Revelação de uma voz promissora do afro-jazz

Jomo Fortunato|
26 de Janeiro, 2015

Fotografia: Paulino Damião

Cantora de múltiplos recursos vocais, Anabela Aya é, para além de prestigiada actriz, uma das vozes mais promissoras da nova geração de intérpretes do universo afro-jazz, e tem enveredado, de forma segura e modesta, pelos caminhos híbridos da renovação estética da Música Popular Angolana.

Antes de abordarmos, propriamente, a biografia artística de Anabela Aya, importa referir que o contexto musical angolano dos últimos 20 anos, tem sido abalado, positivamente, pelo surgimento de novas vozes e propostas musicais que, embora estejam fora do sucesso comercial da música de consumo imediato, representam um importante segmento que aposta nos benefícios artísticos da qualidade, pela renovação estética de clássicos do cancioneiro tradicional, e de temas referênciais da história da Música Popular Angolana.
Dos nomes que, actualmente, ressaltam pelos padrões de qualidade passíveis de internacionalização, destacam-se os cantores: Filipe Mukenga, Coréon Dú, Carlos Lopes, Sandra Cordeiro, Africannita,Totó, Gabriel Tchiema, Carlos Nando, exilado na Bélgica, Dodó Miranda, Derito, Irina Vasconcelos, Wyza, Hélder Mendes, Ndaka Yo Wiñi, Gari Sinedima, Toty Sa’Med, e, incontornavelmente, Anabela Aya.
Voz aclamada pela crítica mais exigente do gospel e do afro-jazz angolano, Anabela Aya pode estar próxima das vozes históricas do jazz norte-americano, no feminino, se trabalhar com esforço, modéstia e dedicação, atributos que, felizmente, têm orientado a sua jovem carreira.
Em palco, faz-nos lembrar, Dinah Washington, Sarah Lois Vaughan, Billie Holiday e, fundamentalmente, Ella Fitzgerald. Por esta razão, estamos certos que, no futuro, teremos uma cantora cuja expressividade, e ousadia poderá ultrapassar os limites da nossa doméstica, circunscrição artística.
Filha de Marcos Manuel Pipa e de Maria João Dias, Anabela Virgínia Dias Pipa nasceu no dia 9 de Setembro de 1983, em Luanda. Oriunda de uma família religiosa, Anabela Aya iniciou o seu contacto com a música aos cinco anos de idade,  ouvindo os cantares religiosos do coro da Igreja Metodista Independemente, Caridade, onde a mãe é professora.
Anabela Aya teve formação vocal na sua igreja, criando as bases técnicas que depois permitiram a sua versatilidade, e propensão para  interpretar os géneros: gospel, base da sua formação musical, bossa nova, soul, rythm & blues, reggae, semba, incluindo o fado. A cantora guarda consigo, e reproduz sempre que pode, as palavras de um apreciador da sua música: “A empatia que cria em quem a ouve é arrepiante. Sensualidade, emoção, “coolness” e amor são as palavras que a podem caracterizar!”
Sempre disposta a cantar para os vários espaços e eventos culturais, de média dimensão, onde é convidada, Anabela Aya já dividiu o palco com: Maya Cool, Tânia Tomé, de Moçambique, Tito Paris, de  Cabo Verde, Tricia Boutte e a Banda Gumbo da Noruega, Dodó Miranda, Mário Gama, e Nelo Carvalho.
A representação de pequenas histórias bíblicas, marcou o início de um processo que levou Anabela Aya para o Elinga Teatro, convidada, primeiro, pelo actor Raúl Jorge  Resende de Barros Rosário, para dar aulas de canto, tendo acabado por  participar na peça, “Guerra é guerra”, dirigida pelo actor Orlando Sérgio. Na sequência, seguiram-se várias  acções de formação na Escola da Noite  , em Coimbra, e pequenos seminários com a francesa Brigitg Bentolila, e o brasileiro Sérgio Menezes, promovidadas pelo Elinga Teatro.

Teatro


Sobre a relação de Anabela Aya com a música e o teatro, Raúl  Rosário, seu companheiro da vida teatral, fez o seguinte depoimento: “Fui eu quem levou a Anabela Aya para o teatro. Na altura precisávamos, com o Orlando Sérgio, de uma cantora,e, no processo de trabalho ela começou a ganhar o gosto pelo teatro. A Anabela sempre esteve dividida entre a música e o teatro, no entanto, reconheço que houve uma evolução na sua forma de representação, quanto mais não seja porque ela vem do teatro na igraja. Foi ela que me levou para a Igreja Metodista, e fui  influenciado, igualmente por ela, na prática do teatro bíblico. Ela tem um ritmo muito próprio de estar no teatro, no entanto gosto mais de vê-la cantar, embora saibamos que a música complementa o teatro, e há teatralização na interpretação musical”.

Depoimento


Dodó Miranda, uma das referências mais importantes do gospel angolano, e companheiro da música de Anabela Aya, fez a seguinte apreciação da cantora: “Não houve alteração substancial na forma de interpretação de Anabela Aya, comparada aos tempos em que a conheci , em  2005,  na Igreja Metodista Independente, Caridade. Digo, sem receio de errar, que estamos perante uma grande intérprete, que tem demonstrado muita calma,  ponderação, e precisão na sua atitude com a música, ou seja, gosto da forma como ela interpreta as canções, e a alma que ela  transporta no canto. Diria que ela tem uma forma de estar, musicalmente, muito singular, e, por esta razão, distingue-se das demais. Digo isto porque se avaliarmos a tipologia das canções que ela selecciona, apresenta-nos sempre propostas fora do comum. Só posso desejar sucessos, na sua jovem carreira.”

Concertos


Pela qualidade das suas interpretações e impacto da sua prestação vocal, Anabela Aya foi  figura de cartaz nas comemorações do Dia Internacional do Jazz, comemorado pela primeira vez em Luanda no dia 30 de Abril de  2014, no palco da Sala Angola I do Hotel Epic Sana, ocasião em que foi acompanhada pela Banda Afro Beat, constituída por  Mário Grarnacho (teclas), Gary Sinedima (voz), Fredy Mwankie (baixo eléctrico) e Joel Pedro (bateria). A cantora dividiu o palco com Tony Jackson, acompanhado nas teclas por Terinho Mumbanda, e o saxofonista, Nanutu.
Anabela Aya participou ainda no concerto em homenagem à figura e aos feitos de  Nelson Mandela, em Dezembro de 2014, na  Taberna Urbana, Rua dos Mercadores, em Luanda, em que participaram: Teddy Nsingi, Derito, Irina Vasconcelos & Edy British, Wyza, Hélder Mendes, Ndaka Yo Wiñi, Nuno & Ivo Mingas, Gari Sinedima, e Toty Sa’Med.
Em Novembro de 2014, prestou tributo, no Viana Restaurante & Casino, em homenagem ao falecido cantor e compositor, Carlos Nascimento, em que participaram Mário Garnacho, Gari Sinedima, Paula Agostinho e Vitor Hugo. Durante a sua carreira já dividiu o palco, com o cantor Pedro Malagueta, que gravou o LP “Recordando Nat King Cole”, o pianista e Maestro Terinho e o percussionista Dalú. Anabela Aya participou no concerto em homenagem ao Duo Tchisosi, realizado no dia 15 deste mês, no Elinga Teatro, tendo sido acompanhada pelo cantor, compositor e guitarrista, Toty Sa’Med. Em palco desfilaram, musicalmente: Manuel Vargues, vulgarmente conhecido por Cuca, Avelino Sande, Anabela Aya, Manuel Vitória Pereira, Duo Canhoto, Mauro do Nascimento, Coral Nzinga Brothers, Carlos Lopes e Tanga.

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