, com Nelinho (viola-baixo), Pincha (viola ritmo), Tolingas (ngoma), Mingo (bongós), Robertinho (dikanza), e nas vozes: Pires, do Anazanga, Kakulo Kalunga e Taborda Guedes. José Maria passou ainda, em 1970, pelo Bossa 70, de Pedro Franco e Santos Júnior, Os Astros do CITA (Centro de Informação e Turismo de Angola), Os Corimbas, Ases do Prenda, Ecos, Maringas, do não menos célebre, Murimba Show, Ngoma Jazz, Ndimba Ngola e  África Show.

Digressões


As digressões por Angola, acabaram por dar substância à carreira musical de José Maria. “Andei por todo o país e acompanhando os cantores e compositores: Elias Dya Kimuezo, Mamukueno, Calabeto, Lulas da Paixão, Carlos Lamartine, Nito Nunes, Lindo da Popa, Tino Diá Kimuezo, Prado Paim, Dina Santos, Tony Caetano, Voto Gonçalves, Dom Caetano, Carlos Nascimento, Dionísio Rocha, Carlos Burity, Bangão, Pedrito, Santos Júnior, Zé do Pau, Massano Júnior, Santocas, António Paulino, Robertinho, Paulino Pinheiro, e ainda os falecidos Sofia Rosa, Artur Nunes, David Zé, Avozinho, Urbano de Castro, Vate Costa, Lourdes Van-Dúnem, António Sobrinho, Dino Kapaco-Paco, Taborda Guedes, Minguito, Kakulo Kalunga, Boano da Silva, Murimba Show e António do Fumo. Dos novos constam o Maya Cool e As Gingas do Maculusso. Esta diversidade de artistas acabou por melhorar a minha prestação técnica, enquanto guitarrista”.

Gravações


Embora tenha estado mais voltado aos espectáculos, e menos aos registos em estúdio, José Maria participou na gravação do single “Quando eu morrer”, de António Sobrinho, na canção “Mama kudikole ngó”, do El Belo, e no tema “Tia Joana Lopes”, do Jovem Macho.

Revivalismo


José Maria conserva as malhas rítmicas e os solos de canções referenciais gravadas na época colonial, e animou alguns locais de diversão da cidade de Luanda, interpretando: Artur Nunes, David Zé, Urbano de Castro, e músicas latino americanas, sobretudo as que marcaram os gostos musicais das farras luandenses, incluindo rumbas do Congo Democrático. Neste sentido, José Maria pode ser considerado um guitarrista revivalista, conceito que entendemos como sendo um movimento de caráter conservador e defensivo, de retorno aos momentos de esplendor da história da Música Popular Angolana.

Habilidades


Augusto Neto, conhecido cantor e compositor do conjunto “Jovens do Prenda”, fez o seguinte depoimento sobre o guitarrista José Maria, que considera ser “um companheiro de longa data“: “Conheci o José Maria, em 1972, na casa do senhor Eurico Afonso Pascoal, empresário do agrupamento os Ébanos, local onde assistíamos os ensaios. Nessa altura nunca o tinha visto tocar, mas ressaltou-me o facto de ele ser uma pessoa muito atenta, e curiosa. Um ano depois, ou seja, em 1973, fiquei surpreendido ao vê-lo tocar nos Ébanos. O que aconteceu foi que da assistência aos ensaios, passou rapidamente a guitarrista dos Ébanos, o que denotou que ele tinha uma grande capacidade de aprendizagem. A nossa amizade foi continuando, forte e solidária, e quando pensei em formar o conjunto “Ases do Prenda”, em 1974, convidei-o a tocar viola solo, período em que teve uma prestação invejável. Importa realçar que o José Maria foi fortemente influenciado pela sonoridade e a técnica do Marito Arcanjo, do conjunto os Kiezos, algo que considero normal e gratificante para o prestígio da Música Popular Angolana. Um dos aspectos que me agradou no José Maria, para além obviamente do lado artístico, foi a sua personalidade: foi um sujeito calmo, educado, solidário e amigo dos seus amigos. Sei que ele acompanhou muitos artistas consagrados, nunca parou de tocar, aparecia com frequência em muitos espaços de diversão de Luanda, o que demonstrava que a sua música e prestação técnica, continuavam vivas e mantinha a qualidade que o público gostava. As nossas famílias estiveram muito próximas, foi um companheiro de longa data. Paz à sua alma”.

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