Cultura

Os colossos da trova em Angola

Ferraz Neto |

Convém saber também que o Duo Canhoto é considerado na actualidade, por muitos apreciadores da cena musical angolana, o "melhor" da trova, atendendo às suas composições e à forma como os dois integrantes manejam as guitarras, que por vezes parecem ter alma e coração.

Duo Canhoto é considerado como o melhor da trova
Fotografia: Paulo Mulaza | Edições Novembro

Com muita satisfação apresentamos o percurso de um dos melhores duetos da história contemporânea da trova em Angola.
Militares e músicos
Nasceram em zonas diferentes do país. Antero Moisés Ekuikui é oriundo do município do Mungo, a 132 quilómetros da cidade do Huambo, mais concretamente na aldeia de Cachau Mbata. Filho de Jonatão Solino e Ester Celeste, Antero Moisés Ekuikui nasceu no dia 20 Setembro de 1962.
Guilherme dos Anjos Maurício, o Mito, é filho de Inácio António Maurício e de Domingas António Bucharte. Natural do município de Bolongongo, nasceu no dia 11 de Janeiro de 1966, a 150 quilómetros da cidade de Ndalatando, a capital da província do Cuanza Norte.
Antero Moisés Ekuikui é o mais velho, daí o respeito e prioridade, quando se tratam de assuntos inerentes ao grupo. Desvendou-nos que o surgimento da dupla (Duo Canhoto) tem contornos divinos. "É algo que veio de Deus, pois juntamo-nos de forma espontânea", sustenta.
A essência do dueto resultou de ambos descobrirem que possuíam uma mesma característica congénita: tocar guitarra pelo lado esquerdo. Isto foi na década de 80, quando Antero e Guilherme integravam os efectivos da Tropa de Guarda Fronteira Angolana (TGFA), hoje Polícia de Guarda Fronteira (PGF).
Mas ambos tiveram consagrações desiguais. Guilherme dos Anjos Maurício (Mito) sempre alimentou o sonho de ser actor e mais tarde futebolista. Chegou a demonstrar os seus dotes como futebolista da TGFA. Por força das circunstâncias, abdicou de tudo e enveredou para a música.
Decorridos alguns anos, começaram a tocar e a gravar juntos. Os reveses da vida nunca lhes permitiram que baixassem os braços. E um dia o rumo dos acontecimentos acabou mesmo por se inverter.
O reconhecimento dos comandantes não tardou. Meses mais tarde, foram convidados a integrar o elenco artístico do agrupamento musical das TGFA e passaram a animar as diferentes unidades destacadas na cidade de Moçâmedes, a capital da província do Namibe. Lado a lado, converteram nas princiapis atracções culturais.
Antero Moisés Ekuikui e Guilherme dos Anjos Maurício tinham a difícil missão de entreter os efectivos durante os intervalos de cada uma das sessões de apresentações das peças teatrais. Em cada actuação, o duo era aplaudido de pé, até pelos mais críticos.

Fonte de inspiração e padrinho anónimo

O sucesso e a humildade é algo que marca permanentemente a trajectória artística do Duo Canhoto. Ekuikui e Mito jamais se deixaram entusiasmar pela fama ou pelo rumo ascendente e descendente da vida artística. Daí que o dia-a-dia seja a principal fonte  de inspiração do duo.
Agradavelmente, a conversa com o Duo Canhoto ganhou um interveniente de luxo. “Anónimo”, Neto António Dinda é considerado padrinho pela dupla. Amigo e companheiro de trincheira, como soe dizer-se, testemunhou o nascimento do Duo Canhoto.
Hoje oficial superior da Polícia de Intervenção Rápida (PIR), destacado na província do Cuando Cubango, Neto Dinda esteve sempre ao lado da dupla em cada uma das suas fases, antes e depois de abraçarem a carreira musical. Conhecedor da realidade artística das TGFA, desenhou cada uma das etapas.
Mesmo distante dos grandes palcos em que os Canhotos desfilam o seu talento, Neto Dinda preocupa-se com o seu dia-a-dia e estabelece em permanência o contacto directo. "Nas TGFA fui actor e mais tarde responsável pela área da acção cultural do comando central das Tropas de Guarda Fronteira Angolana", realça o padrinho e compadre do Duo Canhoto.
A convivência e a afeição transformam Neto Dinda num dos confidentes do grupo. A reforçar os laços de afinidade, Neto Dinda foi escolhido como padrinho do primeiro filho de Guilherme dos Anjos Maurício e este por sua vez dos primogénitos de Neto António Dinda.

A cumplicidade familiar e a ausência de herdeiros

Oriundos de regiões diferentes, Ekuikui e Mito convergem na música quase todos os aspectos da vida. Mas, no início, as composições em umbundu criaram grandes deformações em termos fonéticos a Mito. Mas as actuações conjuntas em diferentes hotéis limaram as arestas. Apercebendo-se das debilidades do companheiro, Ekukui ajudou Mito a moldar-se em termos linguísticos.
A mãe deste foi uma verdadeira mulher determinada na afirmação e superação linguística do duo. "A velha Minga, mãe do meu companheiro Mito, ajudou-me bastante no aperfeiçoamento da língua kimbundo", realça Antero Ekuikui.
As esposas de ambos também fazem parte da caminhada artística. Guilherme dos Anjos Maurício, o Mito, é casado com Ana Maria Maurício. Inúmeras vezes, valeu-se da mulher para “desenterrar” algumas das produções desaparecidas.
Mas a caminhada artística de Guilherme dos Anjos Maurício teve um “duro” revés. Dos sete filhos, nenhum herdou a veia musical e, curiosamente, não há canhotos entre eles.
Antero Moisés Ekuikui vive maritalmente com Helena Francisco, tendo um agregado familiar constituído por cinco filhos. 
A exemplo de Guilherme dos Anjos Maurício, em casa de Ekukui não há ninguém que tenha despertado o bichinho da música. Mas ainda há esperanças. Hoje, a dimensão artística do Duo Canhoto tem dimensão nacional, alcançando admiradores das mais diferentes regiões nas línguas umbundu, kimbundu e português. E o seu universo de admiradores continua a crescer para lá das fronteiras nacionais.

Apoio de Carlos Lopes e "suplício" discográfico
 
Após vinte anos de carreira musical, o Duo Canhoto começou a comercializar a sua primeira obra discográfica, intitulada "Lado Esquerdo", em 2005, facto constrangedor para Ekuiki e Mito.
Carlos Lopes, cantor e compositor, para além de ter executado guitarra na canção "Akamba" e participado nos coros, assegurou a produção executiva do CD e foi mesmo o grande mentor do projecto discográfico.
A obra, com dez faixas musicais, nomeadamente, "Tereza", "Akamba", "Onjo Sikuete", "Omboio", "Ongeya", "Não me provoquem", "Agora eu sei", "Cântico Sofrido", "Sara" e "Instrumental", tem uma sonoridade totalmente diversificada e com influências africanas.
Uma década depois, com o disco ainda a ser um sucesso, a luta de Ekuikui e Mito é a conclusão do seu próximo trabalho discográfico.
O Duo Canhoto já tem definido o título para o seu segundo disco. “Outro Lado Outro Prato” é a proposta que o dueto prevê lançar.

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