Lenda da guitarra revisitou clássicos

Jomo Fortunato |
11 de Janeiro, 2016

Fotografia: Cláudia Veiga

Espaço de valorização cultural e de propostas experimentais, o palco do Palácio de Ferro acolheu, sexta-feira última, o cantor e guitarrista, Carlitos Vieira Dias, no âmbito do programa de concertos da III Trienal de Luanda da Fundação Sindika Dokolo, e dividiu o palco com a Banda Next, formação jovem que funde música angolana, segmentos do rock, e referências da soul music norte americana.

A programação de concertos da III Trienal de Luanda, realizados no palco do Palácio de Ferro, pretende enaltecer a qualidade artística dos cantores, compositores e instrumentistas angolanos, valorizando um segmento musical reflexivo e experimental, que, normalmente, está distante do grande sucesso comercial da música de consumo imediato.
Depois de ter sido um dos convidados da série de entrevistas, em vídeo, do projecto, “Arte e história, arquivos culturais” da III Trienal de Luanda, Carlitos Vieira Dias foi a principal figura do último concerto, depois dos “Afra Sound Star”, e foi acompanhado por Nanutu, saxofone soprano, e Dalú Roger, percussão, e revisitou temas do seu único disco, “As vozes de um canto” (2006), e canções referenciais da Música Popular Angolana.
O projecto “Arte e história, arquivos culturais” da III Trienal de Luanda, consiste na realização e produção de entrevistas em vídeo e áudio, de 60 minutos, 30 minutos e 15 minutos com o objectivo de constituir uma base de dados do pensamento contemporâneo angolano e africano. Estes arquivos servirão de base para os conteúdos dos projectos de comunicação da III Trienal de Luanda”.
A III Trienal de Luanda, que arrancou no dia 1 de Novembro de 2015, e vai até 30 de Novembro de 2016, está dividida em artes visuais, com exposições de arte clássica e contemporânea, comunicação que prevê a edição de jornais, revistas, catálogos, edições e reedições de títulos bibliográficos fundamentais para a compreensão da história literária e cultural angolana. O projecto da III Trienal de Luanda inclui ainda programas de rádio e televisão, fóruns, que inclui um extenso ciclo de conferências, sessões de teatro, concertos, e programas de educação, que prevêem visitas de estudantes de diferentes níveis de ensino, nos espaços da III Trienal de Luanda.

 Sonoridades

Colado às harmonias e ao fraseado dissonante, característico do jazz, Carlitos Vieira Dias introduziu novas sonoridades à estrutura tradicional de execução do semba que, até então, nunca se emancipara dos acordes naturais, tendo personalizado um estilo que facilmente o identifica, na linha de continuidade e modernização da estrutura rítmica da Massemba. Intérprete, guitarrista e potencialmente criativo, ao nível dos arranjos musicais, Carlitos Vieira Dias teve o privilégio de assistir com frequência, os ensaios do “Ngola Ritmos”, e ouvia o seu pai, o emblemático, Liceu Vieira Dias, nas ocasiões que sentava ao piano. 

Concerto

Optando por economia de meios, sax soprano, com Nanutu, e a percusssão de Dalú Roger, Carlitos Vieira Dias, guitarra semi-acústica, demonstrou a sua  virtuosidade, enquanto intérprete e conhecedor do passado musical angolano, num concerto de elevada qualidade artística, e de persuasão, acabando por constituir uma homenagem ao seu pai, Liceu Vieira Dias.  No concerto Carlitos Vieira Dias   interpretou canções do seu disco, “As vozes de um canto”: “Muxima”, “Marçalina”, “Palamé”, “Nzambi”, “Kangrima” “Birin-birin”,  “Lemba”, “Colonial”, “Clube Marítimo Africano”, “Passo do sangazuza”,  e “Mukajame”, muitas das quais interpretadas pelo Ngola Ritmos.

História

Herdeiro das experiências rítmicas do conjunto Ngola Ritmos, e das guitarras de Liceu Vieira Dias, Nino Ndongo e José Maria, Carlitos Vieira Dias atravessou, dos anos sessenta até à actualidade, os momentos mais importantes da história da Música Popular Angolana, e apareceu em palco pela primeira vez, em 1966, com o grupo “Angolanos do Ritmo”, formação que integrava o seu primo, Aguinaldo Vieira Dias, que o levou depois para o conjunto os “Gingas”, do carismático Duia, do qual recorda um espectáculo realizado, ainda nos anos sessenta, no Ngola Cine. Carlitos Vieira Dias recordou que o seu avô paterno, José Vieira Dias, tocava concertina e piano, factor que contribuiu, por herança genealógica, para a formação da sua personalidade musical.
Filho de Carlos Aniceto Vieira Dias e de Altina Malheiros José Carlos, Carlitos Vieira Dias nasceu no dia 17 de Novembro de 1949, em Luanda, e ajudou a fundar os mais emblemáticos agrupamentos musicais angolanos, exceptuando os Águias-reais, Jovens do Prenda e Kissanguela.

Conjuntos

Ao longo da sua carreira, Carlitos Vieira Dias passou pelos seguintes conjuntos musicais: “Pérola” (1959-1960), formação que integrava o Octávio, a Garda e a Alba Clington, “Gingas” (1966), “Negoleiros do Ritmo” (1967), “Kiezos” (1968), “África Show” (1969) e “Merengues” (1974), e ajudou ainda a fundar  “Semba Tropical” (1985), Banda Maravilha (1993) e a Banda Xangola (1996), uma formação que se exibia, fundamentalmente,  em recintos fechados, com Nando Tambarino (trompete), Sabalo (trombone), Louro (guitarra), Juca (bateria), Manú (voz e tumbas), Eliseu (baixo), e Rufino Cipriano (teclas).  Carlitos Vieira Dias pertenceu a uma época em que eclodiam, em Luanda, e um pouco por todo o país, as bandas de rock. Era o tempo dos “Electrónicos”, do Zézinho de Andrade e Vun-Vun, “Os Rock's”, do Eduardo do Nascimento e irmãos Saraiva, e “Os Jovens” do Mário Bento e Tino Catela. A este movimento, designados conjuntos de “música moderna”, Carlitos Vieira Dias teve sempre uma distância prudente, porque tinha a consciência e a percepção da força dos ritmos angolanos. Era a adopção de uma filosofia estética, assente na valorização e estilização dos padrões rítmicos da angolanidade.

Influências


Sobre as suas influências musicais, Carlitos Vieira Dias disse o seguinte: “Quando eu era jovem ouvia Baden Powell, Luís Bonfá e Ataúlfo Alves, e, obviamente, música congolesa. No entanto, o meu pai extraía do piano e da guitarra sons de uma grande diversidade estilística. Sinto que tenho uma forte influência do meu pai na forma como toco, embora tenha incorporado algumas sonoridades de ouvido, ou seja, não tive lições directas dele. Eu ouvia-o, atentamente, enquanto executava e quando ele chegou do Tarrafal eu já sabia tocar. O Mário Fernandes, dos Negoleiros do Ritmo, foi meu vizinho, e aprendemos a tocar sozinhos, lembro-me que dividíamos uma única guitarra”.

Banda

A Banda Next, fundada em 2006,  dividiu o palco com Carlitos Vieira Dias, na segunda parte do concerto da III Trienal de Luanda. Nuno Mingas, principal vocalista, da Banda Next definiu nos seguintes termos o primado estético do grupo: “ A nossa música é uma fusão e carrega consigo uma sustentação teórica, assente no  diálogo  e valorização dos clássicos da música angolana, com segmentos do rock e da generalidade dos sucessos da música ocidental”. Num concerto inédito,  pela sua estrutura e conceptualização estética, a  Banda Next apresentou-se com  Nuno Mingas, vocal, arranjos, e composição, Ivo Mingas, viola ritmo, Marabú, baixo eléctrico, Dilson Groove, bateria, Cloves Estevão, guitarra solo, e o isrealita, Guiora, no saxofone alto.

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