Trienal de Luanda viajou até Niterói

Jomo Fortunato | Niterói
18 de Abril, 2016

Fotografia: Arquivo Edições Novembro

Angola levou à  cidade brasileira de Niterói uma mostra das novas tendências da música e do teatro, de 13 a 16 de Abril, incluindo um ciclo de conferências, numa parceria entre a Prefeitura local e a Fundação Sindika Dokolo, no âmbito do processo de  internacionalização da III Trienal de Luanda.

A cidade de Niterói possui uma tradição de recepção de artistas provenientes de várias latitudes do mundo, desde a década de 1990, e Cuba foi o primeiro país convidado, seguindo-se Portugal, Itália, Japão, e Espanha, e, em 2011, o tema geral de tratamento cultural, foram as vertentes artísticas da América do Sul. Este ano, para além da representação de Angola, houve uma mostra e venda de artesanato do Senegal, e indumentária tradicional da Guiné-Bissau.
Daniel Barreto, Sub-secretário de Acções Estratégicas da Prefeitura de Niterói, e coordenador dos “Encontros com África”, avaliou os contornos do certame: “O município de Niterói é reconhecido, a nível nacional, como uma cidade fortemente ligada à cultura. Além dos investimentos feitos nos últimos anos nos espaços públicos como: Museu de Arte Contemporânea, Teatro Municipal, Solar do Jambeiro, e Caminho Niemeyer, pusemos em prática uma série de “Encontros internacionais” de grande sucesso público, e mediático, que fez com que a cidade atraísse investimentos diversos, gerando recursos para a economia municipal.
Foram ao todo seis eventos internacionais de grande porte: Cuba em 1992, Portugal, em 1998, Japão, em 1998, Itália, em 1999, Espanha, em 2006 e América do Sul em 2011. Para dar continuidade a este trabalho, estamos num processo de montagem de um grande evento que vai colocar Niterói no centro mediático nacional.
Entretanto, o caráter cultural será enriquecido com a troca de experiências administrativas, académicas e económicas que proporcionarão à população uma imersão cultural no universo africano. De facto, os “Encontros com África” resultaram dos contactos com o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, e surgiram como uma proposta, visando a realização de um evento plural, que contará com a participação de vários países africanos”.

Projecto

Os “Encontros” são marcos que comprovam a vocação cultural e o potencial de uma cidade, que tem o privilégio de estar em frente ao Rio de Janeiro. Com este primeiro “Encontro com África” a Prefeitura Municipal pretende reafirmar o propósito de valorizar a cidadania, inserindo Niterói cada vez mais no cenário internacional.
O “Encontros com África” consistem numa mostra de cultura africana em suas variadas vertentes, trocas de experiências administrativas, eventos académicos, um grande fórum de turismo com a presença de agentes brasileiros e africanos, além de mesas redondas e seminários sobre a realidade e o futuro das relações económicas entre o Brasil e África. O “Encontro” é pautado em princípios de democratização e garante gratuidade em todas as suas actividades.
A organização dos “Encontros com África” pretendem estreitar a relação cultural com Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Do norte da África com: Marrocos e Tunísia, do sul com a África do Sul e Botswana, do leste com: Etiópia e Quénia, e, da África do oeste com: Senegal, Mali, Costa do Marfim, Benim e Togo.

Programa

Angola esteve presente nos “Encontros com África”, com uma delegação de artistas convidados pela  III Trienal de Luanda, da Fundação Sindika Dokolo, evento que decorre no Palácio de Ferro, até Novembro de 2016. No dia 13 aconteceu o “Fórum sobre Cultura Angolana”, que abordou a literatura, artes visuais e música, seguindo-se a peça “Laços de Sangue”,  no dia 14, uma metáfora sobre a segregação na África do Sul, do autor sul-africano Athol Fugard, representada pelos actores Raúl Rosário e Meirinho Mendes, sob direcção de José Mena Abrantes, do grupo teatral Elinga. Na sexta-feira, dia 15 de abril, subiu ao palco, o cantor e compositor Ndaka Yo Wiñi, e no dia 16 foi a vez de Gabriel Tchiema.

Música

A música angolana esteve representada nos “Encontros com África”, com Ndaka yo Wiñi, cantor e compositor da nova geração, que embora esteja inserido num mundo globalizado, e de fácil acesso à informação, reutiliza os meios virtuais das novas tecnologias da esfera comunicacional, em benefício dos valores artísticos da tradição, num processo ousado de inclusão e fusão com a estética da modernidade.
Ndaka yo Wiñi teve os seus primeiros contactos com a música desde tenra idade, sobretudo nos momentos em que presenciava os rituais e cerimónias tradicionais, aspectos culturais que constituíram o substrato cultural que solidificou a sua carreira artística. No concerto, realizado no Teatro Municipal de Niteói, Ndaka Yo Wiñi foi bastante aplaudido, e foi acompanhado por Nsangu-Zanza, guitarra, Kris Kasinjombela, baixo, Jackson Nsaka, bateria, Moisés Lumbanzadio, piano, e Dalú Roger, na percussão, tendo interpretado as canções: “Cimboto”, “Akunlu vendamba”,“Lombolola”, “Vakaile”, “Ombembwa”, “Cisungo Ciyunkongo”, “Ndjolela”, “Evamba”, “Tchove tchove”, “Sokolola”, “Ndikalikenda”, “Olukwembo”, “Pasuka”, “Ohele”, “Sandombwa”  e “Ukolo”.
Gabriel Tchiema, que encerrou com bastante êxito a participação de Angola nos “Encontros com África”, canta em tchokwe e transporta o estigma de uma voz que celebra de forma sublime a poética da angolanidade. A sua obra traduz uma música de feição identitária, entendida no seu sentido plural e inclusivo, e possui características, ao nível do ritmo, melodia e harmonia, passíveis de emigrar com assinalável êxito para os circuitos mais exigentes da chamada World Music. No concerto, realizado no dia 16, sábado, em Niterói, Tchiema interpretou: “Hoje choro”, “Tambwoka”, “Mulekeleke”, “Xi Yami”,  “Issaka”, “África yami”, “Mungole”, “Tchilota”, “Mbimba, Ndako pi”, “Azwlula”, “Makumi”, e “Itela”, tendo sido acompanhado por Maió Bass, baixo, Tedy Nsingui, guitarra solo, Nino Jazz, piano, Daniel Groove, bateria, Correia Miguel, percussão, e Neide da Luz, nos coros.

Conferências

Nos “Encontros com África”, o “Forum sobre Cultura Angolana” abordou vários temas, dos quais destacamos “Os contributos à reconstituição histórica da Música Popular Angolana”, a trajectória de dez anos de existência da Fundação Sindika Dokolo, com a arquitecta Marita Silva, directora da Fundação, e o professor Abreu Paxe que dissertou sobre “A migração fractal do provérbio”, na escrita, artes e arquitectura. Sobre a sua abordagem Abreu Paxe esclareceu o seguinte: “Diferentemente das artes canónicas reconhecidas pela cultura ocidental e assente em princípios convencionais na sua genealogia, o provérbio e outras matérias de tradição oral embora assimilem características destas, não têm sido alvo de estudo como objectos que circulam nas linguagens da cultura na actualidade, são abordadas de forma enviesada, tanto que os currículos das diferentes disciplinas que se dedicam ao estudo das artes e seus processos comunicativos não lhes dedicam esse foco.
A sua natureza existencial, a sua circulação são propagados pelas reverberações da paisagem da cultura na qual se inserem; o boca a boca, os rituais, o recorte de jornal, o cordel, o teatro, a dança, a literatura, a manchete de revista, o site, o filme, a arquitectura, o designer, a matemática. Esse entrelaçamento de discursos compõe um mosaico de sistemas dinâmicos, uma espécie de metonímia fractal simultaneamente precário e consistente como, por exemplo, o “Sona”, a par dos outros, capaz de na sua polifonia, compor um discurso particular. Por isso perguntamo-nos, que discurso será esse, como se compõe e que tipo de relações estabelece são algumas das questões a percrustar. Como traduzi-lo, ou seja, como contá-lo, narrá-lo, decifrá-lo para os limites de uma comunicação é, em si mesmo, o problema, um problema da tradução de linguagens. Na impossibilidade metodológica de abordar todas as frentes, decide-se pesquisar as relações entre o provérbio matéria das tradições orais e as mediações realizadas pela materialização da voz, da escrita, pela materialização das artes, as experimentações das vanguardas, na arquitectura e no designer”.

Homenagem

O guitarrista angolano Tedy Nsingui foi homenageado, no fim do concerto do Gabriel Tchiema pelo contributo prestado à Música Popular Angolana, uma iniciativa do Vereador Bira Marques. Na ocasião, Artur Maia, Secretário da Cultura de Niterói, realçou as qualidades de Tedy Nsingui, tendo afirmado que a homenagem é um reconhecimento da cidade de Niterói, e da Câmara Municipal de Vereadores. Por sua vez, o instrumentista agradeceu o gesto, tendo afirmado, visivelmente emocionado: “Tive que atravessar o oceano para ser homenageado, muito obrigado”.

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