Memórias musicais do artista El Belo

Jomo Fortunato|
13 de Outubro, 2014

Fotografia: Paulo Mulaza

A reconhecida importância histórica do   agrupamento “Kissanguela”, enquanto formação musical de intervenção política, surgida no dealbar da independência, valorizou cantores e compositores que, movidos pelo anseio de liberdade,  juntaram-se voluntariamente à causa revolucionária.

El Belo, cantor e compositor, notabilizou-se neste período emblemático da história da Música Popular Angolana, com as canções: “Econguelo”, “MPLA”, “Hoje é dia da revolução” e o clássico “Hoji-ya-Henda”.
A evocação mais remota das memórias musicais de  El Belo, remontam os tempos do emblemático Bairro Indígena, famoso pelas  tertúlias que reuniam: Tizinho Miranda (viola e acordeão), Catarino Bárber (voz e vioão), Voto Neves (viola ritmo), e Vum Vum (voz e viola). Estávamos em 1959, época em que depontavam grupos nacionalistas e organizações culturais, tais  como o Botafogo e “Kimbandas do ritmo”, com figuras que promoviam sessões semanais de alfabetização, com destaque para Geny Mangueira, Albina Assis e Manuel Faria de Assis.
Oriundo de uma família ligada à música , El Belo é irmão do cantor e compositor Santocas, figura de relevo da história da canção política angolana, sobrinho do falecido cantor e compositor, Mamukueno, a sua mãe pertenceu a Cridália, grupo famoso do Carnaval luandense, e a sua avó, Júlia Tutúri, tocava, habilmente, tambor e dikanza.
Filho de Arnaldo Sebastião Vicente e de Maria Antónia Francisco de Assis, Arnaldo Sebastião Vicente Júnior, El-Belo, nasceu no dia  12 Abril de 1949, em Luanda, e começou a sua carreira musical, em 1966, no Lobito, com Silva Martins, entusiasta que promoveu e ajudou a formar o  agrupamento musical “Ngongo”, com Lourenço da Cunha (viola solo),Filomeno (viola baixo), Júnior (caixa), e Augusto Mbumbo (tambores). Nos anos oitenta, El Belo pertenceu ainda ao agrupamento “Ilundo”, com Kituxi (bate bate), Barros de Lândana (tambor), Mano Mingo (puita), Manuel (tambor baixo), que além de Angola, actuou na Índia, Uruguai, Portugal e Inglaterra. Em 1991, El Belo, enquanto chefe de secção do Departamento de Cultura, Desporto e Recreação da UNTA (União Nacional dos Trabalhadores Angolanos), levou o “Semba África”, afecto a esta Central Sindical,   a Bélgica,  grupo musical formado por Massano Júnior (voz e tambores), Raúl Tolingas (dicanza e voz), Teddy Nsingui (viola solo), Dulce Trindade (viola baixo), Nanutu (saxofone), Franco ( saxofone), e Juca (bateria).

Kissanguela

Um dos momentos mais significativos da carreira musical de El Belo foi a sua entrada no agrupamento “Kissanguela”, em 1974, convidado pelo cantor e compositor, Manuel Faria de Assis. Na época, faziam parte do  grupo, Santos Júnior (tambores e voz), Manuel Quental (viola solo), Massangano (viola ritmo), Manuelito (viola baixo), Santos Júnior (tumbas e voz), Artur Adriano (voz) e Mário Silva (voz). No  “Kissanguela” gravou quatro canções de suma importância, no domínio da história da música de intervenção política: “Econguelo”, “MPLA”, “Hoje é dia de Revolução”, e “Hoje-ya-Henda”, uma histórica homenagem a um dos heróis mais emblemáticos da luta de libertação anti-colonial, cuja letra trancrevemos: Hoji, Hoji, Hoji zé ya Henda, Hoji, Hoji, Hoji zé ya henda/ panguiami zé yá kazola/  panguiami zé yá zumbié/ mukonda zé diá kidi ié/ Hoji yá henda uá banguele/ uabana zé muenhu ié/ uabana mainga mé/ Comandante Henda/ Comandante Henda/ Etu tolo ku banza/ Etu tolo ku dila/ Ku muxima yá anangola/ Hoji yá henda ua banguele...  Em relação à importância histórica e a sua passagem pelo “Kisssanguela”, El Belo fez o seguinte depoimento: “O agrupamento “Kissanguela” desempenhou uma enorme influência política e musical na minha vida, foi uma verdadeira escola. Com o “Kissanguela” estivemos próximos do Dr. Agostinho Neto, numa das viajens mais marcantes da minha vida, cujo destino foi a Guiné-Conacry. Na ocasião conhecemos de perto: Fidel Castro, Amílcar Cabral e Sekou Touré”.

Discografia


El Belo surgiu no mercado discográfico, em 1970, ainda no tempo colonial, com dois singles: o primeiro  “Mamã kudikole ngó” (mãe não grita), e o segundo,  “Homem negro”, que incluiu a canção “Tutúri ka zuele” (Tutúri não fala), gravado em 1973, um tema de homenagem à sua avó. O primeiro CD de El Belo, “Doce de coco”, surgiu no mercado em Agosto de 2012, com as canções, “Menina Bonita”, em parceria com Gui Carlos, “Nzambi Yame”, “Doce de coco”, canção que dá título ao CD,  “Covimbu yetu”,  Infinito Céu, “Papa ni mama, “Nzambi yami – Kidi, “Ngakusolo”, Titina, “Walonda Komunda”, um tema de parceria com o compositor, Lourenço da Cunha. “Doce de coco” teve a produção artística de Miqueias Ramiro (teclas), Dulce Trindade (viola baixo) e Boto Trindade (viola solo e ritmo), e dos instrumentistas: Hugo Macedo (teclas), Pedrito (viola baixo), Pedro Ngiepi (trompete), Raúl Tolingas (dikanza), João Morgado (tambores), Izaú (viola solo), Zé Mueleputo (viola solo e ritmo), Dinho (baterista), Abana Mayor (congas e dikanza), Carlos Vaz (bateria), e os coros de Claudete Tchizungo, Denise Trindade e Fausto Fonseca.

Homenagem

O agrupamento “Kissanguela”, de El Belo, foi homenageado no dia 4 de Abril de 2010, no âmbito do programa “Muzongué da tradição”, realizado no Centro Cultural e Recreativo Kilamba, em Luanda, com a participação especial da Banda Maravilha e dos cantores e compositores Joy Artur, Lulas da Paixão e Prado Paim.  Na ocasião foram interpretadas as canções:  “Twa ana Ngola” e “Twa kwá Divua”, pela Fató, emblemática voz feminina do “Kissanguela”, e as canções,  “Estrangeiro” e “Madalena”, foram interpretadas por Santos Júnior. Por sua vez, Prado Paim interpretou os temas “Gienda” e “Bartolomeu”. O “Kissanguela” exibiu-se ainda na última edição do programa Caldo do Poeira, no dia 17 Dezembro de 2006, no mesmo local. Na ocasião foram interpretadas as canções: “Eu vou fazer um poema”, “Twa anangola”, interpretadas por Mário Silva, “Estrangeiro” e “Atu Mungila", na voz de Santos Júnior. Por sua vez a canção,  “Avante o poder popular”, um clássico da história da canção revolucionária, esteve assegurada pela voz de Calabeto. Na ocasião os cantores e compositores, Avôzinho, José Agostinho, José Varela e o declamador, Giza, receberam diplomas de mérito, a título póstumo, pelo importância histórica do conjunto das suas obras.

capa do dia

Get Adobe Flash player




ARTIGOS

MULTIMÉDIA