Kizua Gourgel é a voz da trova

Jomo Fortunato |
8 de Agosto, 2016

Fotografia: Mário Lemos

Herdeiro directo da trova angolana de intervenção política, através dos seus pais, Beto Gourgel e Eila Hellevi Lehtinen, Kizua Gourgel ficou conhecido, para além de outros momentos notáveis que marcaram a  sua carreira, pela interpretação de “Negra de carapinha dura”, uma canção do cantor e compositor Alberto Teta Lando.

Três momentos diacrónicos marcaram a formação musical do cantor e compositor, Kizua Gourgel: primeiro foi o convívio musical com os seus pais na infância, depois a integração nos “Patinhos”, grupo infantil da Professora Rosa Roque, antecâmara à formação das “Gingas do Maculusso”, onde permaneceu dos cinco aos vinte e dois anos de idade, e, por último, a entrega pessoal na pesquisa e aprendizagem do violão, por um processo de autodidactismo.
De facto, Kizua Gourgel começou a vida artística com os pais aos quatro anos de idade, tendo viajado para Portugal, em 1986, onde obteve a primeira guitarra, com a qual compôs a sua primeira canção, “Princesa”, aos 13 anos de idade: “Na época em que vivia no Porto, eu e os meus amigos criámos uma banda sem nome, ocasião em que levei para casa uma guitarra do meu amigo Ricardo, com a qual inventei três notas musicais. Neste processo, criei uma afeição pelo instrumento, e a minha mãe comprou, acto contínuo, uma guitarra. Curiosamente a ideia de compor surgiu de forma instintiva, ou seja, para determinada sonoridade extraída da guitarra, surgiam-me as palavras, espontaneamente. Foi assim que escrevi a minha primeira canção, “Princesa”, que, infelizmente, só me lembro do nome”.
 Kizua Gourgel voltou para Angola, em 1994, e ingressou nas “Gingas do Maculusso”, numa altura em que faziam parte do grupo, Gersy Pegado, Maria João, Josina Stella, Patrícia Faria, Ise e Celma Miguel,  tendo enveredado depois por uma carreira a solo. Kizua Gourgel foi um dos fundadores da Banda “Wanna groove”, com Pedro Nzagi, teclas e voz, Nino Jazz, teclas, Wando Moreira, baixo, e Hélio Cruz, bateria. Enquanto compositor e guitarrista, Kizua Gourgel tem participações em vários projectos discográficos, sobretudo nos géneros musicais com os quais se identifica, e coordena, com Luaty Boavida, o projecto “Jazzmente”, e apresenta o programa “Filhos da pauta” da Rádio Mais, uma rubrica que entrevista personalidades ligadas à música. Filho de Roberto do Amaral Gourgel, Beto Gourgel, conhecido cantor, compositor, humorista e guitarrista, e de Eila Hellevi Lehtinen, Kizua Lehtinem Nazareth Gourgel, Kizua Gourgel, nasceu no dia 9 de Março de 1979.

Influências

Kizua Gourgel reconhece a influência da trova do seu pai, Beto Gorgel, na  formação da sua personalidade musical. No entanto, o cantor, que não estabelece fronteiras rígidas em relação às suas preferências musicais, possui um gosto musical variado, que vai desde Djavan a Man Ré, acusa nítidas influências da música e da guitarra de André Mingas, e tem uma visível paixão pelas bandas “Dire Straits”, Kassav, N'Sex Love, e pelos músicos Miles Davis, Gloria Stefan, Rui Veloso, Juan Luís Guerra, Stevie Wonder, Bob Marley, Caetano Veloso e Totó.

Distinções

Na busca de um espaço de prestígio, Kizua Gourgel participou nos concursos “Trovante 95” da RNA, Rádio Nacional de Angola, em 1999, em duas edições do Festival da Canção da LAC, Luanda Antena Comercial, sagrando-se vencedor na V edição, em 2002, num conjunto de dez finalistas, com a canção “Tetembwa ya mwenhu uami”.  Kizua Gourgel venceu ainda o “Top Rádio Luanda”, Prémio Balada do ano, com a canção “Depois do Fim”, em 2007, “Melhor Trovante - Casa Blanca”e foi uma das atracções do “Festival de Jazz de Luanda”,  em 2011.

 Sentinela

Lançado em Fevereiro de 2014, o vídeo  “Sentinela” deu início à fase  promocional do CD “Kizuismo”. A canção “Sentinela”, sobre um poema de Carlos Ferreira, Cassé, teve a produção do   pianista Mário Garnacho, e  realização de Jorge Palma, com quem filmou o vídeo “Não aguento mais”, rodado em Lisboa, com a participação dos actores Miguel Sermão e Patrícia Cardoso.  Segundo a sinopse divulgada na imprensa,  “Sentinela” exibe vários postais da cidade de Luanda e retracta um fim de dia conturbado, onde a personagem procura espairecer um pouco mas todas as tentativas são em vão.  Só depois de alguns momentos a sós e de honestidade íntima, ele se sente aliviado e regressa a casa, onde aguarda o regresso de quem lhe faz bem”.
Pela dimensão poética e importância da canção “Sentinela” na carreira de Kizua Gourgel, transcrevemos a letra integral: Fechei o livro/tranquei a porta/pintei o quadro de natureza morta/ calei o telefone/ baixei a janela/ lembrei-me de ti/ ó minha sentinela/ ó minha minha sentinela// Fechei o livro/tranquei a porta/pintei o quadro de natureza morta/ calei o telefone/ baixei a janela/ lembrei-me de ti/ ó minha sentinela/ ó minha minha sentinela/ /Voltei para sala/ gritei o teu nome / estava sozinho/ era sede, era fome/ saí para a rua mas não vi ninguém / o choro era meu, o segredo também / olhei para a lua enrolei-me no chão/ Não sabia de mim nem do meu coração/ Acabei junto ao mar / meu rosto molhado/nada de meu/ a não ser o passado/ ó minha minha sentinela/ ó minha minha sentinela/ ó minha minha sentinela/ ó minha minha sentinela..

Jazzmente

Inaugurado no dia 18 de Maio de 2016 pelo cantor e compositor Serpião Tomás, Totó, o projecto “Jazzmente”, promovido pela produtora “MeioTom” acontece no Restaurante “Moments” e tem a coordenação de  Kizua Gourgel e Luaty Boavida. Com uma banda criada para o efeito, já passaram pelo “Jazzmente” os cantores Paulo Matomina, Ndaka Yo Wiñi, e Filipe Mukenga e Gabriel Tchiema.
O projecto “Jazzmente” valoriza vozes e propostas musicais que recaem em nomes como Filipe Mukenga, Coréon Dú,  Sandra Cordeiro,  Africannita, Carlos Lopes, Totó, Gabriel Tchiema, Carlos Nando, exilado na Bélgica, Dodó Miranda, Derito, Irina Vasconcelos, Wyza, Hélder Mendes, Ndaka Yo Wiñi, Gari Sinedima, Toty Sa’Med, e Anabela Aya, cantores e compositores que, pelo culto da qualidade, estão fora dos contextos musicais de consumo imediato.

Discografia

Em 2007 lançou o seu primeiro single, “Tetembwa”, com participação da cantora Yola Semedo no tema, “ Depois do Fim”, do qual transcrevemos alguns versos: Oi vim buscar as minhas coisas/Está tudo arrumado é só levar/Olha eu sei que terminamos o nosso romance mas sei lá podemos ser bons amigos/ como sempre fomos afinal tivemos uma relação tão forte/ Para quê?/ Pensa/ Eu ainda te amo e sei que vou sofrer sempre que te vir e sem te puder tocar. Vai deixa-me em paz, só quero te esquecer/ Escuta/ Eu nem posso crer que chegou ao fim/ O que será de mim em relação a ti/ Será que vamos cumprir com as promessas que fizemos de ser amigos/ eternos/Eu não sei não/ Será que não dá para parar e pensar que assim não vai dar/ Baby é preciso mudar/ Porque amizade o nosso amor vai homenagear…
O seu próximo álbum, “Kizuismo”, a ser lançado brevemente, terá doze faixas de temas originais, seis dos quais já foram divulgados nas rádios.

Depoimento

Loaty Boavida, amigo e parceiro de Kizua Gourgel na rádio e no Projecto “Jazzmente”, fez o seguinte depoimento sobre o cantor: “Conheci o Kizua em 2004, quando me juntei ao Ruca Fançony no Projecto da produtora e editora, Kriativa, que possui um estúdio, onde ele acorreu para fazer as gravações do seu primeiro single.Tivemos um primeiro contacto profissional, mas logo a partir daí ficamos, inexplicavelmente, muito chegados. Atraiu-me, além da sua forma de estar muito semelhante à minha, ou seja, uma mistura de profissionalismo, sociabilidade e camaradagem, e daí, se calhar, o inexplicável, embora já explicado, a sua música, voz, melodia,forma de execução da guitarra e composição. Tive logo a impressão de que ouvíamos as mesmas músicas e que tínhamos as mesmas influências, facto que comprovámos nesse mesmo dia, em conversa. Viemos também depois a descobrir que, afinal, brincámos muitas vezes quando pequenos, pois os nossos pais moravam no mesmo prédio no Kinaxixe. O Kizua, como pessoa, é o que posso chamar um verdadeiro “camarada”. Um amigo brutalmente honesto e sincero nos bons e maus momentos. Criámos a “Meio-Tom”, uma empresa totalmente dedicada à música, um programa de rádio e um evento, o “Jazzmente!”. É gratificante ter como sócio e meu melhor amigo, uma pessoa de carácter, com quem partilho os mesmos gostos e opiniões”.

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