Palácio de Ferro centro da música

Jomo Fortunato |
25 de Janeiro, 2016

Fotografia: Adilson Fernandes

O Palácio de Ferro, transformado actualmente num dos principais espaços de valorização cultural e de propostas experimentais da III Trienal de Luanda, sobretudo no domínio da música e das artes plásticas, acolheu, sábado, o cantor e compositor Ndaka Yo Wiñi, no âmbito da extensa programação de concertos da III Trienal de Luanda da Fundação Sindika Dokolo.

Embora esteja inserido num mundo globalizado, e de fácil acesso à informação, Ndaka YoWiñi reutiliza os meios virtuais das novas tecnologias da esfera comunicacional, em benefício dos valores artísticos da tradição, num processo ousado de inclusão e fusão com a estética da modernidade.
Tem estado cada vez mais nítida a linha divisória entre a Música Popular Angolana de consumo imediato, visando fundamentalmente desígnios de mercado, e os processos de criação musical que, embora fora do grande sucesso comercial, apelam à qualidade, pela investigação do cancioneiro, valorizam as línguas nacionais, e optam por construções harmónicas, e melódicas mais elaboradas.
A personalidade artística de Ndaka Yo Wiñi, enquanto cantor, compositor, e pesquisador cultural, é o resultado da herança cultural da sua família, e da vivência em comunidade, primeiro na Catumbela, comuna onde nasceu, Cuima, terra da sua mãe, Balombo, e Ganda, localidades da província de Benguela, e Bocoio, Huambo, local onde se deslocou, muitas vezes, para efectuar pesquisas académicas, a mando dos padres, seus professores no seminário. É importante reter que, em todas estas regiões, abundam muitos ritmos e uma tipologia diversa de danças: tchipuete, lundongo, ondjando, ukongo, mandjata, ndjando, cisonsi, sulula, e nyhato, géneros que, em acção, cumprem sempre uma função social, no interior das comunidades. 
Ndaka Yo Wiñi teve os seus primeiros contactos com a música nestes ambientes, desde tenra idade, sobretudo nos momentos em que presenciava os rituais e cerimónias tradicionais, aspectos culturais que constituíram o substrato cultural que solidificou a sua carreira artística.

Genealogia

Filho de Severino Ndaka e de Madalena Kassapi, Adriano Xavier Dokas, Ndaka Yo Wiñi nasceu na cidade do Lobito, província de Benguela, no dia 5 de Janeiro de 1981. Pelo facto de ser neto, paterno, de um percussionista, HafonaTchimbakoko, e de uma bailarina tradicional, Paulina Jamba, da parte materna, e pelo facto da sua mãe, Madalena Kassapi, ainda cantar e dançar, Ndaka Yo Wiñi acredita que terá herdado, no interior da genealogia da própria família, o sinal genético daquilo que viria a ser a sua personalidade musical. 

Primórdios

No entanto, a verdadeira entrega à música de  Ndaka Yo Wiñi aconteceu em Cabinda, província onde se refugiou,  em consequência da guerra, em 1997, cidade onde conheceu um grupo de amigos que fundaram a “Banda Ngonji”, da Direcção Provincial da Cultura local, formação que interpretava  sucessos de canções nacionais, internacionais, e, essencialmente, o cancioneiro  tradicional. Da “Banda Ngonji” fizeram parte: Alberto Zau (vocal e guitarra ritmo), Alex Kiwi (piano e voz, actual pianista da Banda Chamavo), Ângela (vocal), e Estevão (baixo).
Entretanto, o grupo foi-se desmembrando, e, na sequência, conheceu um amigo que apresentou-lhe os trabalhos do rapper americano Tupac Amaru Shakur, com o qual ficou completamente fascinado e a partir desse momento passou a cantar rap. Ndaka Yo Wiñi dedicou-se igualmente à realização de eventos culturais em Cabinda, para além de ter formado um grupo denominado “Academia Negra”, responsável pela constituição do primeiro núcleo de cantores rappers na província de Cabinda.

Estilo

Sempre em contínua evolução, Ndaka yo Wiñi juntou à tradição segmentos de jazz, blues, soul music, ritmos latinos, reggae, folk, bossa nova, funk, e afro-beat, num processo que denomina Tradicional Contemporâneo e Fusão. Embora cante em inglês, português, e possua noções básicas de kissolongo, fiote, e kimbundo, é no umbundo, sua língua materna, que exalta, com maior frequência, o amor, crítica social, e exortação para a assunção de atitudes sociais correctas. Em palco, Ndaka Yo Wiñi apresenta-se sempre munido de uma cabaça na mão, denominada “Olukwembo”, que representa, pelo simbolismo, a herança cultural dos ancestrais africanos, a que se junta a encenação da sua performance corporal, “algo que se aproxima de um acto mágico”, segundo suas palavras.

Itinerância

Presença frequente em espaços intimistas de divulgação musical, em Luanda, Ndaka Yo Wiñi passou, de 2013 a 2015, pelo “Doobahr”, “Caminhos do som ao vivo”, concerto inspirado no programa homónimo da Rádio FM, “Bakama bar” em alusão ao mês da África, Espaço Bahia, integrado no projecto “Música nossa”, Miami Beach, participação especial no concerto do cantor namibiano Elemotho, vencedor do prémio descoberta da música em França. Ndaka Yo Wiñi passou também pelo ISCED, Instituto Superior de Ciências da Educação, num concerto em alusão à jornada científica de Linguas Umbundo, Kimbundo, Kikongo e Cokwe.  De referir ainda o concerto do forum empresarial, realizado no HCTA, Talatona, com o cantor e compositor Gabriel Tchiema,  e a cantora Selda. Nos últimos anos participou no “Festa da música”, na marginal de Luanda, uma realização e produção Aliance Française, e num concerto no Elinga Teatro, com a participação dos músicos TotySa´med, Helder Mendes, Gari Sinedima, e Jack Nkanga. Importante referir a soberba participação especial de  Ndaka yo Wiñi no aclamado concerto de Gabriel Tchiema, realizado no Cine Atlântico, no dia  19 Junho de 2015.

Canções

Muitas das canções de Ndaka Yo Wiñi sustentam parábolas, e têm muitas vezes um foco proverbial. No concerto da III Trienal de Luanda, Ndaka Yo Wiñi interpretou as canções “Ombembwa”, palavra que significa a paz, e seus efeitos, e aborda a justa distribuição da riqueza, e o que fizemos para dignificar a paz conquistada, “Evamba”, aborda um ritual de circuncisão, “Ndikalikenda”, tema que retrata um juramento amoroso, “vou me enterrar se a amada não aparecer”, “Ohele”, temor do amor, é daquelas relações em que o homem se empenha, e recebe, em troca, a traição, “Ndjolela”, nome fictício de um momento de alegria, e felicidade, de tudo o que nos é grato, “Passuka”, acorda, deperta, canção inspirada no dia do trabalhador, é uma alerta para apostarmos no trabalho, “Vakaile”, termo que caracteriza o julgar dos tempos, não julgar os tempos no conflito geracional, “Sandombwa”, fala de uma relação incestuosa entre um tio e uma sobrinha, o cantor aconselha, “é importante conhecer as famílias antes de casar”, “Sokolola”, depois da guerra, temos que pensar na reconciliação, “Ukolo”, tudo tem solução, a vida é feita de escapatórias, “Toke pi”, até quando o sofrimento, canção em que o cantor aconselha a sociedade, para o culto do bem, “Tchovetchove”, aqui o compositor valoriza e respeita a propriedade, tanto a nossa, como a do outro, “Lombolola”, incentiva o diálogo entre os humanos, “Akunluvendamba”, é a solicitação da sabedoria dos mais velhos, para salvar as crianças acusadas de feitiçaria, um problema dos adultos, não das crianças, e “Culili vali”, não chores mais, uma homenagem à mãe do cantor, canção que aborda a época das colheitas. No concerto da III Trienal de Luanda, Ndaka Yo Wiñi foi acompanhado pelas guitarras de Nsangu-Zanza e KrisKasinjombela, Jackson Nsaka, bateria e Moisés Lumbanzadio, piano.

Programação

A programação de concertos da III Trienal de Luanda pretende enaltecer a qualidade artística dos cantores, compositores e instrumentistas angolanos, valorizando um segmento musical reflexivo e experimental, que, normalmente, está distante do grande sucesso comercial da música de consumo imediato.
Neste sentido, já desfilaram no palco do Palácio de Ferro: a Banda “Afra Sound Star”, o cantor compositor e guitarrista, Carlitos Vieira Dias, acompanhado por Nanutu, saxofone soprano, Dalú Roger, percussão, a Banda Next, formação jovem que funde canções referenciais da Música Popular Angolana, segmentos de rock, e referências da soul musicnorte americana, Anabela Aya, uma das vozes mais promissoras do universo afro-jazz angolano, e o Duo Canhoto, formação que representa, na actualidade, a vanguarda mais prestigiada da trova angolana, e da musicalidade endógena da cultura angolana.

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