Cultura

Talento e sensualidade com Don Kikas em palco

Honorato Silva

Talento e sensualidade foram as notas dominantes da passagem de Don Kikas pelo Show do Mês, na sexta-feira e no sábado, no anfiteatro do Royal Plaza Hotel, em Talatona, com lotação esgotada nas duas noites.

Raquel Lisboa escoltou Don Kikas na viagem pelos sucessos de carreira no Show do Mês
Fotografia: Foto cedida pela Organização

Vestido pela D’Santos, nova parceira do projecto da produtora Nova Energia, o cantor e compositor angolano pisou o palco, dois anos depois do último concerto no país, para um verdadeiro banho de carinho e reconhecimento, sobretudo do público feminino, presente em esmagadora maioria.
Em duas horas, Don Kikas, nome artístico de Emílio Camilo Costa, viajou pelos sucessos de uma carreira iniciada em 1994, nas noites de Lisboa, com actuações em discotecas, sem precisar de muito tempo para colocar o primeiro rebento no mercado. Foi logo em 1995, baptizado como “Sexy Baby”.
Suportado pelos 15 músicos e instrumentistas de Angola, Cuba e Portugal da Banda Show do Mês, o cabeça de cartaz da quarta estação da quinta temporada da marca cultural recuou mais de duas décadas para embarcar em “Pura Sedução”, disco lançado em 1997, que acabou transformado em certificado de aceitação, pelo grande público, da proposta criativa assente numa temática dominada por relatos do quotidiano, salpicados de memórias da infância vivida no bairro Prenda, bem como por anseios e frustrações amorosas, nas sonoridades da kizomba e do semba, antes reduto sagrado dos mais velhos, com incursões pela kazukuta e kilapanga.
E foi mesmo a seguir ao tema que deu nome à obra, com a qual conquistou vários prémios, como o primeiro “Disco de Prata”, pelo sucesso de vendas, que a banda executou, muito próximo do original, “Esperança Moribunda”, distinguida como “Música do Ano”, pela Rádio Nacional de Angola. A estranheza resultou do facto de normalmente os alinhamentos deixarem para o fim as canções mais badaladas.
Ainda num compasso agitado, Don Kikas interpretou em “medley”, antes de cantar “Volta”, uma amostra do próximo single, os temas “Sexy Baby” e “Ficou Coxito”, aqui com a participação de Raquel Lisboa. Do Norte de Angola trouxe “Nzala”, a fome enxotada em kikongo, por falta de espaço, ocupado depois por “Como foi bom” e “João dya Nzambi”, momento em que a plateia foi no embalo da história do professor engatatão, “ngombiri de profissão”, que misturou alfabetização “com acrobacias”.
Na primeira pausa para descansar a voz, chamou ao palco outro ícone da geração de 1970, revelado na segunda metade da década de 1990. Ágil na dança, apesar do peso da idade, Pato cantou “Angola e Cabo Verde”, “Cely” e “Mulata”. Nos agradecimentos, elogiou a organização, por valorizar os cantores: “O Show do Mês é top. Até para beber água tem alguém pronto a servir. É único no país!”
No regresso ao palco, o anfitrião sentou-se ao piano e exibiu os dotes de artista completo, em “Deus”, balada que ajudou a descomprimir. “Muxima”, original de“Ngola Ritmo”, completou o momento mais calmo nas duas noites de emoção e sensualidade.
“Amor de Ninguém” foi o pretexto para a entrada em cena de Carla Moreno, outra convidada especial, num muito bem apanhado vestido em tons de amarelo, a combinar com a pujança da voz maturada nos mares de Cabo Verde, país distinguido em “Viagem pela lusofonia”, homenagem marcada pela singularidade do fraseado de Don Kikas, na execução do violão, sem o mínimo receio de tropeçar no dedilhado, ao passar da cadência da kizomba e do semba para a Bossa Nova (Brasil), marrabenta (Moçambique) ou fado (Portugal), quando da Guiné Bissau visitou “Si bu stadianti na luta”, obra-prima de José Carlos Schwartz, que imortalizou Amílcar Cabral.
 
Uma cassete refém
A presença de Emílio Costa no Show do Mês foi além do contrato celebrado entre o artista e a produtora, para a realização de dois concertos. Redundou num verdadeiro encontro de angolanidade e cidadania, mesmo com o ambiente de luto causado pela morte de Ambrósio Narciso, conselheiro do casal Yuma e Yuri Simão.
Adriano Sapinãla, deputado à Assembleia Nacional, pela bancada da Unita, partilhou, num dos ensaios, memórias de infância e juventude. “Enquanto militar, estive numa operação que culminou na ocupação de uma área, onde fiz refém uma cassete do Don Kikas, cujas músicas ouvíamos antes no “Discolândia”, aos sábados à noite, na RNA. Depois, com a cassete, ouvíamos a todo o momento. Temos de valorizar estes símbolos da nossa cultura e angolanidade. Digo o mesmo do Caló Pascoal, Eduardo Paim, Irmãos Almeida e Paulo Flores”, apelou.
“Esperança Moribunda II” e “Saquirima”, a namorada que ficou em Angola, “Sexta-feira”, “Patos fora”, “Angolanamente sensual”, “Na lama do amor”, “1900 e Kabuza” e “Semba Matinal/Ngaieta” fecharam o espectáculo em apoteose.

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