Cultura

Tributo a Filipe Mukenga no Palácio de Ferro

Jomo Fortunato |

O cantor e compositor Filipe Mukenga retornou ao palco do Palácio de Ferro para um concerto, realizado sexta-feira última, no âmbito da segunda fase do ciclo de homenagens da III Trienal de Luanda, um projecto que visa a valorização e enaltecimento dos protagonistas da história da Música Popular Angolana.

O cantor é o resultado de uma peregrinação apaixonada por vários estilos e tendências musicais que passam pela recolha da tradição
Fotografia: Orlando Sambo | Trienal de Luanda

Na abertura do concerto em sua homenagem, Filipe Mukenga agradeceu a iniciativa da Fundação Sindika Dokoloe o público presente, nos seguintes termos: “Queridos amigos e fãs aqui presentes, o meu muito obrigado pela vossa presença, que muito me honra, e pelo calor e carinho que me enviam dos vossos lugares. Já me apresentei diversas vezes neste espaço do Palácio de Ferro, mais propriamente no palco “Ngola”. Foram noites grandiosas e inesquecíveis de beleza musical e de cultura. Entretanto, esta noite que também é de música e de cultura, é especial porque é uma noite de homenagem e reconhecimento do trabalho que venho desenvolvendo ao longo de mais de cinquenta anos de carreira artística. Estou feliz com o facto. A Fundação Sindika Dokolo homenageia-me nesta noite em que vocês, que sempre me aplaudiram, testemunham o acto e a Fundação, não se poupando a esforços, através da Trienal que organiza outras actividades culturais, tem levado bem alto a bandeira da nossa cultura da sua música e seus talentos, muitos dos quais completamente esquecidos, voltaram à ribalta da arte da combinação dos sons, pela mão da III Trienal de Luanda, encantando, todos quantos por aqui passaram, mostrando que na  arte não há velhos e novos…”
Filipe Mukenga é o resultado de uma peregrinação apaixonada por vários estilos e tendências musicais, que passam pela recolha da música tradicional angolana, pelas influências da Música Popular Brasileira, pelo rock e pelas sugestões rítmicas e vocais do jazz.

Percurso


Filipe Mukenga pisou o palco pela primeira vez no programa “Chá das seis’’, realizado no antigo cinema restauração, em Luanda, com apenas catorze anos de idade, interpretando a canção “Donne tes seize ans” de Charles Aznavour. Na adolescência viveu intensamente o período em que a música portuguesa e a eclosão dos “Conjuntos de música moderna”, conviviam, nos míticos anos sessenta, com os segmentos mais representativos da Música Popular Angolana.Tal facto deu azo à sedimentação e continuidade do período da renovação estética, movimento que teve como principais arautos Vum-Vum, pai do rock angolano, Rui Mingas, André Mingas, Filipe Zau, Waldemar Bastos, e o próprio Filipe Mukenga.
Filho de Anacleto Gumbe e de Isabel André, Francisco Filipe da Conceição Gumbe nasceu no dia 7 de Setembro de 1949 na maternidade velha de Luanda.Grupos como “Os electrónicos’’, do Vum-Vum, “Os rocks’’ de Eduardo Nascimento, os “Black stars’’ do Gerónimo Belo, os “ The windes”, do baterista Beto Silva, “A nave”, de José Eduardo Sambo e João Silvestre, “Os gémeos 4”, do José Agostinho, e os “Five kings”, do Mello Xavier e Tito Saraiva, contribuíram para que se efectivasse a abertura dos ritmos de raiz angolana às experiências de renovação, inclusão e fusão.
Filipe Mukenga, que recorda e valoriza a influência do canto litúrgico da Igreja Metodista na sua música, passou pelos “Indómitos” e “Apollo XI”, dois conjuntos da então apelidada música moderna. De notar que a designação “Conjuntos de música moderna”, surgiu em oposição aos agrupamentos de música de raiz angolana, tal como os “Kiezos” e “Jovens do Prenda”.

Exército

A passagem de Filipe Mukenga pelo exército colonial foi de suma importância para a construção de uma consciência artística voltada para revalorização estética da música de emanação rural. Neste período, Filipe Mukenga aprendeu a filosofia e a cultura musical de várias regiões do país, sobretudo a dos umbundus e dos kwanyamas, através do convívio com os soldados que cumpriam o serviço obrigatório da tropa colonial, provenientes de diferentes grupos étnicos angolanos.

Misoso


Terminado o serviço militar, em 1973, Filipe Mukenga fundou, com José Agostinho, que conhecera no conjunto “Apolo XI”, o “Duo Misoso”, uma formação que transportou para o canto e guitarra os ritmos absorvidos da experiência no exército. Em 1980, um facto importante marcou o início da internacionalização de Filipe Mukenga- o encontro com o cantor alagoano Djavan. Integrado numa importante caravana artística brasileira, Djavan visitou Angola através do histórico Projecto Kalunga, e decidiu incluir no seu álbum Seduzir, 1982, os temas “Nvula’’ e “Humbiumbi’’, transformando-os em sucessos internacionais, com interpretações de Flora Purim, Estevão Gibson, Silva Nazário, Paulo de Carvalho, Abel Duerê e dos grupos brasileiros “Banda mel” e do “Fundo do quintal”.Com a morte de José Agostinho, seu companheiro do Duo Misoso, Filipe Mukenga homenageou o seu amigo com a canção “ Blues pala nguxi’’, numa das interpretações mais notáveis da sua carreira.

Discografia


Em 1990, Filipe Mukenga criou a banda Madizeza com KinitoTridande, baixo, Rui César, teclas, Marito Furtado, bateria, e Joãozinho Morgado, tumbas. A Banda Madizeza foi a formação de base com a qual Filipe Mukenga gravou, em Portugal, o álbum “Novo Som’’, 1991, o primeiro da sua carreira, com a participação do cantor português Rui Veloso na harmónica. “Kianda Kianda”, 1995, o segundo álbum de Filipe Mukenga, é uma proposta musical mais africana, ao nível das harmonias, um CD que consagrou a versatilidade de Filipe Mukenga junto das elites musicais africanas com residência em paris. “Kianda Ki Anda” foi eleita no “Top Kilimanjaro da Rádio 1”, do Gabão, emparceirando com ícones da música africana. A parceria entre Filipe Mukenga e Filipe Zau, a nível da produção textual, em mais de oitenta canções, muitas das quais não gravadas, data de 1978. Com Filipe Zau surgiu “O canto da sereia, o encanto” uma opereta em duplo álbum que narra a saga dos marinheiros angolanos na época colonial, conto com as participações de Carlos Burity, Eduardo Paim, Katila Mingas e o cantor português Fernando Tordo. “Muimbu iami”, minhas canções, gravado no Brasil, Salvador da Bahia, a penúltima obra discográfica de Filipe Mukenga, contou com a prestimosa colaboração de Djavan, um reencontro que exaltou o lado “afro” do cantor Brasileiro. “Nós somos nós”, 2009, acusa, de forma visível, o lirismo das guitarras da banda de Zeca Baleiro, cantor e compositor brasileiro do Maranhão da geração pós-tropicalista. Gravado no Rio de Janeiro e São Paulo, o CD conta com as participações especiais de Vânia Abreu, na canção “Aprisionar a negra noite”, de Martinho da Vila, no tema “Paquete”, e do produtor do CD, Zeca Baleiro, na canção “Uma volta e meia”. “Meu lado Gumbe”, 2013, é o seu CD mais recente.

Concerto

No concerto de sábado, bastante aplaudido, Filipe Mukenga revisitou a sua portentosa discografia e interpretou, no primeiro momento, as canções, “Yalta”, “Quero o meu descanso”, “Mulheres do Golungo Alto”, “Dilombe” e “Ji Minina”, acompanhado pelo violão acústico de Mário Gomes. No segundo momento acompanhado pela banda constituída por, Nino Jazz, direcção musical, arranjos e teclas, Mário Gomes, violão e guitarra, Dalú Roger, percussão, Pedro Aguilar, baixo, Mário Gomes, violão acústico e guitarra solo, Ivan Campillo, bateria e Dalú Roger na percussão, Filipe Mukenga interpretou as canções, “Blues pala nguxi”, “Nvula”, “Muloji”, “Vutuka I loveyou”, “Humbiumbi”, “Angola no coração”,que o público cantou e aplaudiu de pé, e “Ixiietuiatuluka”.

 

“É um intelectual voltado para a arte de criar canções”

O letrista e compositor musical, Filipe Zau, amigo inseparável de Filipe Mukenga, fez o seguinte depoimento sobre o cantor: “Dirão, eventualmente, alguns, que pela cumplicidade musical e irmandade, que, de há trinta anos a esta parte me liga ao Filipe Mukenga, eu não poderia nem deveria ser a pessoa mais indicada para falar dele e da sua obra. Talvez tenham razão (!?). Mas eu já o fiz e mais de uma vez, em outras ocasiões, nomeadamente, no meu livro “Notas fora da Pauta” em que lhe apelidei de “Sr. Dissonância”. Por maior que seja a procura de distanciamento para a necessária imparcialidade entre este meu testemunho e a parceria que a ele me liga, sempre há algo que me escapa: o direito à razão da minha própria emoçãO. Não posso esconder que, para além desta parceria, que, felizmente, tem dado frutos, nutro pelo Mukenga a maior admiração pela forma como ele compõe e interpreta, o que me leva a criar alguma inibição para pegar no violão, desenhar melodias e construir harmonias. Nesta matéria ele é um mestre e em Angola ainda não vi ninguém com a sensibilidade e o conhecimento necessários para entrar por esse caminho, com a complexidade que ele o faz. Daí que me limite apenas a escrever para ele e já me dou por muito feliz. Há diferenças acentuadas entre as simples cançonetas e as canções feitas com bonitas melodias e harmonias bem estruturadas. Neste último caso, está, entre muito poucos no nosso País, o Filipe Mukenga. Daí que as cançonetas, por maior ruído que produzam durante algum tempo, deixem de ser ouvidas pouco meses depois de serem dadas a conhecer a público. Cansam, porque são músicas descartáveis. Contrariamente, as canções do Mukenga requerem uma maior atenção por parte de quem as escuta. Situam-se ao nível mais elevado das canções populares de carácter urbano. São diferentes daquelas que mal começam, já se sabe como acabam. As canções do Mukenga não, porque ele não é só mais um músico. É um intelectual voltado para a arte de criar canções com uma sonoridade requintada.   Assenta-lhe bem, sem dúvida alguma e eu aplaudo de pé, o facto de lhe ter sido atribuída mais esta grande homenagem”.

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