Reconstituição histórica da Música Popular Angolana

Jomo Fortunato | Aveiro
11 de Julho, 2016

Fotografia: DR

Uma proposta de “Reconstituição histórica da Música Popular Angolana, da música tradicional ao processo de consolidação do semba”, foi tema de uma comunicação apresentada, a 7 de Julho, no “Congresso Música e Lusofonia em Acervos de 78 RPM”.

O congresso é organizado pelo Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro, em Portugal, em parceria com a III Trienal de Luanda, um projecto da Fundação Sindika Dokolo.
No congresso, Angola lançou o repto de uma proposta de periodização da história da Música Popular Angolana, que cobre o período de 1945 a 1977, um estudo que aborda o conceito de música popular versustradicional, o processo de consolidação do Semba a partir da Massemba, o papel dos musseques, das turmas, Casa dos Rapazes de Luanda, Casa Pia e Grupos Corais da Igreja,  as quatro últimas instâncias consideradas os principais suportesdeensino da música na época colonial. Foram igualmente temas em discussão, a importância do grupo  São Salvador, de Manuel Oliveira, o surgimento do conjunto Ngola Ritmos, de Liceu Vieira Dias, internacionalização do Duo Ouro Negro, a introdução dos aerofones, o órgão no conjunto África Show, de Massano Júnior, e o início da canção política com o grupo “Nzaji”, de José Eduardo dos Santos. Na sequência foi abordada a história dos conjuntos emblemáticos: Jovens do Prenda, de Zé Keno, Kiezos, de Marito Aracanjo, Águias Reais, de Gregório Mulato, Negoleiros do Rítmo, de Dionísio Rocha, Merengues, de Carlitos Vieira Dias, e o impacto político do agrupamento Kissanguela, na época revolucionária. Dos grandes períodos mereceu destaque: o retorno, com Matadidi Mário Bwana Kitoko , Pepé Pepito e Nonó Manuela, Tabonda e Diana Simão Nsimba, o período da Renovação Estética com Catarino Bárber, Vum Vum, Sabú Guimarães, Kinito, Rui Mingas, André Mingas, Filipe Mukenga, Carlos Lopes, Carlitos Vieira Dias, Filipe Zau, Waldemar Bastos, e Carlos Nando.

Congresso

Susana Sardo, organizadora do certame, falou dos objectivos do encontro nos seguintes termos: “O congresso Música e Lusofonia em Acervos de 78RPM, que aconteceu de 7 a 9 de Julho, visa a construção de um arquivo em rede. Neste momento a Universidade de Aveiro é detentora de uma colecção de mais de 7000 discos de música em língua portuguesa que constitui a maior colecção de discos de 78 RPM existente em Portugal. A ideia  principal do congresso foi juntar os diferentes países onde existem repositórios de músicas em português, para vir a criar uma rede de arquivos, em diálogo com outras redes arquivísticas, com o intuito de estimular a investigação e o diálogo entre os diferentes responsáveis por estas colecções. Importa realçar que a realização do encontro foi uma iniciativa do Professor Pedro Aragão da Universidade do Rio de Janeiro, que lecciona na Universidade de Aveiro como professor visitante, e tem o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação Portuguesa para a Ciência e Tecnologia”.

Participantes

Para além de Angola, o congresso juntou especialistas do Brasil, Cabo Verde, Moçambique, e São Tomé Príncipe países com os quais a Universidade de Aveiro tem relações privilegiadas ao nível académico. Destaque para a presença de representantes de várias instituições de conservação e tratamento de acervos: Rádio de Moçambique, Arquivo do Instituto Moreira Salles, Brasil, Ministério da Cultura de Cabo Verde, Presidente do Observatório da Língua Portuguesa da CPLP, representantes dos arquivos de música portugueses mais importantes, Arquivo da Rádio Televisão Portuguesa, Museu do Fado, Museu de Etnologia e Museu do Teatro, representantes da plataforma arquivística Telemeta, associada ao CNRS, Centre National de la Recherche Scientifique, Paris, que pode vir a constituir uma base importante para o arquivo que  se espera vir a construir, incluindo coleccionadores particulares que se juntam a este fórum.

Programa


Na mesa inaugural estiveram presentes as seguintes personalidades da Universidade de Aveiro: José Fernando Mendes, Vice-reitor para a investigação, Rui Raposo, Diretor do Departamento de Comunicação e Arte, Susana Sardo, organizadora, e o Embaixador Eugénio Anacoreta Correia, Presidente do Observatório da Língua Portuguesa da CPLP.
A primeira mesa redonda abordou o tema “Acervos sonoros institucionais, e o processo de preservação e conversão do arquivo em 78 rpm”, Rádio Moçambique, por Felizmina Velho e Ismael Mamudo Massamby, “Os acervos sonoros em Cabo Verde”, por  Glaúcia Nogueira, Cabo Verde, “Acervos sonoros do Instituto Moreira Salles” por  Euler Gouveia, Brasil, “O Acervo José Moças na UA”, Ana Bela Martins e Susana Sardo, “Acervos Sonoros Institucionais, murais sonoros e musicais em São Tomé e Príncipe”, Carlos Almeida, “O Arquivo Sonoro do Museu Nacional de Etnologia”, Paulo Costa, “Os 78 rpm da Rádio Pública Portuguesa: origens, processos e utilização”, Eduardo Leite, “Das múltiplas colecções até ao arquivo sonoro digital”, “História de um percurso e algumas reflexões para memória futura”, Pedro Felix, “Construindo pontes entre acervos discográficos: por um portal lusófono de colecções em 78 rpm”, por Joaquim Sousa Pinto.
No segundo dia foram abordados os temas “Acervos fonográficos como lugares de entre mundos Gravar no Brasil, difundir Portugal: a digressão internacional das Irmãs Meireles nos anos 40”, Pedro Moreira, “Música portuguesa para ser apreciada no estrangeiro”: sobre a gravação em Paris de uma selecção das canções do primeiro fonofilme português, A Severa, pela orquestra de tangos de José Lucchesi (1931), Manuel Deniz, Vem cá mulata: maxixes gravados em Portugal no início do século XX”, Pedro Aragão, “Acervos discográficos no âmbito da indústria fonográfica pertinência e música popular gravada, analisando fonogramas”, Martha Ulhôa, “Fora do controlo das elites: comicidade e gostos bárbaros em discos de 78 rpm”, Rosário Pestana, “Nem sempre a gente assobia a música que colecciona”, Flávia Toni, “O passado é um país estrangeiro”: o papel dos acervos públicos e privados na aquisição de intimidade etnográfica com o passado”, Leonor Losa, “O disco enquanto repositório histórico: o teatro de revista nos fonogramas de 78 rpm”, Gonçalo Antunes de Oliveira, “Gravações de Francisco Benetó no Acervo José Moças da Universidade de Aveiro e a sua relevância na realização de uma edição crítica”, Nuno Soares, “Gomalaca: conectando acervos e gerações”, Biancamaria Binazzi, “Revivendo Pixinguinha: as gravações de 1923 em Buenos Aires”, por Ana Paula Peters.

Destaque


No congresso, Angola destacou o contributo de José Eduardo dos Santos na história da canção política, atráves do conjunto “Nzaji”, formação musical criada na cidade de Moscovo,em 1964, que sustentou o lado romântico da clandestinidade e da guerrilha, durante o processo de luta anti-colonial,  com canções que veiculavam mensagens explícitas e mobilizadoras, difundidas no programa radiofónico, “Angola Combatente”, um período que acabou por marcar o início da formação da música de intervenção, na linha de continuidade do período acústico da Música Popular Angolana.
A formação do conjunto “Nzaji” resultou da tomada de consciência culturaldos nacionalistas angolanos, em situação colonial, que teve como consequência, o posterior pragmatismo político, que culminou com a celebração da independência de Angola.
Na época da formação do conjunto “Nzaji”, o  jovem, José Eduardo dos Santos, tinha então vinte e dois anos, tendo fundado e orientado a estétia do Conjunto Nzaji, formação que primeiro se designou os “Derepente”, uma emanação e degenerescência do conjunto “Kimbambas do Ritmo”, criado em 1959, grupo que, à época, já acusava uma assinalável solidez estruturale criativa.
O conjunto “Nzaji” era constituído por José Eduardo dos Santos, composição,voz e viola, Pedro de Castro Van-Dúnem “Loy”, voz e composição, Brito Sozinho, voz e composição, Ana Wilson, voz, coros, Maria Mambo Café, voz, coros, Amélia Mingas, voz e coros, Mário Santiago, viola, Faísca, viola, Biguá, voz, Fernando Assis, piano e composição,  e Fernando Castro Paiva, ngoma, o conjunto “Nzaji” veio a tornar-se o paradigma da canção política na época da guerrilha.

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