O fim de um ciclo representativo do rumba angolano

Jomo Fortunato |
25 de Maio, 2015

Fotografia: Cedida pelo editor

A morte prematura do Bangão encerra um ciclo artístico e comunicacional, entre os cantores e compositores do passado, e os intérpretes da nova geração, sobretudo os que preservam os valores musicais mais representativos da angolanidade.

Reconhecemos que dos seus grandes méritos, destacam-se a valorização do imaginário melódico e quotidiano cultural, característicos dos musseques, incluindo o uso simbólico e preferencial do Kimbundo, enquanto língua nacional de criação artística.
Adão Filipe, conselheiro, editor e produtor executivo do CD “Cuidado” (2005), obra paradigmática da carreira de  Bangão,  fez o seguinte depoimento sobre a sua experiência  e participação activa, no processo de produção do álbum: “O disco “Cuidado” surgiu no mercado angolano, como resposta a uma necessidade de se imprimir uma nova forma estética ao Semba e rumba, que até então se ouvia, a maior parte das vezes produzidos no exterior.
Na altura senti que certos cantores angolanos poderiam merecer um tratamento mais cuidado, ao nível da produção, com níveis de elaboração artística e musical elevados, respondendo à crescente exigência do mercado no momento. 
A escolha recaíu então sobre Bangão, porque entendíamos que a sua música poderia ser maximizada, sem perder o essencial da sua estrutura melódica, rítmica e lírica . Neste processo, seleccionamos as canções, e os produtores musicais  que iriam corporizar o projecto: Kintino, Nelo Paim, Syssy Lemos, Alex Samba, e  Caló Pascoal foram os eleitos, para uma obra que julgo, inequivocamente, intemporal”.
A vida quotidiana e a dinâmica dos musseques, projectam-se na obra de Bangão e a semântica das suas canções só poderá ser compreendida na plenitude, se entendermos o universo línguístico kimbundo, e a sua filosofia dos costumes de Luanda, Bengo e arredores.
Ao longo de trinta e seis anos de carreira, Bangão revelou ser um dos cultores mais representativos do “rumba angolano”, género que dizia ter herdado dos cantores do período de ouro da história da Música Popular Angolana, entenda-se colonial, e com o qual claramente se identifica.
Um dos mais notáveis cantores da contemporaneidade musical angolana, Bangão é filho legítimo do musseque Sambizanga, bairro emblemático de Luanda, e elegeu, ao longo da sua curta carreira, como temas das suas canções: as crenças e conflitualidades existenciais, representadas fundamentalmente no  feitiço, amor, morte, desequilíbrios  conjugais, incluindo as mutações sociais e políticas mais recentes, socorrendo-se da tradição melódica do cancioneiro luandense.

Percurso

Filho de Jorge Martins Correia, de Pango Aluquém, e de Balbina António Neto, de  Piri Dembos, Província do Bengo, Bernardo Jorge Martins Correia nasceu no bairro Brás, município do Sambizanga, na rua do Centro Recreativo Cultural “Kudissanga Kuá  Makamba” no dia 26 de Setembro de 1962. No entanto, em virtude da ausência dos seus descendentes em Luanda, decidiu,  aos dezoito anos de idade, optar, voluntariamente, pela naturalidade da sua mãe.
Católico assumido, Bangão é filho de pais protestantes, tendo feito os estudos primários na Escola da Praça, Posto 9, no Sambizanga, e os secundários na Escola Emídio Navarro, no Bairro Rangel. Considerado o Rei do “rumba angolano”, Bangão começou no grupo os “Foguetões”, mais tarde designado, “Tradição”, em 1974, formação acústica que integrava o guitarrista Diogo Sebastião, Kintino (viola solo), Zé Abílio (viola ritmo) , Pedrito Alaíto (bateria e tumbas), André Lua (voz e precussão), e  Mano Chupa (percussão).
De 1976 a 1977 integrou, como vocal, o grupo “Progresso de África” com Guncha (tumbas), Artur Décimo (viola baixo), Kintino (viola solo), Pedrito Alaíto (bateria) e Zé Abílio (viola ritmo). No mesmo período, o promotor musical, Adão Nzo Yami, pretendendo revitalizar o conjunto “África Nzogi”, degenerescência do grupo Surpresa 73, convidou a inclusão dos integrantes da banda “Progresso em África”, com a intenção de experimentar um novo alinhamento estético, no conjunto “África Nzogi”.

Gingas

No dia 18 de Outubro de 1978, Bangão cantou na Tourada de Luanda, com os “Gingas”, agrupamento do emblemático guitarrista Duia. Na altura integravam os “Gingas”: Kakulo Kalunga (vocal, maracas e puíta), António Pascoal (Dikanza), Guilhermino (vocal) e Dioguito (viola ritmo).  As canções: “Vaiana”, “Monami” e “Alice” foram os grandes  sucessos musicais da época.  Os Gingas acabaram numa emboscada, durante a guerra, em Cassoalala, a 70 km de Luanda, as 15h:24 minutos do dia 19 de Maio de 1989. Morreram na tragédia: António Joaquim Francisco (guitarra solo) e Dioguito (viola ritmo). Em consequência, Bangão ficou afastado da música durante seis meses, enveredando depois por uma carreira a solo, e integrou depois, como colaborador, o agrupamento  “21 de Janeiro”, grupo afecto à Força Aérea Popular de Angola.

Discografia

De 1989 a 1992, Bangão fez parte do conjunto “Zimbo” e gravou o CD “Sembele” (1992) com os temas: “Emoção”, “Minga”, “Mukongo”, “Kiami”, “Fonseca”, “Sembele”, canção que dá título ao disco, “Kuatequesa”, “Manheno” e “Sambito”. O CD “Cuidado” (2005), obra referencial da carreira de Bangão, teve as participações de Dalú Roger (percussão), Betinho Feijó, Nóno, Pitchu, e Paulo Massini (guitarras), Nando Tambarino e Nelson (metais), e Hélio Cruz (bateria),  a que se juntaram Teddy Nsingui, Alex Samba, Malú, Gigi, Linda, e  Sissa, nos coros. Oito anos depois da edição do CD “Cuidado” surgiu o duplo álbum,  “Estou de Volta”, preparado durante seis anos, com produção e arranjos de Kintino, guitarra ritmo da Banda Movimento, Nelo Paim, Sissy Lemos, e Betinho Feijó, desdobrados no semba, bolero, quilapanga e rumba. Com trinta e quatro canções, divididas em dois CD’s, repartidas em dezassete canções em cada disco, “Estou de volta” retoma as canções: “Kakixaka”, “Dioguito”, “Minga”, e “Kanjila”, incluindo os inéditos: “Hanami dilanguenu”, “Ingú”, “Undengue uami”, “Garina do Suegue”, “Mini saia”, “O Bonzo”, “Baliza”, “Kuditata kuami”, “Mamã Kudile” e “Fonseca”.

Prémios


Ao longo da sua prestigiante carreira, Bangão foi várias vezes premiado, pela qualidade e importância da sua obra. Em 1996, venceu o prémio Liceu Vieira Dias com a canção “Kibuikila” (Peste), acompanhado pela Banda Movimento, formação musical em que foi vocalista, em 1999. Neste ano arrebata a primeira edição do concurso “Semba de ouro” com a canção “Kangila” (pássaro agoirento). Em 2003 ganhou os prémios de “Música do ano”, com o tema “Fofucho”, e “Voz masculina do ano”, duas categorias do Top Rádio Luanda, tendo arrebatado, em 2005, o “Top dos mais queridos”, da Rádio Nacional de Angola.

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