Internacionalização de um intérprete da nova geração

Jomo Fortunato |
20 de Julho, 2015

Fotografia: Vladmiro Gonga | Arquivo

Assumidamente influenciado pelos cantores e compositores brasileiros, Djavan, Caetano Veloso, e Gilberto Gil, os dois últimos do movimento tropicalista, Vladmiro Gonga tem valorizado a ousadia da renovação estética angolana, representada na obra de André Mingas e Filipe Mukenga, cantores com os quais mantém uma relação de intimidade conceptual.

Vladmiro Gonga chegou a Luanda, em 1995, com apenas catorze anos de idade, proveniente de Malanje, em consequência do conflito armado. No entanto, um dos seus grandes méritos foi ter transformado  as adversidades da vida, em motivo de evasão artística.  Após ter perdido a mãe, cantora do coro da Igreja Protestante, foi rejeitado pelo pai, e, em consequência, por toda a família paterna.  Ajudado por amigos, acreditou no lado positivo da vida, no amor entre os humanos, e, fundamentalmente, na força da música.
Diríamos então que a música na vida de Vladmiro Gonga, foi a “catarse” que purificou a sua alma dos efeitos provocados pela descarga emocional, dos dramas da sua vida, e ajudou o cantor a enfrentrar as agruras da vida.
 Hoje, volvidos cerca de dezanove anos, abre-se um  futuro  radiante, que tem proposto inúmeras oportunidades de sucesso, e tem transformado o cantor, numa figura de expressão internacional, sobretudo nos meios musicais brasileiros. Quando, em 2005, recebeu da Directora do IMEL, Instituto Médio de Economia de Luanda, Catarina dos Reis, a oferta da sua primeira guitarra, e descobriu, com o professor Genivaldo Dias, dois  livros de  partituras com cifras de Djavan e Caetano Veloso, Vladmiro Gonga inciava um percurso que culminou com a fundação da “Banda perfil”, em 2006, da qual foi um dos principais mentores, como intérprete e guitarrista, tendo alinhado com  Bernardo Toko (viola baixo), Mechak (bateria), e Carlos Mano (guitarra solo).
Vladmiro Gonga passou depois por várias casas nocturnas de Luanda, durante dez anos, como intérprete de clássicos da Música Popular Brasileira, e canções referencias da música angolana.
Na sequência,  frequentou um curso intensivo de música, oferecido pelo professor Raimundo Santos, na escola Mestre Webba, altura em que consolidou a execução do violão acústico. Surgiu depois a paixão pelo jazz e a entrada nos circuitos da Bossa Nova, interpretando, nos locais que frequentava, os clássicos: “Samba de uma nota só”, “Águas de Março”, e “Corcovado”, de António Carlos Jobim, e sucessos internacionais, como “Fly me to the moon”, de Bart Howard, canção imortalizada por Frank Sinatra, e  “Summertime”, de George Gershwin. Filho de Paulo Passos Gonga e de Manuela  Marta, Vladmiro Erasmo Gonga nasceu na Lunda Norte, Município do Cuango, no dia 9 de Dezembro de 1981. Da Lunda Norte passou pelo Huambo, Malanje e depois, Luanda, onde fixou residência, definitivamente.

Formação

Com a intenção de consolidar os seus conhecimentos musicais, Vladmiro Gonga frequentou, em 2004, o INFA, Instituto Nacional de Formação Artística, na antiga Academia de Música de Luanda, onde recebeu lições de canto lírico e violão clássico, com os professores,  Mateus Júnior e Miranda Domingos. Passou depois pela escola de violão, “Mas que música”, com o professor Heitor Castro, em 2010,  no Rio de Janeiro.  Ainda no Brasil, obteve lições de interpretação e técnicas da bossa nova,  com a professora Bia Mello, em 2014, no Rio de Janeiro.

Influências

Permeável a inovações, Vladmiro Gonga é uma das vozes da nova geração, que emergiu  da renovação estética da Música Popular Angolana, e  deixa-se contagiar pelos angolanos: Filipe Mukenga e André Mingas, e na música internacional por: Djavan, Caetano Veloso, João Bosco, Tom Jobim, Frank Sinatra, e Diana Kroll. Canta em kimbundo, umbundo, kokwe, lingala, kikongo, kiswahili e língua portuguesa. Vladmiro Gonga já dividiu o palco com: Pop Show, Filipe Mukenga, Tito Paris, Geraldo Azevedo,Lokua Kanza, Luiz Melodia, e já foi acompanhado pelo percussionista cubano, Félix Valdez. No Brasil tem tocado com André Vasconcelos (contrabaixo), João Viana (bateria), Max Viana (guitarra), e Renato Fonseca (teclas), combinando ritmos tradicionais africanos com as tendências do jazz, bossa nova, e afrobeat.

Concertos

Embora Vladmiro Gonga tenha começado a carreira, primeiro em tertúlias académicas, e depois em locais intimistas, como bares e restaurantes, em Fevereiro de 2013 foi figura de cartaz no “Jazz bar bebop”, em Luanda, ao lado de  Filipe Mukenga (voz e violão) , Wyza (voz e violão), Hélio Cruz (bateria)  e do brasileiro, baiano,  Celso Moura (guitarra), e apresentou-se, em Agosto de 2009, na Feira Internacional do Livro e do Disco, com os instrumentistas: Jackson Samuel (percussão), José Cambenga (guitarras), Wando Moreira (viola baixo),  António Bernardo (viola baixo),  Gabriel (bateria), e fez parte, com Ângelo Reis, o conhecido “poeta dos pés descalços”, do projecto, “Poesia e música”.

Discografia

Vladmiro Gonga gravou, em 2012,  o seu primeiro single com as canções, “Só amor” e “Influências no semba”, com a produção do maestro Raimundo Santos, disco que teve as participações de Kizua Gourgel (violão), Joaquim Moreira (viola baixo), Dalú Roger (percussão) e Teddy Nsingui (guitarra solo). Com lançamento previsto para  Setembro de 2015, Vladmiro Gonga  gravou no Brasil o CD “Massemba jazz” com produção e arranjos do guitarrista brasileiro Max Viana, filho do Djavan, com 10 faixas musicais: “Etchi”, “Influências no Semba”, “Ngingo Yetu”, “Querer o bem” (dar doar), “A valsa da zungueira”, “Massemba jazz”, “Weza”, participação especial de Max Viana, “Ortografia do Semba”, “Saudade sem Idade” e “É só amor”. “Massemba jazz” contou com participação especial de Filipe Mukenga, Carlitos Vieira Dias e do escritor, Manuel Rui Monteiro.

Depoimento

Pop Show, o emblemático guitarrista da banda Afra Sound Star, amigo de Vladmir Gonga, fez o seguinte depoimento, sobre o cantor: “Conheci o Vladmiro Gonga em 2012, na Casa da Música dos isrealitas, em Luanda. Embora acuse alguma influência brasileira na estrutura da sua música,  e na forma de execução da guitarra,  o que é normal, num jovem cantor e compositor aberto ao mundo, nota-se que ele tem um talento natural, visivelmente ligado às raízes da música angolana. Ele  toca bem guitarra e considero um jovem humilde, um aspecto muito importante da sua  personalidade, que vai levá-lo muito longe. No entanto, julgo que ele precisa de espaço, para demonstrar a força do seu  talento pouco conhecido do grande público. Desejo inúmeros sucessos na sua carreira, e tenho fé que ele vai vencer”.

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