Cultura

Madrinha do Samba morre no Rio aos 72 anos

O corpo da cantora e compositora Beth Carvalho – conhecida como a Madrinha do Samba e um dos maiores nomes da história do género – foi cremado ontem no Cemitério do Caju, na Zona Norte, depois de um cortejo em carro do corpo de Bombeiros desde a sede do Botafogo de Futebol e Regatas, na Zona Sul do Rio.

Fotografia: DR

A artista Beth Carvalho, conhecida como a Madrinha do Samba, morreu no Rio, nesta terça-feira , aos 72 anos.
Estava internada no Hospital Pró-Cardíaco, em Botafogo, Zona Sul da cidade, desde o início de 2019. A causa da morte foi infecção generalizada, informou o hospital, em comunicado.
Em nota, o empresário da artista, Afonso Carvalho, disse que ela morreu “cercada de amor por seus familiares e amigos”.
Já fazia bastante tempo que a cantora tinha um problema de coluna. Em 2009, chegou a cancelar a apresentação no show de réveillon, na Praia de Copacabana, por causa de fortes dores. Em 2012, submeteu-se a uma cirurgia à coluna.
No ano seguinte, foi homenageada pela escola de samba Acadêmicos do Tatuapé, no Carnaval de São Paulo, mas não participou do desfile por motivos de saúde. Lu Carvalho, sobrinha de Beth, foi quem representou a artista na ocasião.
Emocionado, o cantor e compositor Dudu Nobre contou que, mesmo com problemas de saúde nos últimos anos, Beth Carvalho lutava para continuar a cantar. Ele relembrou a importância da cantora na sua vida.
“A Beth deixa um legado maravilhoso. Ela descobriu e deu oportunidade a muitas pessoas. Eu, quando conheci a Beth, tinha 4 ou 5 anos. Era amiga de todos os sambistas da década de 1970, 80 para cá”, destacou Dudu Nobre.
As cantoras Zélia Duncan e Teresa Cristina também estavam entre os primeiros que chegaram ao velório.
Teresa contou que o sucesso da obra de Beth se devia à sua capacidade de se actualizar e conhecer as inspirações do povo brasileiro.
“Eu vim agradecer por tudo, todo o olhar sobre a cultura brasileira. Uma pessoa que sabia o gosto do povo. Ela tinha um olhar sobre o que era popular”, destacou Teresa Cristina.
Segundo Teresa, ela conhecia todas as rodas de samba do Rio, além de ser aberta a novos compositores.
As duas lembraram que a cantora nunca temeu expor as suas opiniões políticas e que, além da música, sua firmeza fica como legado.

Show histórico

Em 2018, com a mobilidade cada vez mais reduzida pelos efeitos do problema na coluna, Beth fez um show histórico. Ao lado do grupo Fundo de Quintal, mostrou sua força ao cantar, deitada, seus sucessos no show Beth Carvalho encontra Fundo de Quintal – 40 anos de pé no chão.
Ao longo do seu internamento no início de 2019, Beth teve de reduzir a quantidade de visitas. A informação foi compartilhada por sua filha, Luana, após um vídeo mostrar a cantora debilitada, cantando deitada na cama do hospital.

Vida e obra

Elizabeth Santos Leal de Carvalho nasceu no Rio, em 5 de Maio de 1946. O site oficial da artista informa que o contacto com a música foi incentivado pela família, ainda na infância.
Aos 8 anos, surgiu o gosto pela dança – na mesma época, recebeu dos avós o primeiro violão. Após a prisão do pai, no início da ditadura, em 1964, Beth passou a dar aulas de música.
Beth participou em quase todos os festivais de música da época. Em 1968, conquistou a terceira posição no Festival Internacional da Canção (FIC), justamente com “Andança”. Também gravou composições de Cartola, como “As rosas não falam”, e “Folhas Secas”, de Nelson Cavaquinho.

“Coisinha do pai”
tocada em Marte

A cantora era apaixonada pela Mangueira, sua escola de samba do coração, e pelo bloco Cacique de Ramos, onde conheceu muitos dos seus apadrinhados.
“Beth é inquieta. Não espera que as coisas lhe cheguem, vai mesmo buscar. Pagodeira, ela conhece a fertilidade dos compositores do povo e, mais do que isso, conhece os lugares onde estão, onde vivem, onde cantam, como cantam e como tocam”, descreve a biografia em seu site oficial.
Em 1979, Beth casou-se com o jogador de futebol Edson de Souza Barbosa e, dois anos depois, deu à luz sua única filha, Luana Carvalho.
Em Junho de 2002, recebeu das mãos de Dona Zica, viúva de Cartola, o Troféu Eletrobrás de Música Popular Brasileira, no Teatro Rival do Rio de Janeiro. Seu 26º disco, “Pagode de mesa 2” (2000), concorreu ao Grammy Latino na categoria melhor disco de samba.
Em 2004, ela gravou o primeiro DVD, “Beth Carvalho, a Madrinha do Samba”, que lhe rendeu um DVD de Platina. O CD, que teve lançamento simultâneo ao DVD, recebeu Disco de Ouro e foi também indicado ao Grammy Latino de 2005, na categoria “Melhor Álbum de Samba”.
Beth Carvalho foi homenageada na edição 2009 do Grammy Latino, em Las Vegas. Na ocasião, a cantora foi a primeira sambista a receber um dos reconhecimentos mais importantes da cerimónia, o prémio Lifetime Achievement Awards.

Projecto Kalunga

Beth Carvalho integrou a caravana de 65 artistas, produtores e técnicos brasileiros, com Chico Buarque à cabeça, que, em 1980, saiu do Rio de Janeiro para Angola, onde realizou três espectáculos: em Luanda, Benguela e Lobito.
O “Projecto Kalunga” teve como espírito a afirmação dos laços de amizade, cooperação e irmandade entre os dois povos e países, cinco anos depois de Angola ter conquistado a independência de Portugal.
Além de Beth Carvalho e Chico Buarque, cantaram em Angola, na ocasião, Dorival Caymmi, Martinho da Vila, Djavan, Clara Nunes, Dona Ivone Lara, Edu Lobo, Francis e Olivia Hime, João do Vale, João Nogueira, Elba Ramalho, Alcione, entre outros.
Foi, no dizer de muitos críticos brasileiros da época, uma rara concentração de músicos de fino trato do Brasil de então. Do lado angolano, juntaram-se à festa Felipe Mukenga, Rui Mingas e Waldemar Bastos.
Cantores brasileiros disseram ter saído desta digressão com marcas importantes da sua vida e que o contacto lhes permitiu aproximar-se da origem musical. Djavan foi um deles, que acabou por ir cantando “Umbi umbi” pelo Brasil fora.
Beth Carvalho, Alcione, Ivone Lara, Clara Nunes e Elba Ramalho também levaram marcas de Angola. A música “Morena de Angola”, uma homenagem à mulher Mumwila, é um exemplo.

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