O romantismo de Chico Coio

Jomo Fortunato |
16 de Maio, 2016

Fotografia: Arquivo do Cantor

O Grémio do Chico Coio, situado no bairro Marçal, ficou conhecido pelas tertúlias do “Núcleo a voz do artista”, um espaço de solidariedade e debate de ideias sobre o estado da música, e pretexto de reencontro de cantores, compositores e instrumentistas, de importância simbólica na história da Música Popular Angolana.

De facto, era frequente a passagem pelo Grémio, em tertúlia, entre outras figuras não menos importantes, dos guitarristas Hidelbrando Cunha, Zeca Tyrilene, Gegé Faria, o pianista, Tony Galvão, falecido recentemente, e os cantores Carlos Lamartine, Xabanú, Cirineu Bastos e Kituxi, lenda viva e um dos sobreviventes da formação inicial do conjunto os “Kiezos”.
Nos últimos anos da sua vida, Chico Coio teve o mérito de ter organizado e impulsionado o “Núcleo a voz do artista”, uma associação que visava o debate e solução dos problemas da classe dos cantores, compositores, conjuntos musicais e instrumentistas, numa relação de diálogo e intermediação com a UNAC, União Nacional dos Artistas e Compositores.
Os contornos da parceria institucional entre o “Núcleo a voz do artista” e a UNAC, foram revelados pelo guitarrista Belmiro Carlos, seu actual secretário-geral, que revelou o seguinte: “A relação da UNAC com o “Núcleo a voz do artista” foi crucial e de extrema importância, sobretudo pelas informações prestadas por Chico Coio, sobre o estado social e de saúde dos cantores, na sua generalidade, com maior incidência nos que fizeram história e deram o seu contributo ao longo do passado da Música Popular Angolana, muitos dos quais frequentavam, curiosamente, o seu Grémio, no Marçal”.

Percurso

Filho de Manuel Coio e de Celestina Manuel da Graça Espírito Santo, Francisco Manuel Coio, Chico Coio, nasceu em Luanda, no bairro da Ingombota, no dia 8 de Novembro de 1948. Embora tenha passado pela Escola Técnica de Enfermagem, onde se formou como agente sanitário, Chico Coio enveredou para a música, contrariando o desejo dos seus familiares. Em 1965, numa altura em que morava no bairro Operário, Chico Coio foi convidado por Kinito e Floriano Meireles a integrar, primeiro o conjunto “Anapaz”, pequena formação que veio a dar depois no África Ritmos, onde, em 1967 veio a cantar e tocar dikanza, com Floriano Meireles, bongós, Kinito, tambores, Domingos Pai Adão, Pai Mingo, viola baixo, Jabi, voz, autor do “Kilombelombe”, e Corais, igualmente na voz. Foram solistas do África Ritmos, Constantino, Belmiro Carlos, Nito e Hildebrando Cunha, até 1974, ano da extinção do grupo. Chico Coio passou depois pelos conjuntos “Ébanos”, “Angolenses”, como vocalista e baterista, época em que gravou a canção “Nguxi Tua sakidila”, um tema de pendor político, “Dimbangola” e os “Kiezos”.
Gegé Faria, guitarra ritmo e contra-solo dos “Kiezos”, falou da relação de Chico Coio com o seu conjunto, expressando as seguintes palavras: “Chico Coio era um conselheiro, acompanhante e amigo dos “Kiezos”, que não deixava ninguém falar mal do nosso conjunto. Para além do espaço de debate no âmbito do “Núcleo a voz do artista”, Chico Coio disponibilizava o seu Grémio para as actividades do grupo. É uma grande figura da música e da cultura que vai nos fazer muita falta”.

Discografia


Embora tenha deixado uma escassa discografia, Chico Coio gravou com o África Ritmos, em 1973, o single “Kipenze”, disco em vinil que inclui o instrumental, “Coio”, com um solo do guitarrista Constantino. O cantor participou depois no CD “Meu Marçal”, em Novembro de 2007, da produtora “AQ produções e eventos limitada”, que inclui canções interpretadas por Bonga, Carlos Lamartine, Massano Júnior, Kituxe, Raúl Tolingas, Vate Costa, Didelas, Domiguinho, Fontes Júnior, Zecax, Caló Pascoal, DJ Manya e os grupos de música folclórica, “Kamba dyá Muenho” e “Nguami Maka”.
A produção do CD teve a intenção de homenagear várias gerações de cantores do bairro Marçal.
Chico Coio teve participação no CD dos “Kiezos” em “Homenagem a Vate Costa”, com a canção “Sofrimento”, lançado em Maio de 2013, e reeditado em Agosto do mesmo ano.
O CD teve a participação de Givago, Alice Ferreira, Lulas da Paixão, Augusto Chacaiá e Zecax.  Em 2004, Chico Coio reuniu no  CD “30 anos depois”, as canções mais representativas da sua carreira: “Lemba”, “Vutukenu”, “Ngibanza”, “Ngolo banza Lemba”, “Mana Antónia Coio”, “Ndalatando”, Ngana António”, “Monangola” e “No jardim da cidade”, com participação dos instrumentistas Zé Mueleputo, guitarra solo, Angel Marine e El Djim, congas, Galiano Neto, percussão, Lito Graça, bateria, Carlitos Chiemba, baixo, Paulo Pakas, produção, programação, baixo e acordeão, Ciro Bertini, baixo, e Mestre Capitão, nas congas.

Distinções


Muito reconhecido pelos seus companheiros da música e membros do “Núcleo da voz do artista”, pelo seu dinamismo e entrega, Chico Coio foi  homenageado, em 2015, pela OMA, Organização da Mulher Angolana, e  distinguido pelo programa Caldo do Poeira, da Rádio Nacional de Angola, pelo contributo e importância do conjunto da sua obra, na história da Música Popular Angolana.
Ainda por ocasião da sua morte, o Ministério da Cultura destacou, em nota de condolências, o “contributo do músico para a afirmação e promoção do cancioneiro angolano, de um artista que se notabilizou na história da Música Popular Angolana, no período de luta anti-colonial e pós independência, com mensagens que apelavam à resistência ao colonialismo, tendo sido nesta época e condição, que, através da música, fez história”.

Depoimento

Hildebrando Cunha, guitarrista dos “Kiezos” e companheiro de Chico Coio no conjunto África Ritmos, fez o seguinte depoimento sobre o cantor: “Conheci o Chico Coio, em 1972, no África Ritmos, numa época em que ele, para além de compositor, cantava e tocava dikanza. Muito criativo, Chico Coio, tinha uma propensão natural para a música, e uma das canções que o notabilizou na nossa época de integrantes do África Ritmos foi o “Kipenze”, canção que conta a história de um macaco que fugiu da casa da Nazaré. Depois do África Ritmos, altura em que ele morava no bairro Operário, ele foi morar para o Marçal, bairro onde residiu até à data da sua morte. Julgo interessante notar que ele tocou bateria no conjunto “Dimbangola” e nos “Angolenses”, onde gravou um outro grande sucesso da sua carreira, “Ndalatando”. Depois foram os nossos encontros à volta do “Núcleo a voz dos artistas”, uma organização criada por ele, onde se discutiam as grandes preocupações dos artistas e temas que depois iam para debate na Assembleia da UNAC, União Nacional dos Artistas e Compositores. Volvidos estes anos todos, concluo que o Chico Coio era um grande artista. Uma das suas características era a capacidade de construir melodias à volta de um determinado ritmo, ou seja, dado um impulso ou tema. Ele criava imediatamente uma melodia. Não tenho dúvidas que era um homem, naturalmente criativo”.

Morte

Chico Coio morreu numa sexta-feira, dia 6 de Maio de 2016, na sequência de um conjunto de indisposições, incluindo a tensão alta.
No entanto, a filha, Isabel Coio, informou à imprensa que o seu pai era diabético e que o diagnóstico dos médicos revelou paludismo, depois de passagens pelo Hospital Américo Boavida, para uma consulta de neurologia, e no Hospital Josina Machel.
De recordar que segundo a sua história clínica, Chico Coio já esteve em Cuba, em 2013, para tratamento, na sequência de um AVC, não tendo sido reabilitado na totalidade. O cantor foi enterrado no dia 12 de Maio de 2016, no cemitério da Sant’Ana, em Luanda.

Elogio

Do elogio fúnebre, lido por Armando Rosa, director do Licenciamento para Exibição Pública da UNAC, União Nacional de Artistas e Compositores, destacamos as seguintes palavras: “Mais uma voz se cala, uma voz que soou firme nos anais do folclore da música angolana.
A voz que animou corações e também sensibilizou multidões. A voz que arrastou massas para as pistas de dança. A voz que Angola teve o privilégio de ouvir, de Cabinda ao Cunene.
Calou a voz que tocou no fundo dos corações cantando “Mamã uángivualelé”, a mesma voz que ao som de “Ndalatando”, galvanizou o sentimento patriótico.
Calou uma voz firme, madura, experiente e persistente. Partiu o Chico Coio… artista que se destacava pela sua capacidade de dinamizar acções que galvanizaram o grupo para o sucesso, merecendo o reconhecimento dos colegas.
A dada altura foram convidados para uma digressão para a cidade Ndalatando, época em que Angola fervilhava com o eclodir da guerrilha urbana. Foi aí que surgiu a célebre canção, “Ndalatando”, que é tão-somente a bandeira de apresentação do homem criativo que foi Chico Coio”, lemos no elogio fúnebre da autoria de Armando Rosa.

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