Cultura

Mestre Kituxi homenageado no Palácio de Ferro

Jomo Fortunato |

Miguel Francisco dos Santos Rodolfo, Kituxi, foi homenageado, sexta-feira última, no Palácio de Ferro, com um concerto de música tradicional do grupo homónimo, que encerrou o primeiro ciclo de homenagens da III Trienal de Luanda, um projecto da Fundação Sindika Dokolo.

Considerado um das maiores referências da Música Tradicional Angolana Kituxi encerrou o primeiro ciclo de homenagens da Trienal de Luanda
Fotografia: Cláudio Tambue | Trienal de Luanda

Considerado um das maiores referências da Música Tradicional Angolana, Miguel Francisco dos Santos Rodolfo, Kituxi, encerrou o primeiro ciclo de homenagens da III Trienal de Luanda, um projecto que tem como principal objectivo a valorização da história da Música Popular Angolana através do enaltecimento do contributo dos seus protagonistas, e que já levou ao palco do Palácio de Ferro, Marito Arcanjo do conjunto os “Kiezos”, José Keno, o mais emblemático guitarrista dos Jovens do Prenda, Xabanú, consagrado compositor, Matadidi Mário Bwana Kitoko, proeminente figura do “Período do retorno” e fundador do conjunto Inter-Palanca, Joãozinho Morgado, ícone emblemático da percussão angolana, e Botto Trindade, um dos mais carismáticos guitarristas angolanos que pertenceu ao conjunto os “Bongos” de Benguela.
A Música Popular Angolana, entenda-se, a que se desenvolve nas cidades, tem a sua origem mais remota na música tradicional, e, mais próxima, nas turmas de carnaval. De facto, há um segmento musical que se configura no espaço rural, do qual o grupo Kituxi fazem parte, ritualizada por diversas práticas e costumes, e está dimensionada num quadro antropológico e cultural, muito específicos. A música tradicional influenciou o desenvolvimento da Música Popular Angolana, actualizada no espaço urbano, pela lenta absorção das técnicas de execução dos instrumentos musicais ocidentais, e por processos de estilização. Foi neste quadro que a Música Popular Angolana ganhou forma, e adquiriu a feição estrutural que hoje se conhece. 
A música popular tem sempre um ou vários compositores individualizados, claramente identificados e, regra geral, foge da bitonalidade, através de um desdobramento de múltiplos acordes musicais, socorrendo-se, quase sempre, da contribuição da música popular de outros países, constituindo uma música mais propensa a influências. Inversamente, a música tradicional, caracteriza-se, essencialmente, pela bitonalidade e o anonimato na composição, ou seja, a noção de autoria e propriedade intelectual é anulada pelo tempo, sendo as peças musicais aceites, de forma pacífica, como produções colectivas no interior das comunidades.

Percurso


Filho de João Francisco Rodolfo e de Maria Justino Dias dos Santos, Manuel Francisco dos Santos Rodolfo, Kituxi, nasceu em Luanda, no bairro Marçal, no dia 4 de Junho de 1940. Figura emblemática do cenário cultural luandense, Kituxi começou a sua carreira artística no princípio dos anos cinquenta, com participações em grupos emblemáticos: “Feitiço Negro”, “Fogo Negro” e o Conjunto Músico Teatral “Ngongo”, grupos de grande prestígio, nos quais Kituxi teve participação activa. No entanto, só em 1975,  decide enveredar por uma carreira a solo.
Criado no dia 13 de Maio de 1980, o grupo “Kituxi e seus acompanhantes”, designação antes da saída do Kituxi, tem-se revelado uma das mais importantes formações musicais que tem preservado, pela interpretação e pesquisa, o espólio do cancioneiro da música tradicional da região de Luanda. O grupo foi formado depois doKituxi ter participado no Festival Internacional de Expressão Ibérica, em 1980, inicialmente com Francisco Vicente, também conhecido por Chico Açucareiro. Francisco Vicente entrou no grupo a tocar “mukindu”, um instrumento feito de bambú, também conhecido por bate-bate, do qual se extrai o som pelo choque, repetido, de um pedaço de madeira de maior resistência. Manuel, Adãozinho  e, por último, Raúl Fernandes da Fonseca, RaúlTolingas, passaram pela dikanza do grupo “Kituxi e seus acompanhantes”, grupo a que se juntaram depois, Inocêncio Manuel Gonçalves, ngoma, António Domingos de Oliveira, percussão, e Gregório Mulato, bate-bate.

Tipologia

Os instrumentos musicais de Angola integram e ultrapassam a divisão clássica de instrumentos tradicionais. Na classificação tipológica dos instrumentos tradicionais angolanos encontramos, tal como em muitos países, os aerofones, instrumentos em que o ar, accionado de modo especial pelo próprio instrumento, é o elemento vibratório. Os cordofones são instrumentos em que vibram a corda ou cordas esticadas. Um exemplo de cordofone é o hungu, instrumento monocórdico usado pelo grupo Kituxi e seus acompanhantes, executado pelo próprio Kituxi. Pertencem à classe dos idiofones, os instrumentos em que o elemento vibratório é o próprio corpo do instrumento, e, por último, os membrafones, instrumentos em que o elemento vibratório é uma membrana esticada, o tambor africano e a ngoma angolana são exemplos clássicos de membrafones.

Ngoma


A ngoma, outro instrumento utilizado pelo grupo Kituxi, teve uma função de suma importância ao longo da história, e na origem da Música Popular Angolana. A ngoma, espécie de tambor cilíndrico ou de formato cónico, revestido com pele, preferencialmente de cabra, numa ou nas duas faces, é o instrumento do Amadeu Amorim, a célebre figura nacionalista do conjunto Ngola Ritmos.

Dikanza


Com forte presença no grupo Kituxi, a dikanza, executada de forma sábia por Raúl Tolingas, é um instrumento nobre de acompanhamento que, segundo José Oliveira de Fontes Pereira, dialoga, ritmicamente, com a concertina, viola, “kibabelo” e percussão. José Oliveira de Fontes Pereirainsurge-se contra os que designam a dikanza de reco-reco, uma onomatopeia que associa o som do instrumento, quando friccionado pelo“kixikilu”, vara rítmica de fricção. “Ó hihi a i xanadikanza” é uma frase de Maria Martins Dias dos Santos, Mutúri Marica, mãe de José Oliveira de Fontes Pereira e do Fontinhas do Ngola Ritmos, ambos falecidos, pronunciada em 1947. Segundo José Oliveira de Fontes Pereira, que além de executante foi um exímio construtor de “dicanzas”, existe um modelo construtivo, assente em dezoito passos, para se obter uma perfeita “dicanza”, o verdadeiro nome do reco-reco.

Hungu

O grupo Kituxi utiliza ainda o hungu, instrumento monocórdico com formato de arco e flecha, com uma corda presa nos dois extremos do arco, com uma cabaça que serve de caixa-de-ressonância. O “kissanji” e a puíta, são instrumentos presentes no grupo, o último dos quais é constituído por uma caixa cilíndrica, com pele numa das faces, cujo som se obtém, por fricção, com os dedos húmidos num caniço colocado no interior da referida caixa.

Discografia


A discografia do grupo Kituxireúne temas referenciais do cancioneiro tradicional da região de Luanda. O CD “Nguitambule”, 1984, inicia a produção discográfica do grupo com os temas “NguiTambule”, título do CD, “Zá mundele”, “Ngananzambi”, “Nguindudiáhenda”, “Wazanga”, “Tata, Divuadiánguitula”, “Maniku”, “Kuieku” e kuángonha”. O CD “Dingongenu”, surgiu em 2001, com os temas, “Dingongenu”, que dá título ao CD,  “Vale-Vale”, “Ulumba”, “Ngitabule”, “Damas do Pipa”, “Mbala-Mbala”, “Dingongenu da Mona”, “Palasa” e “Mu-Ilumba. Em 2009 surgiu o CD kufikissa, com  produção de Paulo Flores, e inclui os temas, “Amba”, “Batucada”, “Dizumino”, “Henda”, “Ilha do Cabo”, “Karipande”, “Kitandakiá São Paulo”, “Koka”, “La negra Tomasa”, “Minga” e “Santa Maria”, numa notável experiência de fusão e inclusão de instrumentos modernos na estrutura da musicalidade tradicional.“KeneKimoxi”, lançado no mercado em 2016, é o mais recente CD do grupo.

Concerto

No concerto de homenagem subiram ao palco, para além do Kituxi que teve uma intervenção simbólica com breves acordes de hungu,  Inó Gonçalves, tambor solo, Zé Fininho, dikanza, Raúl Tolingas, tambor baixo, Nando Francisco, “mukindu”, e Jorge Mulumba, voz principal, hungu e puíta. O grupo interpretou as canções, “Santa Maria”, em seguida uma peça de dança, denominada “OtchóTcholo”, “Minga”, outra peça de dança, “Nzalamundele”, “Vale vale”, “Amba”, “Tateto”, com dança, “Kuieku”, “Nzala”, “Kiamukamba”, “Muangonho”, “Kitandakiá São Paulo”, dança, “Xikela”, “Dingonguenudiá mona”, “Ula upe”, “Mui Lumba”, dança, e “Nguitabulé”.

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