Lendário baixista dos

Jomo Fortunato|
9 de Fevereiro, 2015

Fotografia: DR

Colado às harmonias e ao fraseado dissonante, característico do jazz, Carlitos Vieira Dias introduziu novas sonoridades à estrutura tradicional de execução do semba que, até então, nunca se emancipara dos acordes naturais, tendo personalizado um estilo que  facilmente o identifica, na linha de continuidade e modernização da estrutura rítmica da Massemba.

Carlitos Vieira Dias aparece em palco pela primeira vez, em 1966, com o grupo “Angolanos do ritmo”, formação que integrava o seu primo, Aguinaldo Vieira Dias, que o leva depois para o conjunto os “Gingas”, do carismático Duia, do qual recorda um espectáculo realizado, ainda nos anos sessenta, no Ngola Cine.
Intérprete, guitarrista e potencialmente criativo, ao nível dos arranjos musicais, Carlitos Vieira Dias teve o privilégio de assistir com frequência, os ensaios do “Ngola Ritmos”, e ouvia o seu pai, o emblemático, Liceu Vieira Dias, nas ocasiões que sentava ao piano.  Carlitos Vieira Dias recordou que o seu avô paterno, José Vieira Dias, tocava concertina e piano, factor que contribuiu, por herança genealógica, para a formação da sua personalidade musical.
Herdeiro das experiências rítmicas do conjunto Ngola Ritmos, e das guitarras de Liceu Vieira Dias, Nino Ndongo e José Maria, Carlitos Vieira Dias atravessou, dos anos sessenta até à actualidade, os momentos mais importantes da história da Música Popular Angolana
Filho de Carlos Aniceto Vieira Dias e de Altina Malheiros José Carlos, Carlitos Vieira Dias nasceu no dia 17 de Novembro de 1949, em Luanda, e ajudou a fundar os mais paradigmáticos agrupamentos musicais angolanos, exceptuando os “Águias Reais”, Jovens do Prenda e Kissanguela, e aponta o nome de grandes figuras da música que, ao longo dos anos sessenta, impulsionaram a intelectualidade musical angolana: “Sou da época do Eleutério Sanches, Tonito, Sara Chaves, Lilly Tchiumba, Garda e seu conjunto, Alberto Teta Lando, Rui Mingas, Vun-Vun e Alba Clington”.
Carlitos Vieira Dias pertenceu ao conjunto os “Pérolas” (1959-60), formação que integrava o Octávio, a Garda e a Alba Clington. Passou pelos “Gingas” (1966), já referenciado, “Negoleiros do ritmo” (1967), os “Kiezos” (1968), “África Show”  (1969)  e “Merengues” (1974). Guitarrista de grande versatilidade e notável criatividade, Carlitos Vieira Dias ajudou ainda a fundar o agrupamento musical Semba Tropical (1985), Banda Maravilha (1993) e a Banda Xangola (1996), uma formação que se exibia, fundamentalmente, em recintos fechados, com Nando Tambarino (trompete), Sabalo (trombone), Louro (guitarra), Juca (bateria), Manú (voz e tumbas), Eliseu (baixo), e Rufino Cipriano (teclas). 
O desterro de Liceu Vieira Dias para o Tarrafal, em Cabo Verde, por razões políticas, inibiu a possibilidade de um contacto mais frequente com o pai. Quando este retorna, após o período de reclusão, Carlitos Vieira Dias começou a ter noção, de facto, das linhas estéticas que definiam o estilo do \"Ngola Ritmos\", descobrindo nítidas diferenças em relação aos instrumentistas da época. Para além da integração no “África Show”, Carlitos Vieira Dias chegou a formar um grupo, inexpressivo, com Alberto Teta Lando, na harmónica, conviveu intensamente com Jajão, dos “Negoleiros do Ritmo”, e com a sonoridade do guitarrista Duia, figura emblemática dos “Gingas”, e pai da guitarra angolana.
Carlitos Vieira Dias  integrou os “Negoleiros do Ritmo”, convidado por Mário Fernandes. Na sequência, e  com o objectivo de melhorar a prendizagem da guitarra  adquiriu um manual de “violão sem mestre”, enveredando pela via do autodidactismo. “Por incrível que pareça nós, eu e o Mário Fernandes, aprendemos, naquela altura, a fazer as notas, contudo, desconhecíamos os seus nomes, foi o Pitoko que nos ensinou, isto é Fá aquilo é Lá”.
Carlitos Vieira Dias pertenceu a uma época em que eclodiam, em Luanda, e um pouco por todo o país, as bandas de rock. Era o tempo dos “Electrónicos”, do Zézinho de Andrade e Vun-Vun, Os Rock\'s”, do Eduardo do Nascimento e  irmãos Saraiva, e “Os Jovens” do Mário Bento e Tino Catela. A este movimento, designados conjuntos de “música moderna”, Carlitos Vieira Dias teve sempre uma distância prudente, porque tinha a consciência e a percepção da força dos ritmos angolanos. Era a adopção de uma filosofia estética, assente na valorização e estilização dos padrões da rítmica angolana.
No quadro da integração de Carlitos Vieira Dias no “África Show”, de 1969 a 1971, encontrou-se com Alberto Teta Lando, constituindo um dos períodos mais criativos do guitarrista. Deste encontro, uma das fases mais belas e prolíferas de Alberto Teta Lando, resultou a gravação da canção “kimbemba”, “Luvuamu”, entre outros temas, e o registo, mais tarde, do álbum “Independência” ,  de Alberto Teta lando, com Carlitos Vieira Dias, integrado nos “Merengues”.

Influências

Sobre as suas influências musicais, Carlitos Vieira Dias fez o seguinte depoimento: \"Quando eu era jovem ouvia, Baden Powell, Luís Bonfá e Ataúlfo Alves, e, obviamente, música congolesa. No entanto, o meu pai extraía do piano e da guitarra sons de uma grande diversidade estilística. Sinto que tenho uma forte influência dele na forma como toco, embora tenha incorporado algumas sonoridades de ouvido, ou seja, não tive lições directas do meu pai. Eu ouvia-o, atentamente, enquanto executava e quando ele chegou do Tarrafal eu já sabia tocar. O Mário Fernandes, dos Negoleiros do Ritmo, foi meu vizinho, e aprendemos a tocar sozinhos, lembro-me que dividíamos uma única guitarra”.

Merengues


Carlitos Vieira Dias fundou e fez parte da primeira formação dos “Merengues”, grupo musical ligado à C.D.A., Companhia de Discos de Angola, como baixista e supervisor musical. Os  \"Merengues\" surgiram após a crise que se instaurou com o 25 de Abril de 1974. O fenómeno atingiu proporções tais que os grupos foram-se desfazendo, muitos por razões de índole política, os concertos escasseavam e os estúdios  de gravação foram encerrando. A editora Valentim de Carvalho, em Luanda, e a FADIANG, no Bié, foram os casos mais conhecidos. Com os espaços de gravação reduzidos, o Director da Valentim de Carvalho, Fernando Morais, convidou, o cantor e compositor, Alberto Teta Lando e Carlitos Vieira Dias, para uma reunião, e disse: “É urgente salvar a situação”. Carlitos Vieira Dias passou então a dirigir os estúdios de gravação da Valentim de Carvalho, facto que durou muito pouco tempo. Fernando Morais ficou por Angola, no dealbar da independência, e decidiu criar a C.D.A. com o radialista Sebastião Coelho.
A primeira formação dos “Merengues” era constituída por: Gregório Mulato (bongós e voz), Vate Costa (dikanza e voz), Zeca Tirylene (guitarra ritmo), Joãzinho Morgado (tambores) e Zé Keno (viola solo) o grupo apareceu pela primeira vez em público, no Huambo, no dia 31 de Dezembro de 1974 por ocasião do aniversário da Casa Nova York, convidados pelo velho Roque. A partir desta data, começaram os trabalhos fora do estúdio. Ao longo da sua curta, mas notável existência, passaram pelos “Merengues”: Webba (teclas), o moçambicano Samora (bateria), Nando Tambarino (trompete), Tony Henriques e Dinho (bateria), Tony Almeida (trombonista), Romeu (saxofone), Betinho Feijó (guitarra ritmo), Moreira Filho (baixo) e Rufino Cipriano (teclas).

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