Cultura

Katiliana em dueto com Filipe Mukenga

Jomo Fortunato |

De facto, um dos grandes méritos de Katiliana, enquanto intérprete, é a sua notável permeabilidade no tratamento dos vários géneros musicais, num processo plástico de múltiplas flexões vocais, que passa pela relação de intimidade e predilecção pelo gospel, renovação estilística do fado, música clássica, R&B contemporâneo, paixão pelo jazz cantado, bee-bop, domínio dos clássicos da soul music norte-americana, e, sobretudo, pela valorização dos temas do cancioneiro tradicional angolano.

Auditório Pepetela do Instituto Camões albergou na sexta-feira o concerto de Katiliana onde Filipe Mukenga interpretou vários clássicos da sua autoria
Fotografia: Cândido Rocheta |

Proveniente de uma prestigiada genealogia de cantores e compositores angolanos da história da Música Popular Angolana, note-se que é sobrinha de Lourdes Van-Dúnem, Elias diá Kimuezo e Nelson Santos, Katiliana começou a dar os primeiros passos na música e dança, ainda no infantário “Kianzu”, instituição ligada ao Ministério da Agricultura.
Com apenas cinco anos participou, juntamente com a irmã, no histórico projecto “Rádio Piô” da Rádio Nacional de Angola, em que participaram muitos cantores infantis, alguns dos quaistiveram, depois, enormesucesso nas suas carreiras, com destaque para,  Mamborró, Maya Cool, Nila Borja, entre outros. Em 1997, com apenas doze anos, foi viver para Azambuja, vila portuguesa situada no distrito de Lisboa, Portugal, onde permaneceu nove anos, período em que foi desenvolvendo o gosto pela música e exercitando as suas capacidades vocais, através da participação continuada em noites de “karaoke”.
São desta a época a sua participação em vários concursos musicais de televisão em Portugal, o primeiro dos quais, “My fair lady”, em 2003, de Filipe La Féria, Programa “Ídolos” da SIC e “Operação triunfo”, um show de talentos adaptado do formato espanhol “Operación Triunfo”, exibido pela RTP, tendo ficado, na generalidade, entre os seis primeiros finalistas. Filha de Domingos Capinguiça e de Amélia Isabel Batalha Capinguiça, Katiliana de Fátima Batalha Capindiça nasceu em Luanda, no dia 24 de Junho de 1985.

Brasil

Em Março de 2004, Katiliana foi convidada pela cantora brasileira Daniela Mercury para cantar no Carnaval da Bahia, na presença de cinquenta mil pessoas, ocasião em que teve a oportunidade de partilhar o palco com Gilberto Gil, Carlinhos Brown, Caetano Veloso, Gabriel, o Pensador, e teve contactos com o grupo Olodum e Ileaê.
Na Bahia, Katiliana cantou em três dias diferentes no Trio Eléctrico de Daniela Mercury e interpretou o tema, “Swing da Cor”, primeiro sucesso internacional de Daniela Mercury e oitava música mais tocada no Brasil, em 1991, numa versão da cantora americana, Glória Gaynor, tendo sido vivamente aplaudida.

Angola

De regresso a Angola, em 2004, Katiliana participou no primeiro Festival Super Bock Super Rock em Angola e, em 2006, no musical "Le club chemoi", em Lisboa, onde era uma das protagonistas da peça. Katiliana teve várias participações, de 2016 a 2017, em espectáculos com artistas consagrados, da nova geração, tais como Kizua Gourgel, Afrikkanita, Sandra Cordeiro, Anabela Aya, Jacira, Selda e Lípsia. Katiliana foi uma das convidadas de Jerónimo Belo, crítico e promotor musical  de Jazz,  nas comemorações do Dia Internacional de Jazz, celebrado a 30 de Abril, tendo sido acompanhada pela “Sound trip band”, com Dilson Peter, bateria, Benny, piano eléctrico, KD, baixo eléctrico, Larson, guitarra eléctrica, José, sax tenor, e João Oliveira, piano solo.

Formação
Katiliana concluiu os estudos primários e secundários na Escola Vasco da Gama e Ngola Nzinga, respectivamente, dos seis aos doze anos, em Luanda. Na sequência, frequentou a Escola Básica e a “Profitecla, Escola Profissional de Turismo, Azambuja, onde concluiu o curso de Turismo, equivalente ao décimo segundo ano.  Em 2007, partiu para a Inglaterra,onde concluiu a sua licenciatura em Gestão Internacional de Hotelaria e Viagens e em “Jazz advanced vocal popular singing”. Realizou vários concertos em bares, tendo tido a oportunidade de partilhar o palco com a nomeada para Grammys, Corinne Bailey Era, cantora britânica de soul music.

Influências
Katiliana tem nítidas influências da vanguarda da música africana de expressão internacional, concretizada em nomes como, Miriam Makeba, Youssou Ndour, Luck Dube e Monique Seká. Em relação à música angolana tem forte admiração porRui Mingas, Filipe Zau, André Mingas, Filipe Mukenga, Eduardo Paim, Elias diá Kimuezo, Carlos Burity, Lurdes Van-Dúnem, e Nany. O domínio da língua inglesa tem possibilitado a audição frenética da soul music norte americana e do jazz, Arettha Franklin, Gladys Knight, Dionne Warwick, Ella Fitzgerald, Anitta Baker, Nina Simone, Sara Vaughan, Whitney Houston, Chaka Khane Patti Labelle.

Concerto
O concerto, realizado sexta-feira no Camões, denominado “Introdução de um recomeço”, começou com a projecção de um vídeo que retractou vários momentoscronológicos da vida artística de Katiliana, desde dos tempos da Rádio, concursos em Portugal, formação na Inglaterra e Concerto de Jazz, em Luanda. No prospecto informativo do concerto, lemos o seguinte, “Este concerto é um regresso de Katiliana ao Camões, depois do espectáculo de jazz que apresentou neste espaço, no corrente ano, com Afrikkanita, para interpretarem e homenagearem a grande diva do jazz norte-americano, Sarah Vaughan. Katiliana apresentou um repertório híbrido, de temas angolanos e canções conhecidas da música internacional do género, soul-blues de Jill Scott, Oleta Adams, James Brown e Prince à morna de Cabo Verde, recordando Cesária Évora, Relembrou Amália Rodrigues, e evocou Whitney Houston, bem como clássicos do Jazz, interpretando temas de Chick Coreae da Banda Filarmónica de Jazz Latino da Florida, com os temas, “Letitbe”, “Thisman´sworld”, “Povo que lavas no rio”, “Sodadi”, “Beautifulones”, “Geth ere”, “Feeling Orange”, “Spain”, “The greatestloveofall” .Katiliana viajou ainda pelos clássicos da música popular angolana, “Mbirimbirin”, tendo sido acompanhada por Dilson Peter, bateria, Divino Larson, Guitarra, KD, baixo, Bernardino, teclas, e José Somoda no saxofone alto e barítono.
Filipe Mukenga, convidado especial de Katiliana, interpretou “Ndilokewa”, “Humbiumbi”, “Muloji” e “Angola no coração”, os dois últimos temas em dueto, com o público de mãos dadas na última canção.

                                         Cantora Anabela Aya enaltece qualidades vocais de Katiliana

A cantora e compositora Anabela Aya, companheira profissional de Katiliana e uma voz que se vem destacando, com assinalável êxito, na actualidade do universo afro-jazz, prestou o seguinte depoimento sobre o perfil artístico da Katiliana, “Conheci a Katiliana, a pouco menos de um ano, e neste curto espaço de tempo ela juntou-se às musas do meu universo musical. Acreditem que foi amor à primeira vista.
Tenho uma grande afeição pelo seu timbre e postura vocais e considero-a original e única, aliás, uma singularidade que advém do facto de ela dominar os clássicos de jazz e da soul music norte-americana.
A verdade é que a crítica que rodeia o nosso meio musical, considera-a sempre uma das vozes mais estrondosas da actualidade e noto, em cada nota que solta, a poesia de uma interminável viagem. Para além destes aspectos referenciados, ao nível da música, Katiliana possui uma personalidade muito forte que faz transparecer quando está em palco.
O que quero dizer é que, para além de ser uma excelente intérprete, ela possui um coração de ouro, porque é muito educada, gosto muito dela e já a tenho como uma amiga. Por último, quer dizer que o surgimento da Katiliana veio dar mais qualidade e potenciar os valores da nossa música, disso não tenho dúvidas.
Quero que o público saiba que, “Mana Bonita”, é a forma carinhosa como nos tratamos”, desejo que ela tenha uma carreira repleta de sucessos.
Por sua fez, Domingos Capinguiça, pai da cantora e compositora Katiliana, considera a filha, “Uma dádiva divina”.

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