Tributo da trova ao duo ''Tchisosi''

Jomo Fortunato |
19 de Janeiro, 2015

Fotografia: Paulino Damião

A homenagem ao extinto Duo Tchisosi, de Manuel Victória Pereira e Lino Vieira, foi o pretexto para reencontro, no espaço Elinga Teatro, de importantes nomes da trova angolana, que, na ocasião, interpretaram temas do cancioneiro tradicional, referências da soul music norte-americana, e momentos memoráveis da canção política.

Manuel Victória Pereira e Lino Vieira, o último já falecido, do Duo Tchisosi, inscreveram os seus nomes na história da Música Popular Angolana, pela qualidade do trabalho de recolha de importantes peças musicais do cancioneiro tradicional umbundu, enquanto militantes de referência incontornável da trova angolana.
Manuel Victória Pereira recordou, de forma nostálgica, a forma como o Duo Tchisosi foi formado: “O Duo Tchisosi nasceu depois de um ano de trabalho com o Lino Vieira. Em 1981, ano da fundação da União Nacional dos Artistas e Compositores, o Lino Vieira tinha formado o Quarteto Juventus, com Gui Carlos, Gabriel e Zecax, todos jovens cantores. Já sem os dois últimos, o grupo contou com a minha adesão e de outros tantos, todos passageiros, num grupo que ficou marcada pela  heterogeneidade.
Um ano depois, separámos a nossa dupla porque achamos que era entre nós que havia mais afinidades para trabalhar. Foi  em Setembro de 1982 que passámos a nos identificar por este nome, Tchisosi, tirado de “otcisosi”, um dos ritmos que apresentávamos, basicamente, no tema “Onanga ia papai”, canção de roda que eu ouvira na minha infância, cuja letra o Lino recriou.” 
Das canções tradicionais à música infantil, o Duo Tchisosi deixou-nos os temas: “Ombandjale” (Herança), “Doidaguarela”, “Menino insone”, “Ngongo ei” e “Viaja nadando no sol”. Exceptuando, “Ekumbi lianda”, a maior parte das criações  são da autoria do Lino Vieira. Importa realçar  que, mesmo em relação às recolhas do cancioneiro, geralmente em umbundu, o Duo Tchisosi  criava versões com derivação para novas estrofes e variações melódicas, muitas vezes diferentes das originais.

Depoimento

Manuel Victória Pereira recordou o perfil do Lino Vieira, seu companheiro, nos seguintes termos: “O Lino Vieira era acima de tudo um grande criador musical. Éramos pessoas bem diferentes, e a complementaridade até enriquecia o nosso trabalho, mas tínhamos as nossas afinidades e o entendimento musical crescia, gradualmente, de forma  telepática. Recordo com orgulho a nossa colaboração na edição de canções populares, num caderno escrito pelo músico vietnamita Ton Dai e também o nosso envolvimento com o teatro, dessa vez com o cancioneiro nyaneka, na peça “ Nandyala e a tirania dos monstros” de José Mena Abrantes.
A capacidade de leitura das pautas, por parte do Lino, possibilitou estudar música recolhida no princípio do século passado e editada pelos padres Lang e Tastevin. Já não vivíamos na mesma cidade e ainda nos juntámos para tocar num restaurante, gravar para a Televisão Pública de Angola da Huíla, e fomos juntos ao festival “Cantigas de Maio” em Portugal, numa homenagem ao Zeca Afonso. Se ele não morresse tão cedo, creio que teríamos feito muito mais. Ainda recordo o Lino escrevendo a pauta de “Ngongo ei” durante uma aula de direito, totalmente alheio às palavras do professor”.

Influências

As  influências do Duo Tchisosi têm várias proveniências. O Lino Vieira cresceu numa área rural, com as suas tradições musicais, e depois estudou no seminário. Sabia ler e escrever música, com toda a influência dos cânticos religiosos, incluindo a música gregoriana. Por sua vez,  Manuel Vitória Pereira recebeu influências mais urbanas, quer dos ritmos angolanos, quer da música internacional, incluindo a anglo-americana. Aprendeu violão nas baladas do Zeca Afonso, nos temas do Ruy Mingas, na “Nueva Trova” do Sílvio Rodriguez e  com a Música Popular Brasileira, sobretudo ouvindo Chico Buarque de Holanda. Teve vários músicos na família e a influência do Milo Vitória Pereira, do Duo Ouro Negro, sensibilizou o seu respeito pela música rural.
Contudo, os seus mestres de violão foram: Zé Vieira da Catumbela e o Lanucha, do Namibe. O seu gosto musical moldou-se neste contexto, e os críticos chegaram a afirmar que a combinação das vozes do Duo Tchisosi, faziam lembrar o Duo Ouro Negro. A verdade é que  a dupla de vozes  eram concebidas pelo Lino Vieira, que, inicialmente, nunca ouvira os discos do Duo Ouro Negro.

Infantil

Nos anos 1980 a Rádio Nacional de Angola assumiu um certo papel de instituição cultural e educativa. Os programas revelavam artistas infantis, o que estimulou o Duo Tchisosi a trabalhar para crianças. Manuel Vitória Pereira já tinha tido experiências com o mundo da música infantil, com Gabriela Antunes e Artur Arriscado. No entanto, o reecontro com Lino Vieira numa das edições do programa, Piô-Piô da Rádio Nacional de Angola, estimulou a cooperaração, numa altura que eram colegas da faculdade, sem saber. Souberam quando as aulas começaram, e o quotidiano dos estudos ajudou a consolidar a parceria, a que se juntou outra colega de curso, Ana Major, que também marcou uma época importante do Duo Tchisosi. As canções infantis foram: “Onanga iá Papai”, “Tuendo ko munda”, e “Viaja nadando o sol”.

Homenagem

Em 1984 a Televisão Pública de Angola exibiu uma entrevista, e momentos de gravação do Duo Tchissoxi, dois vídeos que abriram o programa da homenagem ao Duo Tchisosi, realizado no dia 15 de Janeiro de 2014, no Elinga Teatro.  Na ocasião, foram recordados os nomes que, nos anos oitenta, deram corpo ao “Kixímbula”, um amplo movimento cultural alternativo criado na Faculdade de Medicina à volta da revista “Archote”, pelos depoimentos de E.Bonavena, Manuel Vitória Pereira, Orlando Sérgio e Avelino Sande.
Em palco desfilaram, musicalmente, Manuel Vargues, vulgarmente conhecido por Cuca, Avelino Sande, Toti Samed, Anabela Aya, Manuel Vitória Pereira, Duo Canhoto, Mauro do Nascimento, Coral Nzinga Brothers, e Carlos Lopes, num concerto único e pouco habitual pela variedade e qualidade da prestação dos cantores e compositores. No entanto, o grande destaque foi a inédita participação de Tanga, um nome incontornável do período da canção política, distante dos palcos que, com o público,  interpretou  os clássicos “Eme ngondo iame” e “Kambuta”.

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