Tchiema e a poética da cultura chokwe

Jomo Fortunato |
15 de Fevereiro, 2016

Fotografia: Domingos Cadência

O cantor e compositor  Gabriel Tchiema  e o grupo de dança tradicional “Luar thakotchetu”, da Lunda Sul, foram as principais atracções da cerimónia que marcou a mostra pública de duas máscaras, “Mwanapwo”, designadas,  “Lwenalumbala”, e “Xinjikamaxilo”, respectivamente, e uma estatueta da arte clássica angolana, pertença do Museu do Dundo,

recuperadas, com assinalável êxito, pela Fundação Sindika Dokolo.Gabriel Tchiema, convidado especial à cerimónia, canta em chokwe e transporta o estigma de uma voz que celebra de forma sublime a poética da angolanidade. A sua obra traduz uma música de feição identitária, entendida no seu sentido plural e inclusivo, que possui características, ao nível do ritmo, melodia e harmonia, passíveis de emigrar com assinalável êxito para os circuitos mais exigentes da chamada World Music.
A mãe de Gabriel Tchiema, Emília Natunga, possuía uma voz afinada e cantava para o então menino, canções de embalar da lavoura do campo. Eram pequenos trechos em língua local que marcaram, de forma profunda e decisiva, o imaginário e o universo criativo do cantor.
Oriundo dos kaítakatembo, Lunda-Sul, grupo conhecido pelas habilidades artísticas, António Gabriel, seu nome de baptismo, nasceu, no município do Dala, no dia 15 de Novembro de 1966 e frequentou, no Huambo, o curso médio pré-universitário em ciências sociais. O pai, Miúdo Gabriel, foi um exímio bailarino conhecido além das redondezas dos kaítas, designação abreviada do seu grupo étnico.Com apenas oito anos, a família emigrou para Zâmbia, onde, em 1968, teve o primeiro contacto com o banjo, instrumento pelo qual se afeiçoou e começou a extrair os primeiros acordes.
Em 1984, no cumprimento do serviço militar obrigatório, Gabriel Tchiema ingressou nas FA.PLA, onde aprendeu de forma incipiente as primeiras notas de guitarra. Deste período lembrou os preciosos ensinamentos de Julião, colega do Exército. O irmão, Tchizainga, ofereceu-lhe uma guitarra, o que lhe permitiu aperfeiçoar o domínio deste instrumento.
No nono mês de recruta foi destacado para a segunda região militar, no centro de comunicações fixo de Cabinda, e é na sua direcção política que ajudoua fundar o grupo musical ASP,  Ao Serviço do Povo, do seu destacamento, que foi apurado na fase provincial do Festival Nacional da Canção Política das F.A.P.L.A, Forças Armadas Populares de Libertação de Angola.
Em 1987, o grupo venceu com Gabriel Tchiema, o festival militar na modalidade trova, o que levou a direcção da região a autorizá-lo a frequentar um curso de música no regimento cubano, em missão internacionalista em Angola, onde aprendeu noções de piano. Tal facto habilitou-o a integrar, em 1989, como pianista profissional, a banda “El BéreMassaba”, uma formação tipicamente congolesa. Seguiu-se o Festival da Canção Política, no Lubango, onde conquistou o segundo lugar, classificado por um júri rigoroso presidido pelo conhecido cantor e compositor Moisés Kafala. Após ter cumprido o serviço militar, em 1990, Gabriel Tchiema decidiu prosseguir uma carreira a solo, empreendendo múltiplas tentativas de recriar sonoridades originais, numa altura em que se vivia em Angola uma acentuada ausência da música de outras latitudes e da quase inexistência de gravadoras.

Mostra

A mostra, que decorreu sábado último no Palácio de Ferro, contou com a presença da Ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, do Presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, do Presidente da Fundação Sindika Dokolo, da Vice-Governadora para área social da Província de Luanda,  Jovelina Imperial, da Vice-Governadora para área económica da Lunda-Norte, Deolinda Vilarinho, do PCA da Endiama, Engº Carlos Sumbula, do Embaixador Itinerante, António Luvualu de Carvalho, e do Secretário de Estado da Construção, Euclides Manuel de Carvalho, e de distintas personalidades.

Concerto


No concerto do Palácio de Ferro, com muita dança e vivamente aplaudido, Gabriel Tchiema, voz e violão,  interpretou: “África uami”, “Tambwoka”, “Mungole”, “Xi yami”, “Tchilota”, “Celebração”, “Mulekeleke”, “Issaka”, Ndako pi”, “Azwlula”; “nanini”, “Mbimba, e “Itela”, tendo sido acompanhado por Henrique Cláudio, baixo, Mavinga Ndombasi, guitarra solo, Pedro Bansimba, piano, Pedro Nsingui, bateria, e Roberto Bodi, na percussão.

Trienal


A programação de concertos da III Trienal de Luanda pretende enaltecer a qualidade artística dos cantores, compositores e instrumentistas angolanos, valorizando um segmento musical reflexivo e experimental, que, normalmente, está distante do grande sucesso comercial da música de consumo imediato. Neste sentido, já desfilaram no palco do Palácio de Ferro bandas e cantores conceituados e emergentes: a Banda “Afra Sound Star”, o cantor compositor e guitarrista, Carlitos Vieira Dias, acompanhado por Nanutu, saxofone soprano, Dalú Roger, percussão, a Banda Next, formação jovem que funde canções referenciais da Música Popular Angolana, segmentos de rock, e referências da soul music norte americana,  Anabela Aya, uma das vozes mais promissoras do universo afro-jazz angolano, Duo Canhoto, formação que representa, na actualidade, a vanguarda mais prestigiada da trova angolana, e da musicalidade endógena da cultura angolana, Ndaka Yo Wiñi, cantor e compositor que valoriza a tradição pela estética da modernidade, e Gari Sinedima, referência incontornável da nova geração de cantores e compositores.

Festivais


O convite para a Expo-Japão, em 2005, serviu para avaliar a recepção da música de Gabriel Tchiema, perante um público estrangeiro e heterogéneo, constituindo a base motivadora de reflexão para a prossecução da sua carreira como cantor.
Cabeça de cartaz no Festival da Canção de Luanda, em 2006, como convidado especial, Gabriel Tchiema moldou neste concerto, a perspectiva da pré-produção do CD “Azwlula” que recupera a alma melódica da tradição musical tchocwe, exalando uma expressividade poética que se socorre do fraseado do jazz e tipifica um género que se augura não passageiro, distante das facilidades de concepção. Gabriel Tchiema participou também no  Luanda International Jazz Festival, 2010, Cape Town International Jazz Festival, 2012, e no Cabo Verde,  AME-atlanticmusic expo, no ano de 2013.

Discografia


Perante um turbilhão de tendências e experiências musicais, o músico Gabriel Tchiema viveu um período de indecisão estilística e gravou, em 1988, o CD “Yena Nhiyami”, com as canções “Yena Nhiyami”, “Hwimambunge”, “Acerca-te, “Hipocrisia”, “Só pra mim”, “Mónica”, “Dona”, “Falangamume”, “Cassule”,  e uma versão (instrumental), de “Yena Nhiyami”.
Este CD foi o aproveitamento de uma  oportunidade para gravar, satisfazendo mais os desígnios da editora do que da real intencionalidade estética do cantor.
Em 2015, Gabriel Tchiema lançou o CD “Azwlula”, que teve a participação de Walter Ananáz (violão), Dalú Roger (percussão), Mr. Jam (bateria), Freddy, Samy, Maurício Pacheco e Wando Moreira (baixo), Teddy Nsingui, Manecas Costa, e Boy G. Mendes (guitarras), Nino Jazz (teclas), Ciro Bertini (acordeão e flauta), Rowney Scott (sax soprano), Serginho Trombone (trombone), Joatan Nascimento (trompete), Vicente Bucher (harmónica) e os coros de Beth, Aninhas e Sandra Cordeiro. As canções: “Yssaca”, “Azwlula”, “Kashilikilo”, “Ndko oi”, “Tweyakwno”, “Amor divino”, ”Pibimba, “Salsa Pabo”, “Ngunay”, “Hoje choro”,“Twkale”, “De dor chora o amor”.
De assinalar a prestação técnica dos músicos angolanos: Nino Jazz, Teddy Nsingui, Dalú Roger e Wando Moreira, que empreenderam válidas propostas de acompanhamento e conferiram virtuosidade e padrão internacional ao disco. Com “Azwlula”, estamos perante uma válida contribuição para a renovação estética da música angolana, com ingredientes passíveis de uma resoluta inserção no universo da música africana de êxito internacional.
Gravado em Angola, França e Cuba, o CD “Mungole”, que significa chuva miudinha e incessante, teve a produção do pianista Nino Jazz, do guitarrista Simmons Massini, do baixista Freddy e do próprio Gabriel Tchiema.
Na sequência do disco “Azwlula”, “Mangole” revisita as variáveis tchianda e macopo, géneros tradicionais da Lunda-Norte e Lunda-Sul, numa distensão estilística que vai do afro-jazz ao latin Jazz, passando pelo afro-funk e afro-soul, incluindo tendências da música rock.
 Fazem parte do CD “Mungole”, as seguintes canções: “Mulekeleke”, “Mungole”, “Celebração”, “Kapelete”, “Itala”, “Tambwaka”, “Ushiwa”, “Sem pudor”, “Tchilota”, “África Yami”, “Nguholese”,  e “Tchilombola”.
Gabriel Tchiema está no Top 40, da “World music da ethnocoud”, uma Rádio dos Estados Unidos da América.

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