Cultura

Rei e paradigma da canção escrita em língua kimbundu

Jomo Fortunato |

A III Trienal de Luanda prestou tributo ao cantor e compositor, Elias diá Kimuezu, considerado o Rei da Música Angolana, sexta-feira última, pela importância do conjunto da sua obra musical, no âmbito de um projecto continuado que visa a valorização e enaltecimento dos protagonistas da história da Música Popular Angolana.

Compositor de múltiplos recursos poéticos, Elias diá Kimuezu interpretou vários sucessos da sua carreira acompanhado pela Banda Movimento
Fotografia: Maradona dos Santos

Compositor de múltiplos recursos poéticos e paradigma da canção escrita em kimbundu, Elias diá Kimuezu é uma personalidade artística com forte enraizamento na cultura do saber popular. O pseudónimo, Kimuezu, refere-se à farta barba que usava, e são da sua autoria as melodias e os textos das canções mais representativas da história da Música Popular Angolana, inspiradas na expressividade da cultura kimbundu.
A frequência na Samba Kimúngua, bairro situado na zona do Bungo, em Luanda, local onde residiam operários do Porto de Luanda e dos Caminhos de Ferroque tocavam e dançavam o “Kinganje”, um género musical desaparecido, ocasionou a descoberta, aos 15 anos de idade, da sua vocação artística, facto que o levou a integrar a Turma do Margoso, de 1956 a 1957, como principal vocalista e tocador de“mukindo”, um instrumento tradicional também conhecido, vulgarmente, por bate-bate. Dois anos mais tarde, Elias diá Kimuezu integrou os “Kizombas”, uma pequena formação musical que se apresentava nas farras do Salão Malanjino, no Bairro Sambizanga, e, com o tempo, foi aprimorando a arte de interpretar, tornando-se cada vez mais conhecido.

Início da carreira


Filho de José Francisco e de Esperança Manuel da Silva, Elias diá Kimuezu é mensageiro de uma cultura que está muito próxima das tradições mais antigas da sociedade luandense. Elias José Francisco, seu nome próprio, nasceu na manhã do dia 2 de Janeiro de 1936, no Bairro Marçal, em Luanda, e, aos 7 anos de idade, tornou-se órfão de pai e mãe, facto que o obrigou a viver junto da avó, aos 12 anos, no Bairro Sambizanga. Foi com a avó que Elias diá Kimuezu aprendeu a falar, de forma escorreita e com notável fluência, a sua língua materna, o kimbundo. O sentimento nacionalista e o facto de ter vivido com a avó, que só falava kimbundo, obrigou-o a compor e cantar, somente nesta língua, uma proeza que o singulariza, enquanto rei, e confere uma dimensão marcadamente nacionalista à sua música. A ausência de condições afectivas e materiais, quer do lado paterno, como do materno, não possibilitaram a prossecução de uma escolaridade normal, daí que se entrega à música, para sobreviver, tanto do ponto de vista espiritual como material.

Grupo Ginásio


Vinte e dois anos depois do seu nascimento, em 1958, Elias Diá Kimuezu tomou contacto com o Grupo Ginásio, agremiação cultural e desportiva, como compositor, e, posteriormente, com os “Dikindus”, formação musical de operários da fábrica Textang I, em 1959, iniciou uma peregrinação musical, representando uma geração que, para além de uma atenta observação do quotidiano social dos musseques, absorveu, de forma directa, a filosofia dos costumes e a visão de um universo cultural subvertido pela opressão colonial. Integravam o Grupo Ginásio, nesta época, importantes nomes do nacionalismo e da política angolana: Engº José Eduardo dos Santos, guitarrista, compositor  e actual Presidente da República, Pedro de Castro Van-Dúnem (Loy), Brito Sozinho, Mário Santiago, Faísca e Buanga, (também conhecido por Balduíno), figuras do nacionalismo angolano que iriam formar, na guerrilha, o grupo “Nzagi”, uma emanação dos Kimbambas do Ritmo,  grupo fundado no musseque Sambizanga.

Elias em Portugal

/>Elias diá Kimuezu foi, em 1963, a voz principal dos Gingas, grupo musical do emblemático guitarrista Duia, perseguindo uma carreira que o levou a Portugal, em 1969, integrado no grupo de rebita do Mestre Geraldo, na sequência de um convite para participar no Festival Internacional de Folclore, realizado em Santarém, ficando em 2º lugar, num conjunto de 28 concorrentes. É nesta altura que gravou o seu primeiro single, pela editora Valentim de Carvalho, consequência da sua participação num espectáculo realizado na Casa da Comédia, em Lisboa. O seu desempenho, bem como dos restantes artistas, mereceu elevados elogios da crítica e dos analistas culturais portugueses, da época, e, na sequência, surgiu a proposta, prontamente aceite pelo cantor, de gravar mais dois “singles” pela Valentim de Carvalho. “Mualunga”, “Ressurreição”, “Muenhu ua Muto” e “Zom-zom”, as suas primeiras canções gravadas em disco, com as participações de Barceló de Carvalho, Bonga, Rui Mingas, Teta Lando e dos Marimbeiros de Duque de Bragança. A gala de lançamento teve lugar no Cinema Restauração. em Luanda, à época uma das salas de cinema de referência.

Concerto

No concerto realizado sexta-feira no Palácio de Ferro, Elias diá Kimuezo, voz principal, foi acompanhado pela Banda Movimento, constituída por Romão Teixeira, bateria, Diogo Sebastião, Kintino, guitarra ritmo, Teddy Nsingi, guitarra solo, Santos Fortuna, Massoxi, dikanza, Mias Galheta, baixo, Orestes dos Santos, Nino Gomes e Marcelino Neto, Chico Madne, teclas, Betty Coelho, Dorgan Nogueira e Joaquim de Lemos, Mister Kim, nos coros. Elias diá Kimuezo interpretou as canções, “Xamavu”, “Lumbi”, “Kalunga”, “Agostinho Neto”, “Katonho tonho”, “Eme nzorima”, “Samba Makia” e “Cidrália”. O concerto contou com as participações especiais de Joaquim de Lemos, Mister Kim, que interpretou “Ungamba”, Calabeto, “Muxima”, Nadine, “Nzala”, Santos Fortuna, Massoxi, “Kalunga” e “Mona ndengue”, e, por último, Katiliana que interpretou “Mamã kudilengó”, acompanhada por João Guia, saxofone soprano, e João Oliveira nas teclas.

Prémios e mais importantes distinções do rei Elias diá Kimuezu

Elias diá Kimuezu foi galardoado, em 1973, com o título de “Melhor Intérprete da Canção Angolana”, um prémio que era atribuído, anualmente, aos artistas que se destacavam na então Província de Angola, pelo CITA, Centro de Informação e Turismo de Angola.
Em 1972, em compensação pelo seu abnegado trabalho a favor da música, recebeu uma estatueta referente aos “onze mais da cidade de Luanda”, num ciclo que premiava as onze figuras mais destacadas, nas diversas áreas profissionais e culturais da cidade de Luanda.
Pelo valor patrimonial do conjunto da sua obra, e constância do seu desempenho, Elias dia Kimuezu foi considerado o rei da música angolana, distinguido com ceptro e coroa, pela UNAC, União Nacional dos Artistas e Compositores, numa cerimónia realizada, em 1995, no Restaurante Bordão, situado na ilha de Luanda, por ocasião da comemoração dos vinte anos de independência de Angola.
Elias diá Kimuezo foi galardoado com o Prémio Nacional de Cultura e Artes, edição 2007, uma distinção do Ministério da Cultura.

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