O grande legado de Ciros da Mata

Jomo Fortunato|
21 de Julho, 2014

Fotografia: Dr

Embora tenha sido tipógrafo profissional na sua juventude, Ciros Cordeiro da Mata enveredou muito cedo para a música, foi um dos principais compositores do Grupo Musical e Teatral Ngongo, tendo participado em memoráveis tertúlias, no Bairro Indígena,  com os históricos Vum-Vum, Tizinho Miranda, e Voto Neves.

Ciros Cordeiro da Mata cantava, preferencialmente, em encontros com amigos, contudo veio a constituir um dos casos, raros, de partilha artística por não ter concentrado em si, enquanto compositor, a dupla função de criar e interpretar. Note-se que, semelhante virtude, contraria uma lógica muito comum, que sustentou a história da Música Popular Angolana, sobretudo na época colonial, período em que a criação e a interpretação, convergiam, normalmente, num só artista.
Filho de Cordeiro da Mata e de Isabel dos Santos Torres, Ciros Cordeiro da Mata nasceu em Luanda,  no dia 23 de Junho de 1943, e morreu, aos sessenta e seis anos, no dia 22 de Junho de 2009, tendo sido enterrado na manhã do dia 24 de Junho de 2009, no  Cemitério do Alto das Cruzes, em Luanda.
Órfão de pai quando tinha apenas um ano de vida, Ciros Cordeiro da Mata esteve sob os cuidados da mãe, uma modesta lavadeira, e  de José d’Olim Cordeiro da Mata, seu  irmão mais velho, um dos seus principais impulsionadores,  na apreensão do hábito de leitura.
Nas tertúlias do bairro Indígena, Ciros Cordeiro da Mata sempre foi uma voz activa, tendo composto canções que pertencem, definitivamente, ao espólio do cancioneiro angolano. Foi fundador, na condição de compositor e bailarino,  do Grupo “Nzagi ya Xikelela” com Voto Neves, Cirineu Bastos, e Tizinho Miranda e depois começou a fazer parte do Grupo Musical e Teatral Ngongo, fundado por José de Oliveira Fontes Pereira, o carismático “Malé Malamba”.

Formação

Ciros Cordeiro da Mata teve uma sólida formação de base, facto que o ajudou a criar textos para a música, valorizando sempre o kimbundo no seu processo de produção artística.  Até 1961, frequentou a Escola São Domingos de Sávio e o Seminário Sáfiro em Cangola, sede do Município de Alto Kauale, província do Uíge, onde concluiu o quinto ano dos liceus. No mesmo ano, altura em que decide regressar a Luanda para ajudar financeiramente a sua mãe, fixou residência no Bairro Bairro Indígena no Bloco 31 Casa Nº 90, local muito famoso onde viviam e frequentavam diversas personalidades da cultura e do nacionalismo angolano,que, na  clandestinidade,  muito contribuíram para o processo de luta de libertação de Angola.
Durante o período que retorna a Luanda, Ciros Cordeiro da Mata tomou contacto com a obra de Joaquim Dias Cordeiro da Mata, seu avô, e um grande número de obras que estava em posse do seu irmão. Contudo, muitos destes títulos bibliográficos tiveram que ser enterrados num velho baú, próximo da cacimba do Bairro Indígena, local onde está construído, actualmente, o estádio da Cidadela Desportiva de Luanda, por incluir textos considerados subversivos pelo sistema colonial, muitos dos quais motivavam os jovens para a luta de  independência de Angola.

Profissão

Ciros Cordeiro da Mata trabalhou como Tipógrafo na Lito Tipo, com o seu tio Gilberto Cordeiro da Mata, tendo participado na elaboração do livro “Picada de marimbondo” (1961), a primeira obra poética do  escritor, Ernesto Lara Filho, de quem se tornou amigo. Anos mais tarde foi admitido nos S.M.A.E (Serviços Municipalizados de Água e Electricidade) como escriturário, tendo atingido a categoria de Segundo Oficial, no quadro da carreira definitiva do funcionalismo público.

Canções


Embora tenha tido uma escassa produção, Ciros Cordeiros da Mata é autor de  várias canções, muitas das quais popularizadas por diversos intérpretes: “Monami uejia”, foi imortalizada por Vate Costa,  vocalista dos “Merengues”, “Kapopola makondo”, interpretada por Bonga, e, mais recentemente, por Paulo Flores, e “Kangrima”, tema incluído no álbum “Muzangola” (1966) de  Vum-Vum: Ngue xile muia ku bata/diá mamaué/ mukonda nga kuivo/ muene olo kata/ Nga tula mu ngila/  Nga sangue Kangrima muene olo dila/ Nga sangue Kangrima muene olo dila/ Eme nga mu chana/ Ngui beke ngó kua mama...ngui bé/kangrima...Kangrima... Kangrima// Ngui beke ngo kua mama ué/ Ngi bana, ngui bana, mu kulumuca/ ku muxitu boba/ ngui mona kudima/ Nga sangue Kangrima muene olo dila.. Com o sucesso “Kagrima”, Ciros Cordeiro da Mata ficou a ser conhecido, como compositor, pelo grande público. 

Genealogia

Ciros Cordeiro da Mata foi neto, ou seja, filho de um sobrinho de Joaquim Dias Cordeiro da Matta, considerado o pai da literatura angolana, que nasceu no dia 25 de Dezembro de 1857 em Icolo e Bengo. Uma das figuras angolanas mais multifacetadas do século XIX, Joaquim Dias Cordeiro da Matta foi poeta, cronista, romancista, jornalista, pedagogo, historiador, filólogo, folclorista e a sua investigação e zelo levaram a estabelecer em Angola um grande respeito pela cultura e tradição quimbunda. Joaquim Dias Cordeiro da Matta é um dos exemplos de autodidactismo na história do jornalismo e da investigação angolana, e morreu  no dia 2 de Março de 1894, na  Barra do Cuanza., província do Bengo.

Leituras

Para além de se ter inspirado na “Philosophia popular em proverbios angolenses” , de Joaquim Dias Cordeiro da Mata, Ciros Cordeiro da Mata, leu  os textos canónicos da literatura portuguesa recomendados no Seminário e   no ensino liceal. Neste sentido terá tido contacto com os cancioneiros medievais, consubstanciado na poesia trovadoresca,  Fernão Lopes,  Bernardim Ribeiro, Gil Vicente, Sá de Miranda, Luís de Camões, Almeida Garrett, Alexandre Herculano,  Eça de Queirós, Cesário Verde , e Antero de Quental.

Depoimento

Considerado homem de múltiplos ofícios, Cirineu Bastos é cantor, bailarino, actor e chefe de cozinha, participou em inúmeras tertúlias com Ciros Cordeiro da Mata, tendo feito o seguinte depoimento: “Aos dez anos comecei a lidar, no Bairro Indígena, com Babachi, o verdadeiro autor do “Milhorró”, em parceria com Murimba Show,  Tizinho Miranda, exímio guitarrista, Vum Vum, Tonito, e o grande Cirus Cordeiro da Mata. Nestes convívios participavam mais velhos que, embora não cantassem, estavam ligados à música tais como o Lopo do Nascimento, Aristides Van-dúnem, Garbriel Leitão, Kapicua, Ratinho, o velho Faria e outros. Conheci o Cirus Cordeiro da Mata em casa do tio Leopoldo Mangueira, local  onde nasceu os “Kimbandas do Ritmo”. É importante que fique aqui registado que muitas das “flores musicais” do Grupo Teatral Ngongo tinham a assinatura do Ciros Cordeiro da Mata, e a história regista outros grandes compositores, tais como: Kiavulanga, Prata, o grande “Malé Malamba, e do  Roldão Ferreira”.

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