Cultura

Homenagem póstuma a “El Belo” fundador do histórico Kissanguela

Jomo Fortunato |

O surgimento do agrupamento “Kissanguela”, em 1974, marcou o período áureo da canção política angolana, na época do entusiasmo da conquista da liberdade e independência, em torno do qual militaram figuras como, Candinho ,Artur Adriano, José Agostinho, Avozinho,  Jorge Varela, Giza, Tino diá Kimuezo e EI Belo, cantores e compositores falecidos, que fizeram parte da história gloriosa da canção revolucionária.  

Oriundo de uma família ligada à música El Belo é irmão do cantor e compositor Santocas
Fotografia: DR

O agrupamento “Kissanguela”, formação musical de intervenção política de reconhecida importância histórica, surgiu no dealbar da independência,e integrou cantores, compositores e instrumentistas que, movidos pelo anseio de liberdade,  juntaram-se voluntariamente à causa revolucionária. El Belo, cantor e compositor, notabilizou-se neste período emblemático da história da Música Popular Angolana, com as canções: “Econguelo”, “MPLA”, “Hoje é dia da revolução” e o clássico “Hoji-ya-Henda”. 
A evocação mais remota das memórias musicais de  El Belo, remontam os tempos do emblemático Bairro Indígena, famoso pelas  tertúlias que reuniam: Tizinho Miranda, viola e acordeão, Catarino Bárber, voz e violão, Voto Neves, viola ritmo, e VumVum, voz e violão. Estávamos em 1959, época em que despontavam grupos nacionalistas e organizações culturais, a exemplo do “Botafogo” e “Kimbandas do ritmo”, com figuras que promoviam sessões semanais de alfabetização, com destaque para Geny Mangueira e os irmãos, Albina Assis e Manuel Faria de Assis. 
Oriundo de uma família ligada à música, El Belo é irmão do cantor e compositor Santocas, figura de relevo da história da canção política angolana, sobrinho do falecido cantor e compositor, Mamukueno, a sua mãe pertenceu a Cridália, grupo famoso do Carnaval luandense, e a sua avó, Júlia Tutúri, tocava, habilmente, tambor e dikanza. 
Filho de Arnaldo Sebastião Vicente e de Maria Antónia Francisco de Assis, Arnaldo Sebastião Vicente Júnior, El-Belo, nasceu no dia  12 Abril de 1949, em Luanda, e começou a sua carreira musical em 1966, no Lobito, com Silva Martins, entusiasta que promoveu e ajudou a formar o  agrupamento musical “Ngongo”, com Lourenço da Cunha, viola solo, Filomeno, viola baixo, Júnior, caixa, e Augusto Mbumbo, tambores. Nos anos oitenta, El Belo pertenceu ainda ao agrupamento “Ilundo”, com Kituxi, bate-bate, Barros de Lândana, tambor, Mano Mingo, puíta, Manuel, tambor baixo, que além de Angola. Em 1991, El Belo, enquanto chefe de secção do Departamento de Cultura, Desporto e Recreação da UNTA, União Nacional dos Trabalhadores Angolanos, levou o “Semba África”, afecto a esta Central Sindical,   a Bélgica.  O “Semba África”,  na linha de continuidade do instrumental Primeiro de Maio, era  formado por Massano Júnior, voz e tambores, Raúl Tolingas, dicanza e voz, TeddyNsingui, viola solo, Dulce Trindade, viola baixo, Nanutu, saxofone, Franco, saxofone, e Juca na bateria. 

Kissanguela

Um dos momentos mais significativos da carreira musical de El Belo foi a sua entrada no agrupamento “Kissanguela”, em 1974, convidado pelo cantor e compositor, Manuel Faria de Assis. Na época, faziam parte do  grupo, Santos Júnior, tambores e voz, Manuel Quental, viola solo, Massangano, viola ritmo, Manuel Claudino, Manuelito, viola baixo, Artur Adriano, voz,  e Mário Silva na voz. No  “Kissanguela” El Belo gravou quatro canções de suma importância, no domínio da história da música de intervenção política: “Econguelo”, “MPLA”, “Hoje é dia de Revolução”, e “Hoje-ya-Henda”, uma histórica homenagem a um dos heróis mais emblemáticos da luta de libertação anti-colonial, cuja letra trancrevemos: Hoji, Hoji, Hoji Zé yaHenda, Hoji, Hoji, Hoji Zé yahenda/ panguiami Zé yákazola/  panguiami zé yázumbié/ mukonda zé diákidiié/ Hojiyáhendauábanguele/ uabana zé muenhuié/ uabanamainga mé/ Comandante Henda/ Comandante Henda/ Etu tolo ku banza/ Etu tolo kudila/ Ku muxima yáanangola/ Hojiyáhendauabanguele...  Em relação à importância histórica e a sua passagem pelo “Kisssanguela”, El Belo deixou-nos seguinte depoimento: “O agrupamento “Kissanguela” desempenhou uma enorme influência política e musical na minha vida, foi uma verdadeira escola. Com o “Kissanguela” estivemos próximos do Dr. Agostinho Neto, numa das viagens mais marcantes da minha vida, cujo destino foi a Guiné-Conacry. Na ocasião conhecemos de perto: Fidel Castro, Amílcar Cabral e SekouTouré”.

Homenagem

O agrupamento “Kissanguela”, de El Belo, foi homenageado no dia 04 de Abril de 2010, no âmbito do programa “Muzongué da tradição”, realizado no Centro Cultural e Recreativo Kilamba, em Luanda, com a participação especial da Banda Maravilha e dos cantores e compositores Joy Artur, Lulas da Paixão e Prado Paim.  Na ocasião foram interpretadas as canções:  “Twaana Ngola” e “Twakwá Divua”, pela Fató, emblemática voz feminina do “Kissanguela”, e as canções,  “Estrangeiro” e “Madalena”, foram interpretadas por Santos Júnior. Por sua vez, Prado Paim interpretou, os temas, “Gienda” e “Bartolomeu”. O “Kissanguela” exibiu-se ainda na última edição do programa Caldo do Poeira, no dia 17 Dezembro de 2006, no mesmo local. Na ocasião foram interpretadas as canções: “Eu vou fazer um poema”, “Twaanangola”, interpretadas por Mário Silva, “Estrangeiro” e “Atu mu ngila”, na voz de Santos Júnior. Por sua vez a canção,  "Avante o poder popular", um clássico da história da canção revolucionária, esteve assegurada pela voz de Calabeto. Na ocasião os cantores e compositores, Avozinho, José Agostinho, José Varela e o declamador, Giza, receberam diplomas de mérito, a título póstumo, pela importância histórica do conjunto das suas obras.

Discografia

El Belo surgiu no mercado discográfico, em 1970, ainda no tempo colonial, com dois singles: o primeiro  “Mamã kudikolengó” (mãe não chora), e o segundo,  “Homem negro”, que incluiu a canção “Tutúrika zuele” (Tutúri não fala), gravado em 1973, um tema em homenagem à sua avó. O primeiro CD de El Belo, “Doce de coco”, surgiu no mercado em Agosto de 2012, com as canções, “Menina Bonita”, em parceria com Gui Carlos, “NzambiYame”, “Doce de coco”, canção que dá título ao CD,  “Covimbuyetu”,  Infinito Céu, “Papa ni mama”, “Nzambiyami Kidi”, “Ngakuzolo”, “Titina” e “Walonda Komunda”, um tema em parceria com o compositor, Lourenço da Cunha. “Doce de coco” teve a produção de Miqueias Ramiro, teclas, Dulce Trindade, viola baixo, e Boto Trindade, viola solo e ritmo, e dos instrumentistas: Hugo Macedo, teclas, Pedrito, viola baixo, Pedro Ngiepi, trompete, Raúl Tolingas, dikanza, João Morgado, tambores, Izaú, viola solo, Zé Mueleputo, viola solo e ritmo, Dinho, baterista, Abana Mayor, congas e dikanza, Carlos Vaz, bateria, e os coros de Claudete Tchizungo, Denise Trindade e Fausto Fonseca. 

Morte

El Belo morreu no passado dia 29 de Maio aos 68 anos de idade, por atropelamento que, pelo seu desenvolvimento, resultou num traumatismo craniano, tendo acabado por falecer no Hospital Américo Boavida, em Luanda, onde esteve internado durante quinze dias, em consequência do referido acidente.

“Para além de músico ele tinha uma veia política”

Filho de Domingos Pereira dos Santos e Cecília Agostinho, naturais da Funda, Icolo Bengo, Domingos Pereira dos Santos Júnior nasceu no dia 17 de Setembro de 1947, em Luanda, no bairro Marçal, e foi impelido para a música, de forma natural, inspirado na arte de um tio, irmão da mãe, que integrava um grupo carnavalesco de “Kazucuta”, no Bairro Rangel.
O tio, Adão Agostinho, quando regressava a casa, tinha um comportamento que impressionava o então adolescente, Santos Júnior, quando, nos momentos de convívio, extraía sons “maravilhosos”, de forma curiosa, batendo e friccionando as mãos contra o peito, vocalizando, em falsete, os sons de uma corneta feita de lata, instrumento que nos remete, de forma automática, para os “funileiros”, artífices suburbanos do carnaval luandense.Estamos em 1958, altura em que Santos Júnior frequentava,  enquanto estudante, a Lagoa do Moreira no Bairro Marçal, local onde se concentravam os mais famosos grupos de Carnaval de Luanda: “União Kiela”, “Invejados” e “Cidrália”, incluindo outros grupos de referência. Santos Júnior cresceu neste ambiente musical, e, daí, foi a evolução progressiva de um percurso vertiginoso, que o levou a juntar-se a Manuel Domingos Jorge, irmão do falecido cantor e compositor Quim Jorge, ao Kito Jorge e Toneco. Com este grupo, Santos Júnior fez várias apresentações na Liga Nacional Africana. O salto posterior foi a sua integração no grupo “Mamukueno e seus kubanzas”, em 1963, e “Divuas do Ritmo”, em 1965. O primeiro grupo integrava o cantor Mamukueno, na voz principal, Flecha, viola baixo, Toneco, viola solo, Zitocas, tumbas e Santos Júnior, caixa e voz e o segundo integrava os músicos Artur Adriano, voz, Laurindo e Eugénio.
Santos Júnior, recordou  o perfil artístico do seu amigoEl Belo, enquanto co-fundador do agrupamento, Kissanguela”, e fez o seguinte depoimento,  nos termos que seguem: “Conheci o El Belo primeiro no Bairro Indígena e depois no Bairro Marçal. Sou mais velho dele dois anos, e, tal como eu, o El Belo gravou o seu primeiro single pela editora Valentim de Carvalho, ainda no tempo colonial. Ele vem do grupo ”Botafogo” onde cantava nas tardes, designadas, “matinées”. Para além de músico ele tinha uma veia política. Há um longo período em que ele desaparece do nosso meio e vai para o Lobito. Encontramo-nos depois no “Kissanguela”, e confirmo que ele foi um dos seus co-fundadores. Quando entrámos para o grupo estávamos integrados na secção de música da JMPLA. Depois é que houve uma reunião e decidimos atribuir um nome ao grupo, o primeiro foi “Kissaguelatuángola” e depois ficou só “Kissanguela”. Recordo que foram fundadores do “Kissanguela”, eu, Artur Adriano, Carlos Lamartine, Filipe Mukenga, José Agostinho, Tonito, Manuel Faria, Manuel Claudino, Ângelo Quental, Massangano, Mário Silva, Elias diá Kimuezo, Jorge Varela, e Giza. O El Belo tinha composições muito lindas. Mesmo este seu último CD, “Doce de coco”, tem canções de grande significado social”.

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