Ópera de Roma com futuro incerto


6 de Outubro, 2014

Fotografia: Divulgação

Depois das greves sucessivas e do clima de grande instabilidade que levou à saída do director musical, o maestro Riccardo Muti, a Ópera de Roma despediu agora 182 pessoas das 460 que compõem os seus quadros.

Para os críticos e principais jornais italianos, como o “Corriere della Sera”, a saída destas pessoas é um autêntico terramoto que não tem precedentes em Itália.
O anúncio foi feito pelo presidente da Câmara de Roma, um dos destinatários da carta de demissão de Riccardo Muti, tornada pública no dia 22 de Setembro. Nela, o maestro, que acumulava o cargo em Roma com a direcção da sinfónica de Chicago, informava que saía por não ter serenidade para trabalhar e serem demasiados os problemas, em alusão ao braço de ferro que mantinha há longos meses com os sindicatos que representavam os músicos e cantores.
Ainda que apenas uma parcela da orquestra entrasse em greve, era impossível continuar a trabalhar nas produções já agendadas, explicou. Na mesma carta, Muti também renunciava, por isso, ao seu lugar na direcção de “Aida”, espectáculo com estreia prevista para 27 de Novembro, e de “As Bodas de Fígaro”, anunciada para a próxima temporada. “Infelizmente, apesar de todos os meus esforços, não existem condições que garantam a serenidade de que preciso para as produções resultarem”, escreveu o maestro de 73 anos, acrescentando que tomava a decisão de se afastar com “grande tristeza”.
O presidente da autarquia, Ignazio Marino, garantiu aos jornalistas que o despedimento colectivo não vai afectar os restantes 278 trabalhadores, sendo as produções asseguradas, a partir de agora, pela contratação de trabalhadores independentes.
“Esta foi uma decisão muito dura”, disse o director-geral do teatro, Carlo Fuortes, citado pela Ansa, a agência de notícias italiana. “A outra única alternativa era fechar o teatro por completo.” O site oficial da Ópera de Roma continua com a programação 2014/15 que tinha anunciado antes deste “terramoto”, sem qualquer referência aos despedimentos ou ao substituto de Riccardo Muti, quer na direcção musical do teatro, quer nos espectáculos “Aida” e “As Bodas de Fígaro”.
O insucesso das negociações e as greves constantes levaram a que a direcção da Ópera de Roma tivesse perdido 12,9 milhões de euros no ano passado e 300 mil agora, diz a Ansa.
A saída de Riccardo Muti, um dos maestros mais reconhecidos do mundo, teve grande eco internacional, lembra também o diário espanhol “ABC”, ao levar o teatro a perder muitas receitas em mecenato e publicidade.
“Esta é uma medida nova em Itália, mas muito comum no resto da Europa”, acrescentou Fuortes, ao referir exemplos em Espanha, Holanda e Áustria, em que os músicos, em vez de auferirem um salário fixo, são contratados por produção, algo que no caso italiano permite ao teatro poupar 3,4 milhões de euros.
Para dar a volta aos sindicatos, o presidente da Câmara, por seu lado, desafiou os membros da orquestra e do coro a formarem uma cooperativa nos próximos 75 dias: “Se se organizarem da melhor maneira, a Ópera pode ter um novo coro e uma nova orquestra a partir de 1 de Janeiro.”
“É um despedimento injustificado e discriminatório, um projecto de desmantelamento do teatro de ópera”, disse ao italiano “Corriere della Sera” Marco Piazzai, primeiro trombone da orquestra e representante do sindicato Fials-Cisal, ao defender que foi por se ter apercebido das intenções da direcção-geral do teatro e da Câmara que Riccardo Muti tomou a decisão de se demitir. “Estamos prontos a impugnar essa decisão”, concluiu.
Dario Franceschini, ministro da Cultura italiano, reconhece que este despedimento colectivo de artistas é uma opção “dolorosa, mas necessária para salvar a Ópera de Roma”.

Novo modelo de gestão

O italiano Paolo Pinamonti, director do Teatro da Zarzuela, em Madrid, garante que, apesar da má notícia, o objectivo do presidente da Câmara de Roma e da direcção da ópera não é contratar músicos diferentes a cada nova produção, mas sim criar um novo modelo de gestão, que pode passar por fazer um contrato com uma grande orquestra e um coro, para prestarem serviços ao teatro, à semelhança do que acontece em Madrid, Toulouse ou Estrasburgo.
“Não acredito que se queira acabar com a Ópera de Roma. Nunca se poderia trabalhar com músicos contratados por produção, a começar pelo facto de os maestros que poderiam vir a ser convidados dificilmente aceitarem, sem saber que corpo artístico iam ter para dirigir”, explica o professor de Música.

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