"Semba e Samba" cria união entre angolanos e brasileiros

Jomo Fortunato | Rio de Janeiro
16 de Novembro, 2015

Fotografia: Ricardo Vilas

Decorreu de 4 a 6 de Novembro no Palácio do Itamaraty o “Encontro Semba Samba”, no  âmbito dos 40 anos da independência de Angola, do mês da consciência negra no Brasil, e dos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro.

O evento, de natureza académica e cultural, juntou especialistas angolanos e brasileiros, ligados à história da música popular e comunicação social dos dois países.
A sessão de abertura, que decorreu na cave do Memorial Municipal Getúlio Vargas, situado no Bairro da Glória, contou com a presença de Rosário de Ceita, Consul Geral de Angola, em representação do Embaixador de Angola no Brasil, Nelson Cosme, e José Sérgio Leite Lopes, Director do Colégio Brasileiro de Altos Estudos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Na ocasião o antropólogo, e um dos organizadores do encontro, Ricardo Vilas, disse que: “O Brasil e Angola têm uma história compartilhada de mais de cinco séculos. Pretendemos atravessar estes três dias de trocas de experiências e informações, para conhecer o passado, compreender e projectar o futuro. A música sim, como porta de entrada, ou como chave para a compreensão dos fenómenos sociais, como retrato, expressão, ou reflexo de uma sociedade, de um contexto, como elemento de construção da narrativa e do edifício social. A isso tudo, junta-se o prazer da escuta, do cantar, do tocar, e do versejar”.
Segundo podemos ler no prospecto informativo, a organização do “Encontro Semba Samba”, entende que: “As relações entre a África e o Brasil sempre foram intensas, e determinantes na formação da nação brasileira. Angola, neste fluxo, destaca-se como uma referência fundamental, pelos laços que unem os dois países, desde a colonização portuguesa até ao tráfico escravos, provocou o maior transplante da história da população entre os dois continentes, até as parcerias económicas e culturais da contemporaneidade”.

Encontro

Moveu a realização do “Encontro Semba Semba”, o facto de a organização acreditar que a cultura e a música constituem um terreno fértil para o estudo de uma sociedade, daí que o encontro teve como foco a circulação de música popular urbana dos dois países.  Trabalhando com a relação semba e samba, duas músicas populares emblemáticas, de  Angola e Brasil, o encontro pretendeu, por um lado, fazer um balanço desta circulação, seus momentos fortes, e pontos de convergência ou divergência entre ambas as músicas, e seus protagonistas.
Ao desigarem o “Encontro semba e samba”, o certame não silencia as outras músicas que, nos dois países, fazem parte da construção das suas musicalidades híbridas, ou que delas derivam, ou se inspiram. Assim, as manifestações mais recentes da música popular em Angola, kizomba, kuduro, hip hop, e no Brasil, axé, funk, e rap foram igualmente abordadas. Fizeram parte da organização: José Sérgio Leite Lopes, Ana Célia Castro, Ricardo Vilas, Tatiana Bacal, e na produção exccutiva: Stephanie Malherbe, e Gabriela Lantos.

Semba


O processo de transposição do rítmo da percussão da “Massemba”, dança de umbigada, para as guitarras de Liceu Vieira Dias, José Maria, e, fundamentalmente, Nino Ndongo, três importantes guitarristas do emblemático, Ngola Ritmos, deu origem ao Semba. O semba veio a ser aborvido por importantes guitarristas posteriores como José Keno, dos Jovens do Prenda, que diz ter sido influenciado pela generalidade da música do Ngola Ritmos, Duia, do conjuntos os Gingas, Marito Arcanjo dos Kiezos, sobretudo nas canções “Rosa Rosé” e “Mua Pangu”, Botto Trindade, dos Bongos, que herdou a rítmica do Ngola Ritmos, por intermédio de Carlitos Vieira Dias,  Manuel Marinheiro do África Ritmos, Mingo, dos Jovens do Prenda, e Quental, do agrupamento Águias Reais, dando início ao processo de consolidação do semba até a actualidade.

Samba

Para além da origem angolana do termo Samba, Euclides Amaral, poeta, letrista e investigador do Instituto Cultural Cravo Albin, que possui nove livros publicados, entre eles “Alguns aspectos da Música Popular Brasileira”, pela Esteio Editora, defende que “o termo “samba” também significava “festa”, e assim permaneceu durante muito tempo, tanto que Noel Rosa, compositor que pertenceu à segunda geração do samba, junto ao pessoal do Estácio, usou o termo num dos seus maiores sucessos que traz o seguinte verso “Com que roupa eu vou ao samba que você me convidou?” (1930). Na letra o termo é usado como sinónimo de “festa” e não como designação de um género musical, como já era corrente naquela época. No Rio de Janeiro em pleno século XX, o termo ainda era usado como designação de “festa”. Sabe-se que em outros estados, principalmente no Nordeste, a palavra “samba” também é reconhecida com esta função, tais como os improvisos de maracatu na Zona da Mata e nas ruas de Pernambuco, os quais são chamados, “samba”.

Brasileiros

Participaram no “Encontro Semba Semba”, os especialistas brasileiros: Adriana Facina, historiadora, que apresentou o tema “O funk me apresentou ao kuduro: reflexões sobre diálogos musicais entre periferias”, Amanda Palomo Alves, historiadora, que defendeu o tema: “Angolano segue em frente”: a canção urbana de Angola do século XX e as novas possibilidade de pesquisa e investigação histórica, Hugo Sukman, jornalista e crítico musical, falou sobre “Rio, o musical. Histórico da música brasileira no Rio de Janeiro, até chegar na situação actual, tendo o samba como eixo”, Leandro Mendonça, professor e pesquisador de cinema, cujo tema da palestra foi, “Um cinema sem laboratório. Exibição em Angola e modos de produção em África”, Leonardo Santana da Silva, historiador, defendeu o tema: “Tradições e modernidades nos tempos do choro e samba: um campo de observações entre o choro imperial pré-fonográfico em contraste com o samba republicano fonográfico”, Luena Nascimento Nunes Pereira, graduada em Ciências Sociais, o seu tema foi: “Angola, África contemporânea, identidade étnica, nacionalismo, identidade ­religiosa, relações raciais, marcadores sociais da diferença, ensino de História e Cultura africana e afro-brasileira”, e Nilton Santos, antropólogo, que apresentou o tema: “Desfilando África na Sapucaí: narrativas carnavalescas sobre Angola”. Ao longo dos três dias do Encontro moderaram os debates: Sónia Giacomini, Ricardo Vilas, Wagner Chaves, Ana Célia Castro, e Heloísa Buarque de Holanda.

Angolanos

António Sebastião Lino, graduado em História pelo ISCED, Instituto Superior de Ciências da Educação, da Universidade Agostinho Neto, e Administrador de conteúdos, informação e programas da Rádio Nacional de Angola, desde 2012, que dissertou o tema: “A contribuição da Rádio Nacional de Angola na valorização e divulgação da música angolana nos 40 anos de Independência, Dionísio Patrocínio Nogueira da Rocha, Dionísio Rocha, falou dos temas: “A música urbana angolana e a luta pela independência” e os “O Semba, expressão de angolanidade - música de Kota ou música nacional?”, e Filipe Silvino de Pina Zau, cantor, compositor, poeta e investigador, Bacharel em Ciências da Educação, e pedagogo, defendeu os temas: “Música, política, identidade “lusotropicalismo e angolanidade”, e Angola, Brasil: século XXI “A construção de uma nação e os factores que concorreram para a divisão do movimento nacionalista angolano”.

Projectos


Segundo os organizadores, o “Encontro Semba Samba” servirá de modelo para a realização de futuros seminários que vão incorporar  a discussão da história dos países de língua oficial portuguesa, além de Angola e Brasil: Cabo Verde, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, e Timor Leste. O “Encontro Semba Samba” será um momento propício para o lançamento do “Grupo de Pesquisa sobre Circulação Musical” na Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa, com palestras, debates e concertos, tendo como foco a circulação da música e cultura entre Brasil e Angola, e suas implicações ou desdobramentos na política e na economia.

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