Cultura

Mário Rui Silva e o Ngola Ritmos

Jomo Fortunato|

Considerada arte menor, ou folclore, na acepção pejorativa a que se prestou a leitura truncada de alguns sectores da crítica colonial, a Música Popular Angolana nunca foi objecto de um estudo sistematizado da sua história social, contexto sociológico da sua formação, e percurso biográfico dos seus mais dignos intérpretes, cantores, compositores e instrumentistas.

Enquanto instrumentista e intérprete Mário Rui Silva sempre esteve atento à evolução da história da Música Popular Angolana
Fotografia: JA

Considerada arte menor, ou folclore, na acepção pejorativa a que se prestou a leitura truncada de alguns sectores da crítica colonial, a Música Popular Angolana nunca foi objecto de um estudo sistematizado da sua história social, contexto sociológico da sua formação, e percurso biográfico dos seus mais dignos intérpretes, cantores, compositores e instrumentistas.
A ausência de uma história escrita da Música Popular Angolana, tem preocupado alguns interessados, muito poucos, que, de forma titubeante, vão contribuindo com anotações dispersas, muitas das quais caracterizadas pela reduzida focalização e restrição, na demarcação do objecto de estudo.
Os periódicos da época colonial que abordavam assuntos de natureza artística e musical, referimo-nos às revistas "Noite e Dia", "Semana Ilustrada" e "Notícia", embora constituam importantes fontes de informação e documentação, aludem ocorrências superficiais, de carácter noticioso, incidindo as matérias jornalísticas, em reportagens de pendor sensacionalista e comercial, sobre espectáculos realizados no "Ngola Cine", nas suas sessões do "Dia do Trabalhador" e da "Aguarela angolana", "Maxinde", "Restauração" e nos salões dos musseques de Luanda. Contudo nota-se a ausência de referências à genealogia e à biografia dos artistas, enquanto sujeitos portadores de história.
Os contributos do jornalista Sebastião Coelho no seu livro, "Angola – história e estórias da informação" (1999), as incursões esparsas de Domingos Van-Dúnen, em jornais e revistas da sua época, e, na actualidade, as investigações do músico e estudioso, Mário Rui Silva, revelam uma visível preocupação em arrumar o mapa histórico e onomástico da Música Popular Angolana, e dos protagonistas mais importantes que estiveram expostos à sua formação.

A paixão pela música

Dividido entre Luanda e Paris, cidade europeia onde ensina guitarra e divulga a rítmica africana, Mário Rui Silva nasceu em Luanda, no dia 8 de Março de 1952, e tem participado em festivais internacionais, com recitais de guitarra, construindo um texto musical preocupado com a profundidade temática, o lirismo melódico e a pertinência harmónica dos momentos mais criativos da Música Popular Angolana.
Embora distante de Angola, Mário Rui Silva, enquanto instrumentista e intérprete, sempre esteve atento à evolução da história da Música Popular Angolana, tendo participado na gravação do álbum, "Angola 72", do Barceló de Carvalho, gravado na Holanda, pais onde chegou em 1971.
De regresso a Angola, em 1973, Mário Rui Silva fortifica a amizade com o emblemático Liceu Vieira Dias, homem que se tornou o seu pai espiritual, mestre e figura cultural de referência. Em 1989, Mário Rui Silva foi convidado a participar no CD "Fausto, a preto e branco", como guitarrista, um dos álbuns mais importantes da carreira do cantor português.
Companheiro do cantor e compositor Zeca Afonso, com quem trabalhou no período áureo da canção política portuguesa, Fausto viveu em Angola, na província do Huambo, e transfere, para a música, a sua lusitanidade, satirizando, nas suas canções, o passado histórico do povo português.

Relação com a guitarra

Mário Rui Silva toca kissanji e iniciou a relação com a guitarra, aos 9 anos, impulsionada pela irmã mais nova, que teve o privilégio de receber aulas do pai. Fez parte dos "Jovens", como guitarra solo, formação conhecida na época, formada por crianças, entre os 7 e 11 anos. Em 1968, com 16 anos, intensifica os estudos de guitarra acústica e Lisboa foi a cidade que o acolheu, quando decidiu dar continuidade à carreira académica. As tertúlias e o convívio com jovens entusiastas, na Rua da Paz, em Lisboa, em muito contribuíram para a sua formação e troca de experiências musicais.
Mário Rui Silva é detentor de um apurado talento artesanal facto que o levou a construir a sua própria guitarra – denominada "Ngita Mbinda" – um instrumento que tem a particularidade de possuir uma cabaça, como caixa de ressonância, o que permite reproduzir e extrair, com maior fidelidade e nitidez, a rítmica africana.

 Didáctica e publicações

Preocupado com aspectos de natureza linguística, Mário Rui Silva escreveu uma gramática comparativa de português-kimbundu, invertendo a tendência de desaparecimento das línguas nacionais e dedica-se à fixação escrita dos clássicos da Música Popular Angolana.
Na senda das suas investigações, criou um método prático de aprendizagem do violão e vem documentando a história da Música Popular Angolana, com artigos em vários jornais e revistas, dos quais destacamos os textos: "Ana Maria de Mascarenhas, sem máscara", "Ao som da grafanola", “Milita, o cântico da Borboleta”, “Sara Chaves, as chaves dos seus cantos”, “Um novo canto da       terra” e “Uma música com identidade”, escritos críticos em que o autor faz transparecer o interesse na conservação de importantes momentos do passado musical angolano, reunidos em “Estórias para uma história da Música em Angola”, que pretende publicar com brevidade.
 “O ensino da música”, da autoria de Mário Rui Silva, é um livro com preocupações essencialmente didácticas, que inclui um breve dicionário e um apêndice com uma proposta, inédita, de periodização da Música Popular Angolana, com os seguintes capítulos: Dinâmica musical inter-africana (1482), Contacto com a cultura europeia (1482-1575), A génese da música luandense (1575-1875), A emergência e desenvolvimento de novas formas de expressão musical (1875-1920), Alquimia das mentalidades (1920-1950), Fortalecimento da nova identidade cultural (1950-1974), A liberdade política na forma de expressão musical (1974-1975), Música e mensagem política (1975,1992) e Novas tendências (1992,2003).
“O ensino da música” de Mário Rui Silva veio ocupar um espaço vazio, no domínio da investigação e ensino da música, e lança um repto à necessidade de periodização, conclusiva e arrumada, da história da Música Popular Angolana.

Tempo

Multimédia