Cultura

Rasgou-se a última página do livro de uma vida musical

Jomo Fortunato |

Como um jovem normal da sua época, Zé do Pau viveu, intensamente, os anos sessenta, inequivocamente o período de ouro da Música Popular Angolana, com cabelo farto à Jimmy Hendrix, sapato alto à PercySledge e a infalível calça à “boca-de-sino”,  forma de se apresentar de quem acompanhava a moda e os ventos da cultura pop-rockocidental.

Zé do Pau faz parte da plêiade de cantores que embora com escassa obra discográfica firmaram longos períodos de sucesso
Fotografia: Edições Novembro |

À época, Luanda vivia a repercussão da contestação estudantil, o emblemático 13 de Maio de 1968, em Nanterre, França, e a eclosão do movimento “hippie” que apelava por mais generosidade, paz, humanismo, defesa dos princípios ecológicos e nacionalismo.Tanto é assim que um importante segmento da Música Popular Angolana, incluindo  bandas paradigmáticas, como os “Kiezos”, absorveu os valores que irradiavam dos ícones da música pop/rock ocidental,e,  sobretudo, os chamados “Conjuntos de música moderna”, num claro exercício de fusão e convívio com o cancioneiro tradicional angolano.
A história da Música Popular Angolana, regista o nome de autores que, embo­ra com escassa obra discográfica, tiveram longos períodos de grande sucesso, merecendo aplausos e respeito do grande público. José Farto Marques Airosa Ferrão,  mais conhecido por Zé do Pau, faz parte desta plêiade de cantores e compositores, uma figura da música angolana que evitousempre divulgar a data e o local de nascimento.
Filho de José Ferrão e de Isabel Farto Ferrão, José Farto Ferrão, Zé do Pau, nasceu no dia 15 de Janeiro de 1950, natural do Ambriz, e começou a sua carreira em 1970, como guitarrista solo do  conjunto “Os corvos”, do qual foi um dos fundadores, com Gildo Costa, vocalista principal e compositor, Zeca Pilhas Secas, viola baixo e ritmo, José dos Santos, vocal, Didino, tambores,  e Novato, vocal e dikanza. “Os Corvos”, formação musical com alguma solidez a nível da execução instrumental, chegou a acompanhar artistas renomados tais como, Sofia Rosa, Luís Visconde, Milá Melo, Belita Palma, Jaburú e Tchinina. Como guitarra solo, Zé do Pau foi vivamente aclamado pela crítica da sua época. Curiosamente, otema “Pôr-do-sol”, instrumental com solo de guitarra de Zé Keno, um tema referencial  dos “Jovens do Prenda”, é da autoria do Zé do Pau, levado ao grupo pelo guitarrista, Mingo.

Internacionalização

No dealbar dos anos setenta, mais propriamente em 1972, Zé do Pau integrou, na condição de convidado, a banda “Contacto”, uma formação pop/rock, que interpretava sucessos mundiais e standards da música rock dos anos sessenta.
Na sequência da experiência adquirida no conjunto “Contacto”, Zé do Pau juntou-se à banda sul-africana, “Tony Sousa and Gize”, em Luanda, ao lado do cantor moçambicano Jerry, um excelente intérprete de canções do universo musical anglo-saxónico. Um ano depois foi a vez das “Organizações facho”, localizada no Lobito, convidá-lo a tocar viola ritmo na gravação de um disco do conjunto “Os Bongos” de Benguela, do célebre guitarrista, Botto Trindade. Os “Lord’s”, banda de vida efémera,  foi a última grande formação de Zé do Pau, como guitarra solo, uma banda que, no início dos anos oitenta, integrava os seguintes instrumentistas, Armandinho, viola baixo, Zitocas, dikanza e voz, e José de Oliveira, percussão e voz.

Clássico
Ainda em 1972, profundamente abalado com a morte da mãe, Zé do Pau compôs  o tema que viria a ser a canção mais conhecida da sua carreira, “Página rasgada do livro da minha vida”. 
Zé do Pau, emocionado, pulsou de forma solene a sua criatividade, enquanto compositor, e escreveu os seguintes versos: Só quando um dia eu for ao campo santo/ minhas lágrimas  e o calor da terra secarão/ então verei a página rasgada/ do livro da minha vida/ que estava escrita a profecia/ de tudo quanto/ eu teria que passar/ na terra um dia/ quando mais eu precisava/ se calou a voz da minha existência/ hoje você está/ onde eu nunca, nunca/ te poderei buscar.../ mamãe/ Talvez me resta apenas depositar/ flores em tua sepultura/ regá-las com lágrimas/ que escorrem dos meus olhos/ tão vermelhos/  de chorar o teu silêncio/ vou rezar ao criador/ que no seio divino/ te guarde para o mun­do vindouro...
A página rasgada representa, numa dimensão me­tafórica, o momento trágico vivido pelo autor, uma pági­na que simboliza a morte da mãe, e o livro, é o termo de comparação do percurso de uma vida  com múltiplos percalços.
Na sequência da morte da sua mãe surgiram as canções, “Apenas uma lembrança”, “A outra dimensão da vida” e “Farrapo triste”, o último, um tema que ficou famoso pela voz do cantor Pedrito. A canção “Página rasgada do livro da minha vida”, acabou por ser gravada, em 1974, pela Valentim de Carvalho, tornando-se  um dos seus maiores sucessos.Neste ano formou, com Santocas e Baião, o célebre guitarrista dos “Jovens do Prenda”, o “Trio Salú”,  uma formação que, ao lado da Orquestra Melodia Ribatejana, do maestro português, Sá Ribeiro, era presença frequente no convívio de turistas na zona turística do Mussulo, em Luanda.

Morte

Zé do Pau morreu no Hospital Geral de Luanda, às 4h30, madrugada do dia 29 de Dezembro de 2017, consequência de um cancro na laringe, tendo tido, em simultâneo, um AVC, Acidente Vascular Cerebral, depois de estar internado vinte e sete dias consecutivos.
O cantor entrou em coma no hospital, com hipótese de recuperação, situação que se inverteu, cinco dias depois, o que ocasionou a sua transferência para secção dos cuidados intensivos.
Os médicos tinham programado mudá-lo no dia 3 de Janeiro para o Centro Na­cional de Oncologia, intenção frustrada em consequência da inesperada evolução da doença. Embora já tivesse tido várias recaídas, uma das quais com internamento no Hospital Girassol, em Luanda, Zé do Pau foi submetido, em 2013, a uma intervenção cirúrgica à garganta na África do Sul, tendo regressado a Angola em 2015.

Discografia do cantor
Na sequência das digressões que realizou pela Europa e América latina, Zé do Pau, participou no concurso de música "Decouverte-2000" da RFI, Rádio France Internacional, numa tentativa de internacionalização da sua obra. O concurso, de  periodicidade anual, tem como um dos principais objectivos homenagear os melhores da música africana e do Ca­ri­be.Depois de um logo período de silêncio, consequência do encerramento das principais gravadoras, "Zé do Pau" reapareceu a cantar, em 1981, no programa "Bom fim-de-semana" da então Secretaria de Estado da Cultura e só chegou a gravar, dezoito anos depois, ou seja, em 1999, o seu primeiro CD,  “Renascer”, um álbum com oito faixas musicais.   
Em “Renascer”, Zé do Pau experimenta, na condição de editor e produtor, um estilo musical mais dançante, nos temas “Mabaia” e “Amor do pobre”,  e regravou a canção “Página rasgada do livro da minha vida”.
Vencedor da 9ª edição do Festival de Música Popular Angolana, Variante 2001,  fez um dueto, num momento particularmente interessante da sua carreira, com o cantor e compositor brasileiro, Altemar Dutra, em Fevereiro do mesmo ano, interpretando o tema “Senhora”,  no palco da Casa 70, em Luanda.

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