Cultura

Modelo construtivo da dikanza segundo José de Fontes Pereira

Nobre, segundo José Oliveira de Fontes Pereira, a dikanza é um instrumento de acompanhamento que se acasala ritmicamente com a concertina, a viola, o kibabelo e o batuque.

José Fontes Pereira insurge-se contra os que teimam em designar reco-reco à dikanza
Fotografia: DR

Nobre, segundo José Oliveira de Fontes Pereira, a dikanza é um instrumento de acompanhamento que se acasala ritmicamente com a concertina, a viola, o kibabelo e o batuque.
José Oliveira de Fontes Pereira insurge-se contra os que teimam em designar reco-reco à dikanza. Reco-reco é uma onomatopéia que associa o som do instrumento quando friccionado pelo kixikilu (vara de fricção). O verdadeiro nome é dikanza. “Ó hihi a i xana dikanza” é uma frase de Maria Martins Dias dos Santos (Mutúri Marica), mãe de José Oliveira de Fontes Pereira, pronunciada em 1947.
Para além de executante, José Oliveira de Fontes Pereira é um exímio construtor de dikanzas e propõe um modelo construtivo, assente em 18 passos, para se obter uma perfeita “dikanza”: no primeiro passo, deve-se cortar o bordão no tamanho desejado, e daí obtém-se a altura. No segundo, quebram-se as arestas com lixa desbastadora número 40 ou 60, e raspa-se o bordão com uma faca de aço. Passa-se depois uma  lixa número 100 ou 120, sobre o bordão, para estimular a inspiração da confecção, e obtem-se uma superfície menos áspera.
Na quinta fase,  tapam-se as bases exteriores com serradura e cola branca e deixa-se secar, marcando-se o tamanho dos punhos e, seguidamente, determinha-se o sector rítmico na medida desejada. No sétimo passo passa-se uma caneta de feltro sobre o bordão, a fim de se marcar as divisões das ranhuras que constituirão o sector rítmico. No oitavo momento  passa-se a serra sobre os riscos para a formação, definitiva, das divisões e das ranhuras.
No nono momento passa-se uma grosa sobre as aberturas, lado a lado, e um limatão de quatro polegadas, entre as divisões, para torná-las ovais, obtendo-se assim uma boa confecção. No 11º momento passa-se uma linha de meia cana, lado a lado, para quebrar as arestas, obtendo-se as ranhuras do tipo A.  No 12º, passa-se entre as divisões das ranhuras lixas número 100 ou 120 para tirar as sobras, e lixas 120 e 150, sobre o sector rítmico, para embelezar a dikanza de forma a torná-la mais atraente.
Depois abre-se a saída do som tirando a fibra interior, tornando-a côncava, e quebra-se com uma faca as arestas na margem para não ferir os dedos e lixar toda a superfície côncava.
 Acto contínuo, forram-se as bases interiores com serradura e cola branca, desenham-se os padrões nos punhos conforme o desejo, e, por último, empreende-se polimento dos punhos com verniz, preferencialmente de tipo celuloso ou sintético.
Para lém de Adolfo Coelho, a história da Música Popular Angolana regista os nomes de Euclides Fontes Pereira, Bonga, Raúl Tolingas, e Zé Fininho, os mais notáveis tocadores da dikanza da velha geração de instrumentistas, e a continuidade, na nova geração, tem sido assegurada por Yuri da Cunha, e  Cláudia Andrade “Dina”, instrumentista do grupo folclórico Kituxi e seus acompanhantes e ex-bailarina do grupo Yaka.

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