Cultura

"Música e músicos" nos estudos culturais de Sebastião Coelho

Jomo Fortunato |

Embora seja pouco referenciado nas abordagens sobre a reconstituição histórica do passado musical angolano, Sebastião Coelho deixou um legado ímpar, no domínio dos Estudos Culturais Angolanos, enquanto jornalista, editor discográfico, pioneiro da Rádio em Angola, e, sobretudo, como historiador da Música Popular Angolana, domínio pelo qual analisaremos, neste modesto trabalho, o seu inegável contributo.

 Capa do livro publicado pela Executive Center e os integrantes do Ngola Ritmos, imagens do documentário “O ritmo do Ngola Ritmos” de António Ole
Fotografia: António Ole

O livro “Angola, história e estórias da informação”, 1999, é uma edição revista e aumentada da obra “Informação de Angola”, editada em 1977. Sebastião Coelho, em nota prévia da edição em análise, esclareceu o seguinte: “ De facto o livro “Informação de Angola” é o resultado da análise de uma época específica e surgiu quando resolvi juntar, num só volume, diversos estudos e relatórios informativos que tinha preparado para o Estado de Angola, entre 1974 e 1977.
Nesta altura e pensando que tais trabalhos poderiam ser úteis a futuros estudantes de jornalismo, acrescentei aos relatórios iniciais, além de dados estatísticos de que dispunha, algumas propostas de ensino. Agora, um quarto de século passado sobre a sua publicação, descubro que esse trabalho estava conformado, realmente, por dois livros distintos”.
“Angola, história e estórias da informação” é um contributo ímpar ao conhecimento de aspectos contextuais de natureza política, que passam pela análise dos derradeiros anos de colonização, língua portuguesa, lusofonia, literatura oral, impressa e influência colonial, história da imprensa angolana, percurso da rádio, agência de notícias, cinema e televisão, estudos sobre folclore, história e estórias do disco, um aspecto dos seus trabalhos de investigação sobre o qual Sebastião Coelho deu um singular contributo, pelo facto de serem inexistentes estudos consistentes no domínio da historiografia do disco em Angola.
Até à data da sua morte, Sebastião Coelho viveu em Buenos Aires, Argentina, por motivos pessoais e familiares, onde morreu na sexta-feira do dia 22 de Novembro de 2002.

Música e músicos

O capítulo sobre a “Música e músicos” do livro“Angola, história e estórias da informação” constitui um contributo singular à história da Música Popular Angolana desde os seus “Primeiros passos” estabelecendo um traço distintivo entre folclore e Música Popular nos seguintes termos, “A música folclórica é de origem rural e provém do anonimato, enquanto que a “Música Popular Angolana” é um fenómeno urbano de aculturamento. A “música folclórica” é de origem rural e provém do anonimato, por não se conhecerem os nomes dos seus autores ou já foram esquecidos, porque nunca se preocuparam por ser conhecidos ou, talvez, porque aconteceu o processo inverso. Eram nomes tão populares e tão conhecidos que se transformaram em lenda e como tal se perderam no tempo e se integraram no folclore”.
Sebastião Coelho abordou questões relacionadas com o “Surgimento da Música Popular”, “Idiossincrasia do músico angolano”, “Os pioneiros da música popular” desdobrados nos sub-temas, “A corrente litoral”, “A corrente do interior”, e “A geração revolucionária”. Imposta com o advento da rádio e da produção discográfica, surgiu segundo Sebastião Coelho, a “Urbanização da Música Angolana”e com ela o conjunto “Ngola ritmos”, “fundado em 1947, dando a realidade à ideia na qual vinham matutando desde há muito, vários amigos. Era o resultado de intermináveis conversas entre o Liceu Vieira Dias, Nino Ndongo, Antonino e Domingos Van-Dúnem, José Maria dos Santos, Jejé Fontinhas, Amadeu Amorim, os irmãos Jaime e Sebastião Araújo e Vasco Passos, que seria durante mais de duas dezenas de anos o representante oficial do conjunto. O “Ngola ritmos” não tardaria a consagrar-se como marco da criação da moderna música popular angolana, dando origem à segunda geração de músicos de expressão mista”, escreveu Sebastião Coelho.
Na esteira do “Ngola ritmos” surgiram depois o “Trio Ouro Negro”, logo depois transformado em “Duo Ouro Negro”, integrado por Aires Victória Pereira e Raúl Peres Indipwo, tendo sido o primeiro conjunto angolano profissional que se internacionalizou, alcançando popularidade pouco usual tanto no país como no exterior. O “Duo Ouro negro” era tão disciplinado e rigoroso nas apresentações como nos ensaios e em todos os lugares se identificavam como “os músicos angolanos”. Pertencem à esta época Rui Mingas, que se encontrava na Europa, “Garda e seu conjunto” e o grupo de Lilly Tchiumba”.  No livro “Angola, história e estórias da informação”, Sebastião Coelho explorou ainda a relação entre o “Movimento Rádio-clubístico e a música”, os “Programas de variedades musicais” e “Espectáculos de variedades”.

História do disco


Segundo Sebastião Coelho, os primeiros discos que se prensaram em Angola eram dos chamados comuns ou de ebonite, de 78 rpm. Exibiam o selo português “Triunfo” e surgiram nos finais da década de 60, oferecendo, exclusivamente, música internacional da editora francesa “Riviera”. Vinculada à fábrica “Triunfo” do Porto, Portugal, surgiu a Rádio Reparadora do Bié, e, na sequência a instalação da Valentim de Carvalho em Luanda, projecto acelerado pelo pioneirismo da “Triunfo”. “A tímida utilização do disco para a difusão de música popular angolana, situa-se, historicamente, no início da segunda metade do Século XX, quando o “Trio Assis” de Luanda, constituído por Guilherme Assis e dois filhos, gravou possivelmente em 1949, os primeiros discos comerciais.
Além dos instrumentos, guitarra, viola, e bandolim, o trio também conformava o coro de vozes que, à usança africana, se ouvia em surdina nesses discos”, recordou Sebastião Coelho. Depois da gravação de um single do Teta Lando, em 1972, pela Valentim de Carvalho, surgiu o primeiro disco dos “Merengues”, grupo associado à CDA: “Como registo histórico, escreve Sebastião Coelho, indico que o primeiro e único disco instrumental da discografia angolana, foi gravado em 1975 nos “Estúdios Norte” pelo conjunto “Merengue”. Intitulava-se “Merengue Instrumental” e comportava dois temas de José Keno, “Rufo da liberdade” e “Nica”.  Sebastião Coelho faz referência à CDA, editora de que era um dos seus proprietários, existindo um movimento discográfico anterior associado à FADIANG, Fábrica de Discos de Angola, no Bié.
Sebastião Coelho tem o mérito de ter sido o produtor de três prestigiados momentos da discografia revolucionária, o álbum “Angola ano 1” de Carlos Lamartine, que ficou na história como sendo uma das mais importantes referências discográficas do período da canção política, a par do emblemático LP “Mutudi uá ufolo”, viúva da independência, de David Zé, e o álbum “Independência”, de Alberto Teta Lando.

Radialismo

Sebastião Coelho foi criador dos conceituados programas de rádio, “Cruzeiro do Sul, Huambo, “Tondo ya mu kina ó quizomba” e “Café da Noite, em Luanda. Sobre o surgimento do “Tondo ya mukina ó Kizomba” Sebastião Coelho escreveu o seguinte: “Exactamente como tinha acontecido no Huambo, obtive o valioso apoio das empresas do grupo “Cuca”, através do seu Director Geral, Manuel Vinhas, que, imediatamente,aceitou patrocinar este segundo programa destinado à difusão da música angolana, o ““Tondo ya mukina ó Kizomba”. Assim quatro anos mais tarde repeti em Luanda a experiência do “Cruzeiro do Sul”, também num dia da Rádio”.

Sebastião Coelho na perspectiva do jornalista Júlio Guerra


O jornalista angolano Júlio Guerra, que trabalhou  como adido de imprensa na representação diplomática de Angola na República de Cuba, falecido no dia 14 de Junho de 2009, escreveu o seguinte no prefácio do livro “Angola, história e estórias da informação”: “Repórter, cronista comentarista, correspondente, redactor, editorialista, modesto colaborador anónimo ou director responsável de emissoras de rádio, televisão, diários ou revistas, Sebastião Coelho não se limita neste livro ao relato factual e jornalístico de acontecimentos que se confundem, quantas vezes, com as suas próprias vivências profissionais, como o título da obra o parece indicar.
Em “Angola, história e estórias da informação” está presente o jornalista experiente e rigoroso na inventariação de factos, dados e na sua arrumação criteriosa dos antecedentes que conduziram á situação actual da informação em Angola, está presente o cronista brilhante, o comunicador e o contador de estórias da sua própria história, mas está presente, sobretudo, o nacionalista, o militante de um sonho… 

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