Mário Rui Silva o pesquisador

Jomo Fortunato |
5 de Outubro, 2015

Fotografia: DR

Mário Rui Silva acaba de publicar um ensaio para uma gramática comparativa, português-quimbundo, para falantes de língua portuguesa, resultado de uma aturada investigação linguística.

O estudo constituiu um contributo singular à normalização e descrição do kimbundo, enquanto língua nacional, para professores, estudantes e interessados nas línguas africanas.
Na nota introdutória da gramática, Mário Rui Silva esclarece as razões e as principais motivações da sua investigação: “O que se passou é que eu aqui, no meu exílio voluntário, senti muitas saudades da minha terra e as pessoas com quem eu me relacionava mais, eram na sua maioria os meus conterrâneos. No meio desta gente toda, conheci o já falecido, Kapya, músico de origem zairense de expressão linguística múltipla e, entre as várias línguas que ele falava, o kiswahili era uma delas. Em tempos idos, já tinha ouvido citar o kiswahili, como sendo a língua mais falada em África. Com a possibilidade de poder ver o Kapya, quando quisesse, tinha aí uma chance de me iniciar no kiswahili e então comprei um livro. Nas primeiras lições, vi as semelhanças com o kimbundu, e, embora esta língua já tivesse despertado o meu interesse aos 17 anos, em 1969, não conhecia a sua estrutura”.
Diríamos que o “Ensaio de Mário Rui Silva para uma gramática comparativa, português-kimbundu, para falantes de língua portuguesa”, constitui um contributo inegável para o ensino e conhecimento da norma e estrutura de funcionamento do kimbundu, e vem preencher a ausência de títulos bibliográficos sobre a descrição das línguas nacionais.
Em relação à fonética do Kimbundu, um dos capítulos que tem gerado alguma polémica na procura consensual da sua normatividade gráfica, Mario Rui Silva esclarece: “... Em 1990 que tive acesso a uma fotocópia da gramática de kimbundu do Instituto de Línguas Nacionais datada de 1980, onde dei uma particular atenção ao trabalho fonético do qual me servi para fazer algumas correcções. Também os pronomes demonstrativos e possessivos foram submetidos ao mesmo princípio, embora discorde da forma de apresentar o sistema de classes e da inclusão dos locativos na ordem dos prefixos nominais”.

Estrutura


Inspirada nos dicionários de Cordeiro da Matta, Assis Júnior, e nas gramáticas de Chatelain, Celso Cunha e Lindley Cintra, a gramática comparativa possui textos introdutórios do próprio autor, de Muloloki Boaventura, Alberto Correia Neto, Bornito de Sousa Baltazar Diogo, e Mário Luís Pereira, o último dos quais em Kimbundu, traduzido para a língua portuguesa. O conteúdo da gramática inclui os sons em kimbundu, substantivos, conectivos, adjetivos, numerais, tempo, que faz parte calendário, estações do ano e dias da semana, pronomes pessoais, possessivos, demonstrativos, relativos, reflexivos e interrogativos, categorias do verbo, advérbios e locuções adverbiais, advérbios interrogativos, preposições e locativos, conjunções, interjeições, vocabulário de português e kimbundu, e, por último, um guia de conversação. Mário Rui Silva deixou expresso um desejo: ”Espero que este trabalho possa, num futuro próximo, servir para se fazer um outro mais aprofundado, juntamente com a colaboração de um conjunto de pessoas, de muito saber, no âmbito das duas línguas”.

Violão


Em 1993 acabou por construir o seu próprio violão, “Ngita-Mbinda”, que reproduz com maior fidelidade e nitidez os ritmos africanos. A sua particularidade é a cabaça que lhe serve de caixa de ressonância. Presentemente, Mário Rui prossegue as suas pesquisas sobre a música angolana e a transposição dos ritmos africanos para o violão. Elaborou um método de violão que compilou num livro bem como um outro de teoria musical “O Ensino da Música”. Os resultados das suas pesquisas sobre a música angolana estão compilados numa obra intitulada “Estórias para a História da Música em Angola”.

Periodização

No seu livro “O ensino da música” (2003),  uma obra que veio ocupar um espaço vazio, no âmbito da investigação e ensino da música, Mário Rui Silva lança um repto à necessidade de criação de uma periodização consensual da Música Popular Angolana. “O ensino da música” é uma obra com preocupações essencialmente didácticas, inclui um apêndice com a seguinte proposta de periodização: “Dinâmica musical inter-africana” (1482), “Contacto com a cultura europeia” (1482-1575), “A génese da música luandense” (1575-1875), “A emergência e desenvolvimento de novas formas de expressão musical” (1875-1920), “Alquimia das mentalidades” (1920-1950), “Fortalecimento da nova identidade cultural” (1950-1974), “A liberdade política na forma de expressão musical” (1974-1975), “Música e mensagem política” (1975,1992) e “Novas tendências” (1992 e 2003).

Percurso

Mário Rui Silva nasceu no dia 8 de Março de 1952 em Luanda, e iniciou-se no violão, aos nove anos de idade, ajudado pela sua irmã mais nova que beneficiava de aulas particulares dadas pelo pai, grande amante de música. Este tornou-se o “Manager” do grupo musical “Os Jovens” muito em voga em Luanda, em meados dos anos 60. Em 1968, Mário Rui Silva saiu do grupo “Os Jovens” e, sózinho, dedicou-se ao estudo do violão, segundo o método clássico, adaptando-o mais tarde aos ritmos africanos.
Em 1970, Mário Rui Silva partiu para Lisboa com a intenção de prosseguir os seus estudos. A “Rua da paz” em Lisboa tornou-se uma grande Universidade para o cantor, e outros jovens progressistas portugueses oriundos do então Ultramar, todos estudantes em Lisboa à procura do saber e da liberdade interditos nos tempos da ditadura salazarista. O seu gosto e interesse pela música angolana, através da qual se identificava com a sua cultura de origem e reencontrava as suas raízes, e levaram-no a aprofundar as suas pesquisas. Em 1971, Mário Rui Silva partiu para a Holanda onde participou na gravação do disco “Angola 72”, de Bonga.
Em 1973, regressou a Angola e contraiu uma forte amizade com Liceu Vieira Dias, homem de cultura e intelectual de oposição ao colonialismo português. Liceu Vieira Dias tornou-se o seu Mestre e pai espiritual, e Mário Rui Silva dedicou-lhe dez anos de pesquisa que culminaram num trabalho discográfico, o CD sobre a música angolana dos anos 40 “Chants d’Angola pour demain” (Cantos de Angola para Amanhã).
Actualmente, Mário Rui Silva vive entre Paris e Luanda, sua cidade natal. Em Paris, dá concertos a solo e participa em festivais internacionais sobre música africana, incluindo aulas de violão iniciando os seus alunos à rítmica africana.

Discografia

Ao longo da sua carreira, Mário Rui Silva gravou: “As pessoas, o meio e o tempo” (1974,33 rpm), o seu Primeiro álbum, “Sunglay” (1984,33 rpm), “Tunapenda Afrika (1985, rpm), “Koizas dum outru tempu” (1990, 33 rpm) , “Chants d'Angola pour demain” (CD, 1994), “Luanda 50/60 Angola” (CD, 1997), “Cantos de Masemba – Chants de Masemba Luanda 1920/1930” (CD, 1999) e “Luanda 1940, Angola” (CD, 2001), “Acaso” (2013, CD, “A noite dos novos dias” (2207, CD).
 Em 1989, Mário Rui Silva foi convidado a participar no CD “Fausto a preto e branco”, como guitarrista. Mário Rui Silva dedicou 10 anos de séria investigação musical que culminou com a gravação do CD “Chants d'Angola pour demain”, já referenciado, uma obra de capital importância para compreensão de parte substancial da obra de Liceu Vieira Dias e do histórico Ngola Ritmos.

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