Tributo a Kituxe

Jomo Fortunato |
13 de Abril, 2015

Fotografia: Domingos Cadência

Sobrevivente da primeira formação dos “Kiezos”, e um dos seus mais carismáticos fundadores, Kituxe resistiu a todas  intempéries do grupo, atravessou os seus períodos mais marcantes, e mantém viva a chama da memória de uma das formações musicais mais emblemáticas da história da Música Popular Angolana.

Cantor, percussionista e guitarrista, Kituxe é um dos simbolos vivos da história dos “Kiezos”, e conhece os pormenores mais surpreendentes da história do grupo.
“Nós ensaiávamos todos os dias. Ao contrário do que possa parecer, o Marito Arcanjo era muito tímido. Embora tenha sido discípulo do Duia, do conjunto “Os Gingas”, ele não sabia o nome das notas musicais. Chegava a casa, pensava num tema instumental, e na manhã seguinte convocava o ensaio. Era muito exigente,  e tinhamos sempre uma música pronta para gravar, ou tocar em público. O Marito é meu mais velho, nasceu no dia 12 de Maio de 1948, e  passei toda a minha juventude com ele. O Marito, Humberto e o Adolfo Coelho viveram em minha casa,  éramos muito unidos. Por esta razão é que nunca houve deserções para outros grupos”,  lembrou Kituxe.
Enquanto percussionista da sua turma de bairro, Kituxe tocava, em simultâneo, num grupo musical da Fábrica Textang, sendo depois transferido para outra instância  textil, a Macambira. Os proventos do seu parco salário, oitenta escudos à época, foram investidos na aquisição da primeira viola de caixa do Marito Arcanjo, comprada ao agrupamento, “Cabulos do ritmo”.
Filho de António Miguel da Silva e de Maria João José, Domingos António Miguel da Silva, Kituxe, nasceu em Luanda, no bairro Sambizanga, no dia 15 de Abril de 1950.  Começou numa turma do  Bairro Marçal, em 1964, junto da rua do Kapolo Boxi, com Mário de Sousa Arcanjo (guitarra solo),  Aristófanes Rosa Coelho (dikanza), António Alves do Nascimento Sobrinho,  Avózinho, (percussão, caixa), núcleo duro anterior à fundação sólida dos Kiezos, a que se juntam depois, Juventino de Sousa Arcanjo (Percussão, caixa), irmão do Marito Arcanjo, e Adelino Moreira de Lemos, Fausto Lemos, vocalista na primeira fase do grupo.
Antes do surgimento dos Kiezos, com designação e formação sólida, o grupo tinha apenas uma guitarra, executada pelo Marito Arcanjo, que recebia lições do Duia, durante as tertúlias na casa da irmã do Marito Arcanjo, momentos em que o Kituxe esteve sempre presente.

Homenagem

Kituxe participou na homenagem dos “Kiezos”, realizada  no dia 5 de Maio de 2013 no Centro Cultural e Recreativo Kilamba, em Luanda, no âmbito do programa Muzongue da Tradição, ocasião em foi rendida uma homenagem aos integrantes do grupo, já falecidos: Vate Costa, Zecax, Juventino,  e Adolfo Coelho.  Na ocasião a nova formação dos Kiezos, Décimos (viola baixo), Zeca Tirilene (viola baixo e ritmo, Hildebrando Cunha (viola  solo), Abana Mayor (tumbas), Dedé (viola ritmo), Neto (teclados), João (bateria), Mister Quim e Manuelito (vozes e dikanza), Horácio (concertina e piano acústico), interpretou: “Milhoró”, “Comboio”, “Princesa Rita”, “Zá Boba”, “Jingololo”, “Tristezas não Pagam”. Da formação original estiveram presentes, António Miguel da Silva, Kituxe, que interpretou, “Monami”,     Hélder Leite, Anselmo de Sousa Arcanjo, e Marito.

Timakoi

Na sequência, surgem os préstimos materiais do discotecário, Timakoi, que consistiram na cedência de uma aparelhagem  e espaço de ensaio,  uma importante fase de evolução do grupo, que culminou com o surgimento da designação do grupo, Os Kiezos (vassouras), por ocasião de uma festa, na B4, no Bairro Nelito Soares.
Com uma formação relativamente sólida, foram surgindo os concertos no Centro Social do São paulo, altura em que entra o Vate Costa, como vocalista a interpretar música congolesa,  Mãe Preta, Kubata,  Maxinde, “Luar das Rosas”, Ginásio, Braguês, Salão dos Anjos, Kudissanga, Salão do Bembe, Salão do Matopá, Marítimo da Ilha, Bela Vista, “Las Palmas”, Onze Bravos da Samba, Ngola Cine, espectáculo de inauguração do Kilumba, Kipaka, Cine São João, Cine África, e Kandando do Adão Simão.
Em 1980, o cantor e compositor António do Fumo, então recluso na Damba, gozou de uma dispensa para assistir um espectáculo dos Kiezos, em Malanje. Duas semanas depois de libertado, entra para os “Kiezos”, como vocalista, com Tony Galvão, nas teclas. São desta altura as canções: “Kuami ku Soba”, “Monami”, “Kiezo uafu kiá”,  “Jingololo”, entre outros temas.

Sofisticação


A sofisticação electrónia, ao nível do equipamento, surgiu com o contributo do empresário Sabino Passos Benje, que comprou uma aparelhagem, “Vox”, ao conjunto de música moderna, “Os Jovens”. É desta fase a entrada, efémera, do Gaby Pireza, na guitarra ritmo e baixo, instrumentista que acabou por ser substituído por Humberto Valter Vieira Dias, que permanece nos Kiezos até a sua entrada no exército colonial português. Entram depois Hélder Leite, que grava “Nzo iami”, “Tristezas não pagam dívidas”, e Kuchinguegamba”, e Carlitos Vieira Dias que grava, de entre outros temas,  “Comboio”, com baixo de quatro cordas. Em 1973, entra o empresário, Vasco Costa, despeta o seu interesse pelos Kiezos, tendo sido o responsável pela aquisição de uma  aparelhagem de marca “Yamaha”, período de incremento da animação dos “Kiezos, nos bailes dos salões da cidade de  Luanda.

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